Mulher fica em estado gravíssimo após ser atingida em confronto na cracolândia

Ela foi baleada na cabeça durante conflito entre usuários e GCM; um homem também ficou ferido

Mariana Zylberkan Rogério Pagnan
São Paulo

​​Um conflito entre usuários de drogas e a GCM (Guarda Civil Metropolitana) terminou em tiroteio na tarde desta quinta-feira (9), na cracolândia, região central de São Paulo. Uma mulher e um homem foram atingidos. 

De acordo com o Corpo de Bombeiros, que fez os primeiros-socorros, a mulher recebeu um tiro na cabeça e foi levada para a Santa Casa em estado gravíssimo. 

Ela sofreu uma parada cardiorrespiratória. Segundo o hospital, o homem foi atingido na perna direita e não corre perigo de morrer.
 

Na cracolândia, no entanto, a mulher atingida na cabeça é conhecida como Aline, uma jovem usuária de drogas que frequenta o fluxo há algum tempo. 

Sua família, dizem os usuários, é de São Paulo e já teria ido ao local para tentar convencê-la a voltar para casa, sem sucesso. 

Segundo o secretário municipal de Segurança Urbana, José Roberto Rodrigues de Oliveira, a confusão começou no momento em que era feita a limpeza do local e os usuários de drogas tentaram impedir o desmonte de barracas que se espalhavam pela rua. 

Usuários ouvidos pela reportagem afirmam que o conflito teve início quando um guarda-civil impediu a passagem para o fluxo —local de  concentração de usuários na rua — de um homem com um prato e um copo na mão. 

Ele teria jogado o prato no guarda-civil, que reagiu. Testemunhas contam que uma pessoa, de dentro do fluxo,  fez um disparo de arma de fogo na direção dos agentes, que também revidaram com tiros.

Os usuários foram então para a esquina da avenida Rio Branco com a rua Helvétia e o trânsito teve que ser interrompido pela Polícia Militar. Trechos nas avenidas Duque de Caxias e Rio Branco também ficaram interditados, tomados pelo grupo de usuários.

A dispersão na Rio Branco aconteceu após A PM lançar ao menos seis bombas de efeito moral para espalhar os usuários que correram pelas ruas da região. Não há informações de onde partiram os disparos. 

Dentro do fluxo normalmente forma-se barracas de lona onde a o crack é vendido e consumido. Um usuário —que afirma vender drogas em uma dessas barracas— conta que viu a mulher ser atingida na cabeça. Ela caiu na hora e foi arrastada por usuários para fora do fluxo. O socorro chegou pouco tempo depois, segundo ele. 


Uma moradora da região afirma que a mulher ficou estendida na rua Helvétia após ser atingida. 
Segundo a gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), durante o tumulto, os agentes perceberam que havia uma mulher ferida com um tiro na cabeça, quando foi acionado o resgate do Corpo de Bombeiros e ela foi socorrida à Santa Casa. A ocorrência está foi registrada no 77º Distrito Policial.

Por volta das 17h30, o trânsito de veículos foi liberado nos dois sentidos da avenida Rio Branco. Os usuários que chegaram a se aglomerar na praça Princesa Isabel retornaram para a rua Helvétia, próximo ao local onde o fluxo se concentra normalmente.

Oficiais da GCM organizaram uma fila de usuários para revistá-los um a um na esquina das ruas Helvétia e Dino Bueno, no retorno para o fluxo.

Mochilas e sacolas eram revistadas e a ordem era para todos levantarem a camisa antes de passar pelos oficiais, que usavam lanternas para fazer a revista.

Questionado sobre disparos feitos por GCM contra o fluxo, o subcomandante Ferreira da guarda afirmou que irá acionar a corregedoria para apurar a informação.

O caso mais recente de alguém baleado em confronto na cracolândia ocorreu em fevereiro de 2017, quando um  fotógrafo de uma agência de notícias foi atingido na perna. Na ocasião, outro fotógrafo também foi alvejado, mas seu aparelho de celular impediu que a bala perfurasse sua coxa. 

Três meses depois, um voluntário foi sequestrado na cracolândia enquanto tentava regatar uma usuária de drogas que vivia na região. Seu corpo apareceu cerca de cinco dias depois no Bom Retiro, bairro vizinho, na região central da capital.  

Segunda semana

Esta é segunda vez em pouco mais de uma semana que confrontos entre usuários de drogas e agentes de segurança são registrados na cracolândia. Na manhã de terça-feira (30), uma ação de guardas municipais e policiais militares no local causou dispersão de usuários de drogas pelas ruas da região. Houve correria, depredação e disparo de bombas de efeito moral. 

Desde os anos 1990 nas imediações da Luz, diferentes gestões tentaram resolver o problema da cracolândia, sem sucesso. Na gestão de Fernando Haddad (PT), por exemplo, ruas do centro eram dominadas pelo tráfico, numa espécie de QG do crime organizado onde se vendia droga.

Em 2017, uma megaoperação policial comandada pelo governo do estado desobstruiu essas vias e prendeu traficantes.

A reboque, o então prefeito e atual governador João Doria (PSDB) lançou o programa  Redenção, focado na internação dos dependentes químicos, e anunciou o ‘fim’ daquela cracolândia —ela diminuiu, mudou-se para um quarteirão de distância, mas está longe de um fim.

Um ano após a megaoperação, em 2018, a prefeitura reduziu o ritmo de internações de usuários e impôs uma espécie de quarentena àqueles que abandonassem o tratamento.

Operações policiais na cracolândia

maio de 2017 - PM realizou uma megaoperação para desmantelar a feira livre de drogas que operava no local. A partir disso, a Prefeitura de São Paulo instituiu rotina diária de limpeza, e proibiu a montagem de barracas. 

agosto de 2016 - Ação policial com 500 homens foi deflagrada na cracolândia e no Cine Marrocos, prédio ocupado por sem-teto no centro, e prendeu 32 pessoas.

abril de 2015 - Prefeitura e governo do estado articularam ação de dispersão de usuários com bombas de gás lacrimogêneo. Dois dias depois, o fluxo retornou.

janeiro de 2012 - Polícia Militar intensificou a Operação Centro Legal e ocupou as principais ruas da Luz com cerca de 300 homens. Dependentes se dispersaram para outros pontos da região.

setembro de 2005 - A gestão Serra-Kassab deu início ao projeto Nova Luz, que pretendia recuperar a área com investimento público e privado, mas o modelo não vingou.

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