Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Interrupção de trens no Rio por tiroteios cresce cinco vezes

Número de confrontos também aumentou; moradores se dizem reféns da violência que prejudica o transporte

Thaiza Pauluze
São Paulo

Nos três primeiros meses deste ano, a circulação dos trens no Rio de Janeiro foi interrompida 19 vezes por tiroteios às margens da linha férrea. É quase cinco vezes o número de paralisações do ano passado, 4.

Considerando a primeira semana de abril, foram 21 interrupções a tiros, ou a metade de todo o ano de 2018, quando foram registradas 41 ocorrências do tipo pela SuperVia, concessionária que opera o serviço. 

Passageiros ficam reféns de tiroteio nas linhas de trem, no Rio de Janeiro - Giovanni Bello/Folhapress

O aplicativo OTT (Onde Tem Tiroteio), com sistema de dados colaborativo, percebeu o aumento dos tiroteios no estado neste primeiro trimestre. Foram 1.673, 26% a mais que o mesmo período no ano passado.

"Nunca vi uma situação dessa. São armas de grosso calibre e largo alcance. O tiro é na comunidade, mas acaba perpassando o sistema", afirma o diretor de operações da SuperVia, João Gouveia. Por vezes, a demora para a normalização do serviço chega a cinco horas. 

Única estação suspensa, Manguinhos (ramal Saracuruna), na zona norte carioca, é a recordista, responsável por 14 paralisações entre janeiro e março. 

A professora Raisa Monteiro Capela, 31, soma as manhãs em que ficou presa na plataforma da estação a espera do fim das rajadas. No início de março, diz, foi a mais assustadora. Ela tinha saído da Baixada Fluminense, onde mora, e estava chegando à Fiocruz, onde cursa o mestrado.

"Quando o trem abriu a porta, começou a estourar os tiros. Todo mundo deitou no chão da estação. Só víamos as balas pegando nos postes, muito próximo. A gente vira refém dessa situação", conta. "Infelizmente hoje eu acostumei, já sei até onde me esconder."

Na última semana, operações em dias seguidos na favela de Manguinhos impediram que Raisa chegasse de trem. "Aí eu solto antes e pego um carro por aplicativo." Gasta mais que o dobro do bilhete, que custa R$ 4,60. 

No dia 3 de abril, o universitário Leandro Gonçalves, 23, viu o trem em que estava dar ré, após ficar 20 minutos parado. Do maquinista veio o aviso: em função dos tiros, não ia dar para passar. Ele ficou duas horas na estação esperando findar o fogo cruzado. Perdeu uma entrevista para um projeto de extensão na faculdade. 

"Eu tinha gastado o último dinheiro que tinha na carteira para pagar a passagem, que já é bem cara", diz o estudante. "Depois passei por lá em pânico, você não sabe quando vão voltar os tiros. É um sentimento de revolta, de impotência."

De acordo com a Polícia Militar, agentes da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) de Manguinhos trocaram tiros com criminosos em uma ocorrência de roubo de carga. 

Na manhã seguinte, uma passageira foi baleada dentro da estação. Segundo a PM, os agentes foram atacados a tiros por bandidos quando passavam pela rua principal da região, a Leopoldo Bulhões. 

O ano passado teve sete pessoas atingidas dentro de vagões dos trens no Rio. 

A 6 km de Manguinhos está a estação Jacarezinho (ramal Belford Roxo), onde a favela homônima fez o trem parar três vezes este ano. Por lá, foram dias seguidos de operações do Bope, o batalhão de operações especiais, e de rasantes vindos de cima, de um helicóptero. 

A linha férrea, que leva cerca de 600 mil pessoas por dia, cruza 112 comunidades, 40 delas que acumulam problemas de segurança pública, segundo a concessionária. 

As estações que estão frequentemente na linha de tiro: Parada de Lucas, Vigário Geral, Del Castilho e Costa Barros, na zona norte, Senador Camará, Tancredo Neves e Padre Miguel, na zona oeste, e Gramacho, em Caxias, na Baixada Fluminense. 

Os confrontos acontecem ora entre facções criminosas rivais pelo domínio territorial e do tráfico de drogas, ora entre os criminosos e a polícia e, por vezes, entre traficantes e milicianos.

DISCURSO

O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), foi eleito com discurso de que a solução para a violência era mais confronto e prometeu fazer um abate de criminosos

Depois de 100 dias de governo, na semana passada, amenizou o discurso. “Ninguém quer a violência. Ninguém quer o confronto. A política de segurança do Rio de Janeiro não está baseada na política de confronto. É muito mais amplo do que isso”, afirmou Witzel, no Brazil Conference, nos Estados Unidos.

Desde o ano passado, a SuperVia mudou a forma como responde aos passageiros no Twitter. Antes, dizia que tinha parado de operar de forma genérica, devido a problemas na via. Agora, avisa na rede social e nos alto-falantes que "por conta de uma ocorrência de segurança pública", a circulação é parcial. 

"A gente lamenta que a insegurança nessas regiões coloque em risco a integridade de passageiros e funcionários", afirma Gouveia. "Mas não temos como intervir, é responsabilidade da segurança pública."

Não são, no entanto, só os projéteis que levam insegurança ao transporte por trilhos. Atos de vandalismo, principalmente de furto de cabos, são reiterados e os reparos custam cerca de R$ 6 milhões ao ano. As linhas também convivem com usuários, compra e venda de drogas.

Em algumas estações, por causa dos traficantes, a SuperVia tem que escolher com cuidado os funcionários que podem trabalhar. No Jacarezinho, só contratam moradores da própria comunidade.

"Todo mundo sabe do ponto de venda de drogas na entrada das estações, mas é quase institucionalizado. Pessoas cheiram, fumam maconha dentro do trem. Também entram bandidos armados. No início eu me assustava, agora vou trocando de vagão para sair de perto", diz Raisa. 

Perguntada, a Polícia Militar afirmou em nota que realiza patrulhamento em todo o entorno da malha ferroviária e que o Grupamento de Policiamento Ferroviário atua sempre que solicitado pela concessionária para ocorrências dentro das plataformas ou nos vagões.

"Vale ressaltar que quando existem operações, a PM solicita a interrupção da circulação dos trens para que a vida da população não seja colocada em risco", afirmou a corporação.

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