Atriz da favela ensina a rebolar ao som de ritmos afro e 'funk sensual'

Discussões feministas estimulam alunas, diz a dançarina Taísa Machado, 30

Júlia Zaremba
São Paulo

“Técnicas pra soltar o quadril e sambar na cara da sociedade. Um treino ao som de funk e outros ritmos afros a fim de estimular a sexualidade, a sensualidade e o improviso.”

Essa é a proposta, anunciada em um flyer da Oficina Afrofunk, aula que se tornou um sucesso entre mulheres no Rio de Janeiro e que chegou em abril a São Paulo. 

Durante duas horas de aula, a atriz e dançarina carioca Taísa Machado, 30, ensina alunas e alguns poucos alunos —aviso: homens héteros não são bem-vindos— a fazer o quadradinho e outros passos de danças com muito rebolado que têm origem em outros países. 

O twerk, que surgiu nos Estados Unidos e caiu no gosto de cantoras como Rihanna e Nicki Minaj, o baikoko, popular na Tanzânia e que costuma ser dançado no chão, e o dancehall, que mistura movimentos sensuais com acrobacias, são algumas delas. 

A advogada Sofia Melo, 25, foi uma das participantes da oficina realizada no centro da capital paulista, em 20 de abril. “Gostei principalmente dos paralelos que a Taísa faz entre os movimentos atuais do funk e a cultura africana”, diz ela, que pretende repetir a dose. 

Mais conhecidas no Rio, as aulas com funk e rebolado para mulheres também vêm se popularizando em São Paulo. O enfoque no empoderamento feminino atrai alunas de todos os tipos que queiram se sentir bem com seus corpos.

 

Além de Taísa, outros professores oferecem aulas semelhantes em São Paulo. É o caso do Dance Clip, do coreógrafo Justin Neto, que virou o queridinho de celebridades como Grazi Massafera e Juliana Paes, e dos cursos do estúdio Maravilhosas Corpo de Baile, em Pinheiros, na zona oeste.

Outra aula de Taísa, realizada toda sexta-feira à noite no bairro da Lapa, na região central do Rio, também atrai muitas cariocas: a Oficina Proibidona, um “super treino de funk sensual e aeróbico” ao som de músicas que contêm “poesia erótica avançada, vulgo putaria”, como ela descreve em uma rede social.

A playlist inclui hits de funkeiras como MC Rebecca (“Cai de Boca”), MC Nick (“Mete com Força e com Talento”) e MC Mazzoni (“Eu Vou Passar”). Nada de coreografias nas oficinas. “Ensino os passos e, no fim, cada uma dança do seu jeito, curtindo a vibe”, diz. “Não quero criar a ideia de que existe um padrão de sensualidade ou de corpo.”

As turmas são compostas, em sua maioria, por mulheres entre 20 e 35 anos, de classe média. Mas a procura por aquelas com mais de 35 tem crescido, segundo ela.

No início, conta, os grupos eram formados, basicamente, por moças "ligadas à vida noturna”, que “queriam treinar para arrasar na festinha”. Não que elas já não existam: "Algumas perguntam, ao fim da aula, se vou para o baile, para irem comigo", diz. 

 

Para Taísa, as discussões feministas dos últimos anos e a maior oferta de funks que abordam pontos de vista femininos serviram de combustível para mais mulheres buscarem as suas aulas.

“Percebo um interesse maior delas em lidar com a energia sexual de forma mais tranquila, sem muita neurose. As mulheres querem se sentir gostosas e safadas”, diz. 

Moradora do Complexo do Chapadão, conjunto de favelas na zona norte do Rio, Taísa tomou gosto pelo funk na infância, vivida entre São João de Meriti, município na Baixada Fluminense, e o bairro da Pavuna, na zona norte.

Tinha 14 anos quando foi pela primeira vez a um baile funk, na Mangueira, favela na zona norte da capital. Virou hábito. “Eu juntava com uma galera e íamos escondidos. Eram três horas de ônibus até o baile, contando ida e volta”, lembra.

Já adulta, decidiu investigar a relação entre ritmos como kuduro (de Angola) e dancehall (da Jamaica) e o funk. A pesquisa incluiu assistir a vídeos na internet e fuçar redes sociais de dançarinas da Tanzânia e de Gana.

Em 2014, transformou as pesquisas em uma aula. Passava por um momento financeiro difícil e precisava arrumar um jeito de ganhar dinheiro. Divulgou a oficina na internet e conseguiu atrair 35 mulheres de primeira. 

Cinco anos e muito suor depois, estima que já ensinou mais de mil meninas a rebolar. As aulas custam de R$ 45 a R$ 50, mas costuma oferecer dez vagas gratuitas para mulheres negras da periferia.

A próxima aula na capital paulista será em 25 de maio, no Espaço 170, na Vila Madalena, na zona oeste —pretende vir para São Paulo ao menos uma vez por mês.

“Rebolar é bom para o corpo, é gostoso, é divertido, é natural. Trabalha coisas no corpo de forma orgânica”, diz.

Para ela, mulheres que rebolam ainda não são vistas com bons olhos por causa do racismo e do machismo incrustados na sociedade. “Rebolar é, para mim, símbolo de autonomia e de poder”, afirma. “Como diria Conceição Evaristo, é um gesto de insubmissão.”

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