Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Bombeiros têm dia de buscas intensas em escombros de prédios

Cenário é propício para achar sobreviventes em local de tragédia no Rio, diz coronel

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Ao menos nove mortos, a vítima mais nova com 7 anos, e uma busca intensa por desaparecidos. Assim transcorre o dia seguinte ao colapso de dois prédios do condomínio Figueiras do Itanhangá, em Muzema, uma região sob guarda da milícia na zona oeste do Rio, na sexta (12).

Havia esperança no ar. O coronel Luciano Sarmento, coordenador de operações do Corpo de Bombeiros, disse que o cenário era "propício para nós encontrarmos vida".  Neste sábado (13), porém, uma mulher e uma criança, um menino, foram encontrados sem vida pelas equipes. Essas duas vítimas ainda não foram identificadas. 

"O tempo é nosso inimigo", reconheceu a jornalistas quando já se contavam mais de 30 horas trabalhando nos escombros. Contudo, da forma que as construções tombaram, não dava para descartar a formação de pequenos bolsões de ar. 

O coronel lembrou de relatos de pessoas que sobreviveram até sete dias em condições parecidas. 
Em Muzema, há crianças que sobreviveram aos pais. Caso de Isabele, 4, que perdeu o pai Hiltonberto Rodrigues Souza e a mãe Maria de Nazaré Sá Sodré, além do irmão Hilton Guilherme, 12.

A equipe encontrou, no começo da noite de sábado (13), o corpo de um menino nas ruínas dos edifícios, mas ele ainda não foi identificado.

Drama também de Clara Ramos Rodrigues, 10, a Clarinha. O pai dela, Cláudio Rodrigues, 40, foi um dos moradores levados com vida para o hospital. Acabou não resistindo. A mãe dela, Dilma Rodrigues, 35, passaria por uma segunda operação no sábado.

Família do pastor Claudio Rodrigues, 40, que morreu em desabamento de prédio em Muzema, na zona oeste do Rio
Família do pastor Claudio Rodrigues, 40, que morreu em desabamento de prédio em Muzema, na zona oeste do Rio - Reprodução

Sobrinho de Cláudio, Bruno Rodrigues, 29, conta à Folha que eles se mudaram para o Figueiras na semana anterior ao desabamento. O pastor havia dado o carro como entrada e planejava pagar parcelas de R$ 3.000 para quitar o apartamento, diz o sobrinho.

Todos dormiam quando a estrutura do edifício emitiu fortes estalos. Em instantes, tudo foi abaixo. "Ele caiu abraçando a filha, para protegê-la com seu corpo", diz Bruno.

Cláudio presidia a Assembleia de Deus de Missões em Muzema. Outro papel de liderança: vice-presidente da associação de moradores da comunidade.

Após o temporal que dias antes deixou dez mortos no Rio, o líder evangélico passou madrugadas limpando ruas e ajeitando sua igreja —que sofreu perda quase total, segundo seu sobrinho. Com as chuvas, a água na região subiu até a cintura em alguns pontos.

Cláudio chegou em casa às 3h30 de sexta. Pretendia voltar para a igreja pela manhã para continuar o trabalho. Não deu. Ex-jogador de futebol com carreira na Europa, ele largou tudo quando Clarinha nasceu. Achava que sua missão na vida era ser pastor, conta Bruno.

Isabele, 4, virou símbolo da tragédia que mobilizou mais de cem militares, além de drones e cães farejadores, para operações de resgate de corpos e possíveis sobreviventes.

A menina foi resgatada com machucados no rosto, e só. Seu irmão Hilton Guilherme passou mais de 15 horas soterrado. Foi socorrido com vida dos entulhos, por volta das 23h de sexta. Estava consciente, falava com bombeiros, mas morreu no hospital Miguel Couto pela madrugada.

Horas depois, os corpos dos pais dos dois foram reconhecidos no IML (Instituto Médico Legal) pela família do casal, originário do Maranhão. Moravam há cerca de três meses num apartamento de quarto andar. Hiltonberto contava a amigos que tinha pagado R$ 60 mil pelo imóvel, em 2018. Reformou-o antes de levar esposa e filhos para lá. 

A caçula da família estava sendo cuidada por Erismar Correa Souza, 28, que mora com a irmã de Hiltonberto. "Ontem mesmo a gente se encontrou, ele pintou minha moto, falou que ia se mudar de lá", conta Erismar.

Já Isabele não parava de perguntar do pai. Achava que ele estava fazendo uma reforma no prédio onde moravam, segundo o tio Raimundo do Nascimento, 38. Também mencionava "o homem que salvou ela debaixo da poeira", um bombeiro, conta o irmão da mãe dela.

Isolada por ora das notícias sobre a família, a menina está numa casa em Rio das Pedras "brincando depois que colocamos gelzinho na cara dela", afirma Erismar.

Tanto Rio das Pedras quanto Muzema, comunidades vizinhas, ficam sob domínio de milícias. Segundo o Ministério Público, uma área sob comando do ex-PM Adriano da Nóbrega, colega de batalhão de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) sob investigação da Promotoria. Hoje foragido, Nóbrega foi homenageado por Flávio na Assembleia Legislativa fluminense e defendido pelo presidente Jair Bolsonaro em discurso na Câmara, após ser condenado por homicídio (depois seria absolvido).

Os veículos de resgate passavam por dificuldades para chegar aos prédios tombados. Ainda havia muita lama, consequência das chuvas que atingiram o Rio no começo da semana.

Já são mais de 30 horas de buscas. Sobreviventes relataram que as construções ainda estavam em obras. A Polícia Civil abriu inquérito para investigar quem são os responsáveis pelo condomínio.

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), esteve na área na manhã desta sexta. Saiu sem falar com a imprensa e foi vaiado por moradores da região. A prefeitura informou apenas que os prédios eram irregulares.

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