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'Só vejo vantagens de usar perspectiva de gênero em operações', diz militar

Brasileira Marcia Andrade Braga recebeu prêmio da ONU por trabalho em missão de paz

Marina Estarque
São Paulo

Na sua primeira semana de trabalho na República Centro-Africana, Marcia estava no banco de passageiro de um carro quando o motorista avisou: “se abaixa!”. O carro da missão de paz da ONU, com dois militares brasileiros, era apedrejado.

“Não vi nada, fiquei o tempo todo abaixada. Eram muitas pedras, e a gente bateu o carro em uma árvore”, lembra Marcia. Após o ataque, os dois foram cercados. “Tinha muita gente ao redor do carro, não sei se eram os agressores ou se era a população que olhava por curiosidade. Um militar das forças locais conteve a situação, e nós conseguimos ser evacuados para o hospital”. Marcia teve ferimentos leves, e o outro oficial precisou passar por cirurgias.

A capitão de corveta da Marinha brasileira conta o episódio com um viés técnico, sem alterar o tom de voz, em uma entrevista por telefone para a Folha. “Faz parte. Quando você vai para uma área de conflito está sujeita a isso. Tem aquela ideia de que mulher vai desistir com qualquer ataque, mas não é assim. Somos muito mais fortes do que parecemos”, afirmou.

Marcia Andrade Braga​, 44, trabalha há quase um ano como assessora militar de gênero da Missão de Paz das Nações Unidas na República Centro-Africana (conhecida pela sigla Minusca). Na sexta-feira (29), ela recebeu o prêmio de Defensora Militar da Igualdade de Gênero da ONU em Nova York, do secretário-geral da organização, António Guterres.

Para Marcia, a perspectiva de gênero traz mais efetividade às operações militares e uma maior compreensão dos efeitos dos conflitos em diferentes grupos da sociedade. Ela espera poder aplicar essas questões quando retornar ao país ao final do seu período na missão, em 24 de abril.

“Sou militar, então cumpro ordens. Quando chegar vou ver o que a Marinha vai definir para mim. Mas acho que posso sim contribuir com esse conhecimento, que foi reconhecido [pela ONU]”, diz ela.

​Marcia explica que a perspectiva de gênero pode ajudar a indicar qual é o melhor horário para realizar uma operação, evitando momentos do dia em que há mais mulheres e crianças nas ruas, por exemplo. “Esse estudo vai trazer informações muito preciosas para o tomador de decisão. Até para saber onde posicionar uma patrulha. Só vejo vantagens de usar perspectiva de gênero em operações militares e empregar mais mulheres no front”, diz.

A capitão afirma que a maioria dos conflitos atuais são internos, entre grupos armados, em oposição às guerras tradicionais entre países. Nesse cenário, defende ela, a questão de gênero se torna ainda mais importante.

“As operações que temos hoje em dia são justamente para conter a violência e proteger o civil. E, quando temos patrulhas e ações militares com mulheres, isso facilita o diálogo e a interação com a comunidade. Há um engajamento e receptividade muito maiores”, explica. Com isso, a missão também obtém informações estratégicas, afirma ela.

“Não é querer mulher na missão só para ter igualdade. É porque o trabalho dá resultado”. É essa visão que ela diz defender quando se depara com o preconceito de interlocutores com a questão de gênero. Procura oferecer informações técnicas e militares.

“Pouco a pouco as pessoas vão se conscientizando. Quando você mostra os resultados, o preconceito começa a cair, tira essa mística”. Ela afirma que nunca sofreu discriminação na Marinha por ser mulher. “As Forças Armadas foram evoluindo. As coisas estão mudando, e isso é bom”.

Em seu trabalho, Marcia montou uma equipe com um assessor de gênero para cada localidade da missão. Também passou a se reunir com lideranças femininas para entender como as mulheres eram afetadas pelos conflitos, principalmente em relação a violações sexuais.

A partir dessas reuniões, percebeu que as mulheres ficavam vulneráveis a estupros quando iam buscar água, tarefa tradicionalmente feminina nessa região. Também entendeu que a ausência de rede elétrica tornava quase impossível que as vítimas identificassem seus agressores, já que as casas ficavam completamente escuras à noite.

Por isso, Marcia sugeriu aos comandantes da missão que instalassem painéis solares e bombas de água perto das casas, para aumentar a segurança. Em batalhões com uma presença feminina maior, Marcia montou grupos de engajamento, que trabalhavam próximos da comunidade e coletavam informações.

A tarefa não era fácil, porque a Minusca tem só 3,7% de mulheres militares —a média da ONU é de 4%. Ao receber o prêmio em Nova York, Marcia pediu uma maior participação feminina nas missões.

Segundo ela, ter patrulhas com mulheres é fundamental para prevenir violações sexuais, inclusive crimes cometidos por membros da própria tropa da ONU. Assim como outras missões, a Minusca já recebeu diversas denúncias de exploração e abuso sexual praticados pelos capacetes azuis. “As mulheres nas patrulhas têm um olhar diferenciado e isso ajuda a identificar possíveis ameaças”, diz.

Antes de entrar para a Marinha, Marcia foi professora de ensino fundamental na rede pública por sete anos. Nascida em Teresópolis, no estado do Rio, conta que teve uma infância “muito simples”. Seu pai era pintor e a mãe, revendedora de cosméticos. Só pôde pagar pela faculdade depois de começar a trabalhar como professora.

“Na minha cidade não tinha faculdade pública e não tinham muitas opções de cursos. Escolhi análise de sistemas, que parecia o mais interessante”, conta. Logo após se formar, prestou concurso para a área na Marinha e foi aprovada.

Para chegar até a missão da ONU, precisou passar por uma longa seleção com testes físicos e de idiomas, além de treinamentos de gênero e proteção dos direitos das crianças. Apesar das duras condições de trabalho, Marcia quer participar de outras missões no futuro. Já perto do fim do período na ONU, a capitão se diz triste de deixar o posto.

“Claro que sinto falta da casa, da comida brasileira, do marido, mas o trabalho me absorveu totalmente. A função de assessor de gênero é muito envolvente. A possibilidade de ajudar as pessoas me comoveu muito.”

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