Ex-moradores da Favela do Cimento ocupam galpão abandonado na Mooca

Uma semana após incêndio, 200 pessoas que evitaram abrigos moram em espaço na zona leste

Ricardo Hiar
São Paulo

​​Uma semana depois que a Favela do Cimento foi destruída por um incêndio, antigos moradores do local tentam recomeçar a vida numa área invadida, na mesma região da zona leste de São Paulo. De acordo com líderes comunitários,  ao menos 200 pessoas estão vivendo em um galpão a poucos metros da estação Bresser do Metrô, na Mooca .

A Favela do Cimento pegou fogo na noite do sábado (23), horas antes da ação prevista pela Prefeitura de São Paulo que pretendia desocupar a área. Na ocasião um homem morreu. No domingo (24), uma pessoa foi presa pela polícia sob suspeita de ser a responsável pelo incêndio criminoso.

Segundo a gestão Covas, 216 famílias que moravam na comunidade, entre elas 66 crianças, foram cadastradas para serem levadas a abrigos e inclusas em programas sociais. A oferta dos abrigos, no entanto, foi recebida com resistência por maior parte da comunidade.

De acordo com o relato de vários moradores, a ida para albergues é inviável, principalmente para quem vive com a família.

“Não é que a gente não queira sair daqui, mas não queremos ir para albergues por vários motivos. Lá a gente não pode ter as próprias coisas, não existe privacidade, e ainda tem que lidar com a falta de higiene de outras pessoas que vivem nas ruas. Nossa situação é diferente e por isso queríamos uma conversa com a secretaria de Habitação para que entendam o que estamos passando”, disse Steven Augusto Staduto, 35, que vivia há três anos na favela. 

Para o chapeiro Jonathan Chaves, 23, o problema é outro. Homossexual, ele estava na Favela do Cimento havia dois anos, onde dividia um barraco com o companheiro. 

O jovem afirma que migrou para a nova ocupação por falta de opções para o público LGBT. Ele afirma que não há abrigos que aceitem casais gays. "Cheguei a verificar e disseram que só aceitam casais héteros. Não nos deram escolha.”

Chaves diz que há pelo menos outros dez homossexuais que enfrentam o mesmo dilema na comunidade. "Aqui pelo menos somos aceitos, nunca sofri qualquer tipo de preconceito."

Rosana Bachiega, 30, que também recusou a ida para um abrigo, diz que a última vez que esteve em uma dessas estruturas administradas pelo município ficou doente. “Além da falta de higiene de muitas pessoas que vão para os abrigos, há vários doentes. Eu peguei tuberculose da última vez que precisei passar um tempo dormindo em albergue.”

Organização

Reinaldo Márcio, 38, é o líder da ocupação. Ele também considera inviável a ida para um abrigo —no caso dele, por trabalhar no período da noite. Por esse motivo, diz que passou a ajudar na mobilização pelo novo espaço. "Eu não conseguiria manter meu trabalho, pois não bate com o horário do CTAs (Centro Temporário de Acolhimento). 

Para ele, é importante ter uma liderança no grupo para organizar tudo. Desde o incêndio, por exemplo, muitas pessoas estão se mobilizando para entregar doações aos moradores. Reinaldo tem ficado encarregado de receber os donativos e distribuí-los, de acordo com a necessidade de cada família.

Doações recebidas por ex-moradores da Favela do Cimento
Doações recebidas por ex-moradores da Favela do Cimento - Ricardo Hiar/Folhapress

As roupas vão para um espaço do galpão, onde são separadas por tamanho. Os moradores podem escolher os itens que desejam pegar para si. Os alimentos estão sendo estocados em outra parte da estrutura, perto de uma cozinha comunitária. As refeições têm ocorrido de forma coletiva. 

No local há dois banheiros, um para os homens e outro para as mulheres. Todos precisam se organizar e ajudar na limpeza. Eles também estão conseguindo aos poucos retirar uma grande quantidade de entulho que estava no local quando chegaram.

Apesar da recomendação para não construírem estruturas dentro do galpão, pelo menos 20 famílias já montaram seus próprios barracos. “A gente orientou a não fazer, mas muitos preferem ter seu canto com mais privacidade e acabaram construindo”, afirmou Márcio.

Segundo ele, o espaço já estava ocupado pouco antes da chegada dos ex-moradores da Favela do Cimento. Com a previsão da desocupação, o grupo que chegou primeiro ao local foi solidário com os demais e priorizaram a vinda de mulheres com filhos e gestantes, afirmou.

Natalia Pereira Joaquim, 33, foi uma delas. Ela morava na favela destruída pelo fogo com o marido e com a filha de 3 anos.

No novo espaço da família, que ela diz ter construído sozinha, tem paredes feitas com madeirite e até otelhado. O piso foi forrado com um cobertor, que virou um tapete improvisado e foi suficiente para cobrir todo o cômodo. Há uma cama de casal e uma cama infantil, que ela fez questão de forrar com edredons e decorar com as bonecas e os ursos de pelúcia que conseguiu nas doações para a filha.

O espaço ainda tem um fogão de duas bocas, onde a mulher preparava o jantar enquanto falava com a reportagem. “Tem a outra cozinha, mas eu gosto de ter meu cantinho, de preparar a comida para a minha família”.

Barraco construído dentro de balcão onde Natália agora mora com o marido e a filha
Barraco construído dentro de balcão onde Natália agora mora com o marido e a filha - Ricardo Hiar/Folhapress

Natália diz está melhor nesse local do que na Favela do Cimento, porque muitas pessoas têm ido visitar as famílias e há mais segurança para as crianças. No entanto, ela diz que o sentimento de incerteza é constante.

“Já vieram notificar aqui que temos dez dias para desocupar esse galpão. Eu já perdi muita coisa com o incêndio. Foi algo perturbador, eu fiquei lá a noite inteira após o incêndio para tomar conta das poucas coisas que consegui salvar. Será que vamos ter que passar tudo isso de novo?”, questiona a mulher, que diz ter passado por outras duas desocupações e perdido seus pertences nas duas ocasiões.

Vários moradores relatam medo das ações de reintegração. Para eles, a ação da PM e da GCM foi abusiva na semana passada. Há relato de pessoas atingidas com armas com balas de borracha.

Eles afirmam ainda que, apesar da desocupação estar prevista para o domingo (24), o sábado foi um período muito tenso e já com várias tentativas por parte da polícia para intimidar membros da comunidade.

Sobre os relatos de truculência policial na ação, a PM diz que os agentes usaram "técnicas de controle de distúrbios civis para dispersar manifestantes que tentavam interditar a via".

Além do movimento intenso entre os próprios ex-moradores da Favela do Cimento, que ainda trabalham na construção de seus próprios barracos dentro do galpão, durante boa parte do dia voluntários chegam ao espaço para oferecer ajuda ou trazer doações.

Os moradores continuam recebendo os donativos diretamente no galpão, localizado na rua do Hipódromo, 1.000, na Mooca.

Outro lado

De acordo com a Prefeitura de São Paulo, desde o incêndio na Favela do Cimento foram realizados 74 encaminhamentos para acolhimento, 3 encaminhamentos com passagens, além do recolhimento de 18 cachorros e nove gatos. 

A gestão Covas afirmou que ofereceu vagas adaptadas para cada perfil mas que não pode "obrigar as pessoas a aceitarem os serviços ofertados". 

Segundo informou, há mais de 100 locais de acolhida para dez diferentes tipos de perfis, como famílias com crianças, mães com crianças, homens solteiros, famílias com pets e LGBTs. 

Sobre a presença de pessoas doentes nos centros de acolhimento, a prefeitura afirmou que os funcionários estão orientados a acionar os serviços de saúde para atender os conviventes.

"Quanto à nova ocupação no galpão citado, por se tratar de uma propriedade particular, a reintegração de possa deve ser solicitada à Justiça pelo proprietário", disse em nota.

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