Sobreviventes enfrentam problemas de moradia um ano após tragédia em SP

Na rua ou em ocupações, famílias que escaparam do Wilton Paes de Almeida esperam lar regular

Porteiro Almir da Paixao Cardoso, 56, um dos sobreviventes da queda do prédio Wilton Paes de Almeida, no centro de SP

Porteiro Almir da Paixao Cardoso, 56, um dos sobreviventes da queda do prédio Wilton Paes de Almeida, no centro de SP Zanone Fraissat/Folhapress

Dhiego Maia
São Paulo

Elaine de Oliveira Nantes, 37, diz que é pós-graduada em sobrevivência. A carioca já acordou de um coma de um ano e meio, escapou de ataques quando vivia nas ruas e sobreviveu à queda do prédio Wilton Paes de Almeida, no Paissandu, no centro de São Paulo.

A tragédia completa um ano nesta quarta-feira (1º). O edifício, que tinha 24 andares, além de dois pisos de sobrelojas, ruiu após pegar fogo. O crime de incêndio ainda é investigado pela Polícia Civil. "Só saí com a roupa do corpo, mas o que importa é que consegui salvar toda a minha família", disse.

O desabamento, que deixou 7 mortos, 2 desaparecidos e 291 famílias desalojadas, expôs problemas da política habitacional na capital paulista.

As famílias viviam no Wilton Paes de Almeida de forma irregular, sob o guarda-chuva do Movimento de Luta Social por Moradia, que invadiu o prédio e ocupou os dez primeiros andares. A torre pertencia à União, mas estava cedida à prefeitura sob a gestão de Bruno Covas (PSDB).

A Folha encontrou sobreviventes vivendo nas ruas, morando em outras ocupações e em casas improvisadas distantes do centro.

Naquele 1º de maio de 2018, depois do incêndio, Elaine, o marido e as duas filhas dela, de 3 e 11 anos, foram morar numa barraca no acampamento de sobreviventes no largo do Paissandu. Ali conviveram por três meses com ratos, inundações e falta de banheiro até conseguirem novo teto em outra ocupação, desta vez, na alameda Nothmann, também no centro.

Poucos dias antes de o WPA (sigla formada pelas iniciais de Wilton Paes de Almeida) cair, a filha de Elaine, Eloá, 15, morreu vítima de um infarto.

Um mês depois, seu marido, Ruberlei Quintilhano, 34, foi preso sob a acusação de tráfico de drogas. O filho mais velho, de 19 anos, também está internado na Fundação Casa. Um quinto filho, de 12 anos, mora com a avó.

Elaine não conseguiu ter acesso ao aluguel social de R$ 400, benefício concedido pelo governo aos sobreviventes. "Como eu sou doente [tem problema respiratório crônico], meu cadastro ficou em nome do meu marido. Mas ele não conseguiu sacar nenhuma parcela porque está preso", afirmou.

Na busca feita pelo benefício junto aos órgãos de habitação da prefeitura e do governo do estado, ouviu que precisava "renovar o cadastro".

Elaine não tem renda fixa e põe comida na mesa fazendo bicos e pedindo esmolas. Passa o dia ao lado de Val, Tedy e Barba "“amigos que vivem na maloca, apelido dado ao agrupamento de moradores de rua sob a marquise de um prédio abandonado no calçadão do largo do Paissandu que dá acesso ao Vale do Anhangabaú.

Por três dias, a Folha acompanhou a rotina de Elaine. No terceiro dia, estava feliz por ter ganho dois litros de leite, mas preocupada. Corria para montar o jumbo (kit com produtos higiênicos, roupas e comida) que pretendia levar ao marido preso. Não conseguiu. 

Além disso, descobriu que está grávida. "Vai ser o meu sexto filho e só espero que ele tenha muita saúde", diz.

É na maloca que também está o catador de recicláveis João Jesus Santos, 42. Lá, encontrou abrigo para dormir após se separar de Francisca, que ficou com os cinco filhos do casal em uma ocupação na Sé (centro).

João, que também morava com a família no Wilton Paes de Almeida, disse que os R$ 400 que recebe do governo não são suficientes. "Com essa crise, não estou tirando muita coisa da catação. É uma brincadeira dizer que uma família grande como a minha vive só com isso."

Eliofabia Rodrigues da Silva, 35, seus filhos de 11 e 18 anos e a vira-lata Mel cruzaram a rua para ter um novo teto. A família da auxiliar de limpeza mora em uma ocupação na avenida Rio Branco (centro). Antes de chegar à nova moradia "feita de casas com quarto e sala sob um galpão“, a família também ficou acampada no largo do Paissandu por três meses e dez dias.

Da cozinha, Fabia, como prefere ser chamada, avista por buracos na parede os escombros do Wilton Paes de Almeida. Diz que chora ao preparar as refeições pois se lembra da amiga Selma, que morreu soterrada com os filhos gêmeos.

A maranhense agradece por pequenos confortos: lavanderia, água encanada e banheiro com ducha quente. "No Wilton, a gente não tinha um banheiro digno. Fazíamos nossas necessidades em um buraco. A energia vinha de um 'gato'", diz.

A moradora paga R$ 100 mensais para viver na estrutura que um dia foi um hotel. O dinheiro é usado para pagar a energia das casas, com 200 moradores, e o serviço de Almir da Paixão Cardoso, 56, o porteiro que também exercia a mesma função no Wilton Paes de Almeida. No prédio que caiu, Fabia desembolsava R$ 600 "“a polícia investiga se os pagamentos eram realizados mediante extorsão.
 

Fabia disse estar preocupada com o que ela classificou de descaso do poder público. "Não podemos ficar a vida inteira recebendo só aluguel social. Recebemos a promessa que teríamos a nossa casa."

 

A Folha teve acesso aos escombros do prédio. Foi sobre a montanha de entulho parcialmente coberta por mato e cercada por tapumes que Almir relembrou onde ficava seu cômodo, no térreo. O porteiro se emocionou ao olhar para a igreja luterana semidestruída ao lado e lembrou que perdeu uma Bíblia no incêndio. "Agora é recomeçar do zero", disse.

Aloísio Pinheiro, secretário da habitação, diz não saber quando as famílias do WPA receberão casas. "Não temos um cronograma para isso", disse. "Hoje nós temos 222 famílias cadastradas e que tinham vínculo com o WPA. Elas continuarão recebendo os R$ 400 até o atendimento habitacional", afirmou o secretário.

Em nota enviada à Folha, a pasta da habitação explicou que o processo será demorado porque as famílias do Wilton Paes de Almeida entram na fila na qual já estão 28 mil pessoas que aguardam uma casa.

Segundo Fabiana Galera Severo, defensora pública da União e coautora de uma ação civil pública que busca reparar os danos causados às famílias, a fila é uma falácia.

"Não existe uma fila cronológica, linear e organizada como a municipalidade quer fazer crer. As novas unidades habitacionais não reduzem a espera porque sempre há novos despejos promovidos pelo próprio poder público. É uma lógica viciada."

No caso de Elaine, para reaver os valores retidos de seu auxílio aluguel, ela terá que procurar um posto da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano) e comprovar que morava com Ruberlei e que o marido está preso. Com o benefício em seu nome, ela terá de atualizar o cadastro na Secretaria Municipal de Habitação.

Para a Polícia Civil, três lideranças do Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM) são culpadas pela tragédia. Nireudes de Jesus Oliveira, o genro dela, Hamilton Coelho Resende, e Ananias Pereira dos Santos foram indiciados pelo crime de incêndio qualificado. Eles acompanham os trâmites em liberdade e já disseram reiteradas vezes à Folha que não têm responsabilidade.

O Ministério Público aguarda a elaboração de perícia complementar que será juntada ao inquérito para oferecer ou não denúncia à Justiça. A Promotoria também ingressou com outras 12 ações civis públicas exigindo dos proprietários dos imóveis invadidos e da prefeitura reformas de segurança.

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