Descrição de chapéu Obituário Thomaz de Aquino Prata (1922 - 2019)

Mortes: Progressista, padre foi perseguido na ditadura

Thomaz era a favor do matrimônio para padres e achava o celibato algo 'desumano'

Marina Estarque
São Paulo

Quando Thomaz de Aquino Prata fez a primeira comunhão, aos 9 anos, confessou seus pecados: “mato passarinho, só não mato beija-flor e joão-de-barro”, disse. “Isso não é pecado, mas não mata, não, coitadinhos dos bichinhos”, respondeu o padre. 

A reação carinhosa encantou o menino, que decidiu seguir o sacerdócio. “Achei bonito ser padre, ele criava um ambiente de alegria e paz”, disse Thomaz, já idoso, em entrevista ao projeto História Viva, da Universidade de Uberaba.

Thomaz de Aquino Prata
Thomaz de Aquino Prata - Arquivo Pessoal

Thomaz nasceu em 1922 na cidade mineira. Nos estudos, era precoce: aprendeu a ler antes de entrar na escola rural. Se formou em filosofia e teologia e se ordenou padre aos 23 —era tão novo que foi preciso pedir autorização a Roma.

Padre Prata era progressista, “defensor dos pobres e dos direitos humanos”, conta seu irmão Hugo, 89. Por isso, foi perseguido na ditadura e teve problemas na Igreja —chegou a ser expulso do seminário. 

No regime militar, foi preso e interrogado por dois dias. Era professor de sociologia e, segundo ele, obrigado a ensinar “todas as ideologias”. “Fisicamente não me torturaram, mas moralmente sim”, disse, ao História Viva. Na época, informantes assistiam e gravavam suas aulas e pregações. 

Dentro da Igreja, precisou enfrentar bispos. Era a favor de liberar o matrimônio para padres —“essa lei [do celibato] é desumana”. Disse que a Igreja tinha deixado “de pregar o reino de Deus” e passado a ser uma organização política.

Adorava futebol, era flamenguista fanático e centro-avante. Escrevia no jornal local e publicou vários livros, entre eles um dicionário de mineirês. Em 4 de abril, aos 96, teve uma parada cardíaca.

Deixa três irmãos e 19 sobrinhos. Em seu enterro, conta Hugo, foram autoridades, mas também muitas pessoas pobres. “Elas chegavam a pé ao cemitério. Isso me comoveu.” 


coluna.obituario@grupofolha.com.br

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