Descrição de chapéu Rio de Janeiro Chuvas

Moradores de Muzema, no Rio, vivem sob vigilância de milicianos

Proprietários de apartamentos em prédios irregulares pagam mensalidade a grupos criminosos

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

"Prezado condôminos [sic], queremos informar para aqueles que ainda não contribuem com as mensalidades do condomínio", diz uma placa na entrada do Figueira.

A partir de janeiro, segundo o informe, todos teriam que pagar mensalidades de R$ 60 (apartamento) ou R$ 100 (casa). Para cada dia de atraso, R$ 1 extra.

Foi neste condomínio em Muzema (comunidade vizinha à Barra da Tijuca, na zona oeste carioca) que dois prédios desabaram na sexta (12). Bombeiros ainda buscavam moradores soterrados, com ou sem vida, neste domingo (14) de chuva.

Até o começo da noite, nada encontraram. Os últimos corpos resgatados, na véspera, eram de uma mãe, a diarista Zenilda Amorim, e seu filho Ruan, 10Horas depois, acharam o corpo de mais uma mulher ainda não identificada.

Corrente de oração de missionários da Universal em Muzema, região dos prédios desabados no Rio
Corrente de oração de missionários da Universal em Muzema, região dos prédios desabados no Rio - Anna Virginia Balloussier/Folhapress

Com o trio, subiram para dez as vítimas, fora 14 desaparecidos, do desastre ocorrido numa área dominada pela milícia. E uma marca dela por ali, moradores disseram à Folha, era justamente aquelas "mensalidades". Ninguém quis se identificar, porque todo mundo sabia: com miliciano não se brinca.

Os edifícios que colapsaram eram irregulares, como muitas das construções na área. Um dos campos de atuação da milícia é justamente grilagem de terras e exploração imobiliária ilegal. Quem vive ali pode não pagar IPTU, mas paga para os "donos do pedaço", afirmam.

 

Em janeiro, a operação Intocáveis mirou líderes milicianos que controlavam Muzema e a vizinha Rio das Pedras. Um deles: o ex-PM Adriano da Nóbrega, que foi colega de batalhão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) investigado pelo Ministério Público. O próprio Nóbrega já foi homenageado pelo filho do presidente Jair Bolsonaro.

O trabalho de repórteres que acompanham a tragédia é sempre filmado por alguém com celular. Alguns moradores sustentam que não seriam apenas curiosos, e sim "olheiros" da milícia. O interesse é saber o que as pessoas estão falando sobre o que aconteceu —a Polícia Civil investiga quem seriam os responsáveis pelo terreno.

"Onde o poder público não atua, atua o poder paralelo", diz a advogada Maíra Lima Vieira, 36. 
Desde o temporal que alagou o Figueira dias atrás, ela ligou "20, 30, 50 vezes" para órgãos da prefeitura darem um jeito na lama e nos entulhos que continuam amontoados a céu aberto.

Maíra mora num prédio vizinho aos dois que desabaram. Só subiu para pegar uma mala, um guarda-chuva e uma bolsa com estampa de araras. Edifícios no entorno, como o seu, estão interditados, e três deles já tiveram a demolição anunciada.

Mas a advogada não gosta da ideia difundida na esteira da tragédia de que "todo mundo aqui é miliciano, espertalhão". Não é, diz. "Se tem miliciano, tem um só. A maioria é trabalhador. [...] Quem tem um milhão não mora aqui, mora no Leblon, em Ipanema."

Conta que pagou R$ 200 mil pelo seu imóvel. Outras unidades por perto custam menos da metade disso, preços abaixo do valor do mercado. Uma tática dos donos dos terrenos seria incentivar a ocupação de prédios ainda em obras, para impedir eventuais interdições por agentes públicos. Há várias placas de "vende-se" no condomínio, repleto de antenas de telefônicas e TV a cabo.

O trabalho dos bombeiros atraía de tudo. Parentes à espera de notícias dos desaparecidos. Moradores do Palace 2, edifício que tombou no Rio 21 anos atrás. Voluntários que serviam café e refrigerante a todos, como Julia Carolina, 14, e sua mãe, a doméstica Eliane Cláudia, 41.

Ela dormiu na "patroa", no Leblon, no dia do dilúvio que pode ter ajudado a fragilizar a estrutura dos edifícios desabados. Mas diz não ter medo de morar tão próxima a uma encosta, e em condições questionáveis.

Muitas fachadas são bem ajeitadas, verdade, mas é possível ver, por portas de garagem aberta, estruturas que lembra uma obra inacabada. "Botei isso na cabeça: a gente só morre no dia que tem que morrer", diz Elaine. 

Fornecedores da marca Gelo do Hulk, usada para resfriar bebidas de bombeiros, se misturavam a missionários evangélicos. "Show da fé" e "discípulo radical" eram algumas das inscrições nas camisas desses grupos, que ofereciam pão com mortadela e até quentinhas doadas para os que trabalhavam ali, de bombeiros a jornalistas.

Dezenas de obreiros da Igreja Universal chegaram no meio da tarde e abriram uma grande roda, um pastor no meio dela. A oração por ele puxada pedia para que Deus abençoasse desabrigados, familiares de vítimas e também o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, sobrinho do bispo Edir Macedo criticado por sua conduta nas chuvas da semana passada.

O clima de solidariedade predominava, mas havia em paralelo uma disputa velada pelo território. "Chegou tarde, querida", disparou um evangelizador de outra igreja ao avistar a trupe da Universal.

Presidente da associação de vítimas do Palace 2, Lauriete Barbosa Guedes perdeu oito amigos, o número de vítimas da tragédia dos anos 1990. Dizia estar ali por se sentir solidária às famílias de Muzema. Mas não portava boas novas. Para ela, um desastre desses é difícil de superar. “O nosso tem 21 anos, mas é como se fosse hoje. Não vai passar, não.”

A advogada Maíra acompanhou da janela o pânico dos vizinhos. “Foi terrível ver pessoas se machucando, muito triste mesmo ver a vida se esvaindo em questão de segundos.”

Eliane Claudia de Lima, 41, e a filha Júlia Carolina, 14, são voluntárias em Muzema
Eliane Claudia de Lima, 41, e a filha Júlia Carolina, 14, são voluntárias em Muzema, no Rio - Anna Virginia Balloussier/Folhapress

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