Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Homem de vídeo viral dormiu na rua após ajudar idosa em chuva no Rio

Imagem levantou debate sobre racismo estrutural e gerou vaquinha que arrecadou R$ 100 mil

Luisa Leite
Rio de Janeiro

Varlei Rocha Alves, 50, dormiu na rua na noite desta segunda-feira (8), como de costume. Horas antes, havia ajudado uma idosa a atravessar a rua alagada durante temporal que atingiu o Rio de Janeiro.

No dia seguinte, o guardador de carros deixou de ser anônimo, depois de um vídeo comover internautas ao mostrar a cena, em que move duas caixas de plástico, sucessivamente, como plataforma para a passagem da mulher na rua alagada.

Varlei Rocha Alves, o Capoeira
Varlei Rocha Alves, o Capoeira - Instagram/Razões Para Acreditar

Uma vaquinha virtual foi organizada, e Alves conseguiu arrecadar pouco mais de R$ 100 mil para o sonho de deixar uma casa para o filho.

Há duas décadas ele trabalha na rua Ministro Viveiros Castro, em Copacabana, na zona sul do Rio. Conta que, por falta de dinheiro para voltar para casa, costuma dormir nas ruas do bairro.

Varlei é conhecido pelos moradores da região como Capoeira, apelido herdado da época que praticava o esporte.

“Faço tudo. Sabe aquela pessoa que você precisou e ela está lá?”. Assim Capoeira descreve sua ocupação. Para conseguir dinheiro, ele guarda e lava carros e ajuda pessoas a carregar sacolas de compras, entre outros bicos. 

E assim o fez na última segunda. Com a chuva, havia pouco movimento de carros. “Estava duro, quebrado. Pensei: como é que vou fazer para ganhar um dinheiro nessa chuva?”, contou. 

Assim surgiu a ideia de fazer uma “ponte” com duas caixas de feira para que pedestres pudessem ir de uma calçada a outra sem encharcar os pés na água que inundava a rua. 

Capoeira diz que perdeu a conta de quantas pessoas usaram sua “ponte” improvisada no temporal, mas calcula ter conseguido cerca de R$ 20 com os pagamentos pelo serviço.

Encerrado o trabalho que ajudou a idosa a chegar em casa mais seca, ele mesmo não teve a mesma sorte. “Só volto para casa quando tenho dinheiro, é muito ruim não poder voltar”, contou à reportagem, com olhos marejados. 

Muitas vezes Capoeira passa uma semana inteira dormindo na rua. Ele conta que já ficou mais de um mês sem poder voltar para casa. 

Na noite do temporal, o guardador de carros dormiu abrigado em frente a um supermercado, envolto em dois sacos de lixo para tentar evitar a chuva. Quando consegue, Capoeira vai de Copacabana até a Pavuna, na zona norte, para passar a noite na casa da irmã, Claudilene Rocha, onde mora seu filho Darley, hoje com 10 anos.

Após o vídeo viral, Capoeira diz que não tem conseguido realizar os bicos que usualmente ocupam seu dia. Desde então, ele tem dado entrevistas a diversos programas de redes de televisão. Além da vaquinha, ganhou da apresentadora Ana Maria Braga um celular.

Ele diz que ficou contente com o aparelho, mas que não consegue usá-lo porque é analfabeto. Por isso quem cuida do presente é seu filho Darley, que disse à reportagem ter recebido centenas de mensagens de pessoas procurando seu pai.

Capoeira nunca frequentou a escola. Nascido em Campos dos Goytacazes, mudou para o Rio ainda criança com a mãe após o divórcio dos pais. Dos nove irmãos, dois faleceram prematuramente. “Um de doença mesmo. O outro uns caras da favela mataram”.

Também perdeu sua mulher, Daniele Altino de Jesus, mãe de Darley, quando o menino tinha menos de dois anos. Ela foi atropelada aos 25 enquanto atravessava a avenida Atlântica. 

Agora, Capoeira diz querer usar o dinheiro que ganhou para investir no futuro do filho. “Quero comprar as coisas para mim: geladeira, fogão. O resto vou colocar na caderneta de poupança para o meu filho.”

A casa descrita por ele como um “barraco” abriga também seis sobrinhos e não possui eletrodomésticos, apenas uma televisão “daquelas antigas”.
 

VAQUINHA​

Foi de Vicente Castro, 34, autor da página "Razões para Acreditar", a iniciativa de procurar Capoeira para esclarecer a circunstância da cena —muitos dos seguidores fizeram críticas.  “A gente vive um momento muito polarizado. As pessoas levantaram muito a questão do racismo estrutural da cena, associando ao Brasil colonial, dizendo que ele foi só um serviçal para ela [a idosa]. É um debate válido, mas acredito que o momento foi sincero.” 

Ao ouvi-lo, decidiu abrir uma vaquinha online para ajudar Capoeira a comprar um terreno e construir uma casa. Em cerca de oito horas, a meta de R$ 40 mil já havia sido atingida. No momento de publicação da reportagem, o site promovido por Vicente já havia arrecadado R$ 103.740, 259% da meta.
 

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