Mudança de templo budista cria disputa e fiéis entram na Justiça

Organização quer vender terreno na Vila Mariana e construir catedral em outro bairro

Marina Estarque
São Paulo

Em uma rua arborizada e tranquila de São Paulo, o anoitecer é acompanhado de um suave cheiro de incenso e um som contínuo, pouco perceptível, do mantra: namumyouhourenguekyou.

Dentro do templo Nikkyoji, na Vila Mariana (zona sul), vinte pessoas meditam em uníssono em uma segunda-feira de março. O templo, com fachada e telhado em madeira, tipicamente japonês, é cercado de torres residenciais.

A visitante é convidada a entrar pela simpática Toshie Pereira, 62, que oferece um banco e tenta traduzir os rituais para uma ocidental brasileira. Em seguida, ela retoma a oração, com um agradável roçar das contas do seu odyuzu, espécie de terço budista.

Na porta, cartazes avisam que o templo está de mudança. A venda do terreno e demolição da catedral gerou uma disputa entre fiéis e a direção da organização religiosa que chegou à Justiça.

Cerca de 20 pessoas entraram com uma ação contra a Honmon Butsuryu Shu (HBS), conhecida no Brasil como Budismo Primordial. Os fiéis conseguiram uma liminar que, na prática, suspende a venda do terreno até que a ação seja julgada.

Ao mesmo tempo, foi feito um pedido de tombamento do prédio no Conpresp, órgão municipal de preservação do patrimônio, e o Ministério Público de São Paulo instaurou inquérito civil. “Estamos apurando os fatos para ver se há interesse histórico, cultural e arquitetônico do prédio”, afirmou Carlos Henrique Prestes Camargo, promotor de Justiça do Meio Ambiente.

A organização religiosa negociava a venda à incorporadora Tegra, que não informou quais os planos para o terreno. O novo templo seria construído na avenida do Estado, em uma permuta, mas o local não agradou o grupo de fiéis.

Segundo eles, de famílias tradicionais japonesas, o novo endereço vai dificultar o acesso para idosos que moram na região. “Eles vão ser os mais afetados, muitos dependem dos familiares para ir ao templo ou usam o metrô”, afirma a professora Rosa Mika Kishikawa, 48, uma das fiéis que consta no processo contra a HBS.

Claudio Batalha, professor de História da Unicamp que fez um parecer sobre o tombamento do prédio, afirma que a região é historicamente importante para a colônia. “A comunidade japonesa começou na Liberdade, mas depois se expandiu para a zona sul, particularmente para a Vila Mariana”, disse.

O grupo afirma que possui vínculo emocional com a catedral, construída com doações e esforço dos fiéis no início dos anos 1980. Fundado em 1962, o Nikkyoji ficava no Bosque da Saúde (zona sul) até se mudar para a Vila Mariana.

Batalha diz que, para ser tombado, um imóvel não precisa ser antigo, mas ter valor cultural e simbólico. “Não pode demolir algo que é único e tirar a catedral de um local onde está enraizada.”

O fundador do templo Nikkyoji, o monge Ibaragui Nissui, foi o primeiro sacerdote budista a pisar no Brasil, em 1908. Ele chegou no porto de Santos no navio Kasato Maru, que trouxe os primeiros imigrantes japoneses ao país. A rua do templo atual leva seu nome.

Rosa é da quarta geração da sua família a frequentar a catedral Nikkyoji. Seu bisavô conheceu Nissui, e seu pai foi responsável pelo projeto de construção do templo. “Cresci ali, frequentando o grupo de crianças. É onde eu me sinto japonesa. Seria muito doloroso se fosse demolido”, afirma.

O representante de vendas Yukio Mizobe, 56, é da terceira geração a frequentar o Nikkyoji e também está no processo. Os restos mortais de muitos dos seus familiares estão no ossário do templo: irmã, pai, mãe e avós. Aos domingos, depois dos cultos, ele desce as escadas até o local e reza por seus parentes. “É um local sagrado para mim. Vi meu pai plantando as árvores do jardim japonês, cuidando das flores. Vivo todas essas lembranças quando vou lá.”

O telhado, construído manualmente por marceneiros do Japão, é motivo de orgulho dos fiéis. A diretoria da HBS afirma que a fachada seria preservada no novo projeto. “Todos colocaram seu pé de meia para fazer o telhado, com muito sacrifício. Meu pai, que tem 94 anos, está muito magoado”, conta o desenhista industrial Fábio Ishii, 63, também no processo.

O arcebispo da HBS do Brasil, Nitiguen Takassaky, 58, diz que a atitude desses fiéis é motivada por vaidade e apego, contrários aos pilares da fé budista. “Eles dizem que o templo não pode ser destruído. Mas é para nascer algo melhor. Estão apegados a um prédio.”

Uma das principais reclamações do grupo é que a região escolhida para o novo templo é insegura e sujeita a alagamentos. A HBS diz que vai buscar outras opções de terrenos, mas não vai abrir mão da mudança.

Fora da comunidade japonesa, o templo é considerado uma referência para muitos moradores do bairro. A catedral organiza bazares com comidas típicas, colônia de férias, escotismo, aulas de arte samurai e até cursos para idosos.

O arcebispo da HBS do Brasil, Nitiguen Takassaky, 58, celebra culto
O arcebispo da HBS do Brasil, Nitiguen Takassaky, 58, celebra culto - KEINY ANDRADE/FOLHAPRESS

A diretoria da HBS, no entanto, afirma que as reclamações dos vizinhos por barulho são recorrentes e um dos motivos para a mudança do templo. O arcebispo Takassaky diz já recebeu duas notificações da prefeitura por esse motivo.

Outra questão importante, segundo a direção da HBS, é que a catedral precisa passar por obras de acessibilidade, acústica e manutenção. “Só a parte de acessibilidade custa R$ 700 mil. Não temos esse valor em caixa”, diz o engenheiro Sérgio Uematsu, presidente do templo.

Além disso, sair da Vila Mariana para um local de maior visibilidade, como a avenida do Estado, é considerado pela HBS uma questão de sobrevivência. Eles dizem que a maioria dos novos fiéis são ocidentais. “Aqui é muito escondido. Se dependermos da colônia, vamos morrer, assim como muitas associações japonesas que estão fechando as portas”, diz Takassaky.

Há hoje cerca de 1.700 fiéis cadastrados no templo. A HBS nega que o novo endereço seja perigoso. Consideram a mudança uma oportunidade de prestar serviço a populações mais carentes.

“Falar que o lugar é de pobre e por isso não podemos ir para lá é negar o budismo”, diz Takassaky. O arcebispo cita o exemplo da flor de lótus, que nasce no lodo. “Precisamos sair da zona de conforto e ajudar quem precisa, porque aqui não estamos fazendo nada disso.”

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