Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Barão de Cocais (MG) tenta voltar à rotina, apesar de seguir com risco de talude em mina da Vale

Passada a semana tida como limite para queda da estrutura, cidade voltou ao ritmo nesta segunda (27)

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

Correios e agências bancárias voltaram a funcionar nesta segunda-feira (27), em Barão de Cocais (MG), depois de uma semana fechados. Passado o período entre os dias 19 e 25 de maio —data estimada pela Vale para a queda do talude na cava da mina Gongo Soco— a cidade tenta retomar ritmo normal. 

A preocupação é que a queda de parte do talude —um paredão dentro da cava— pode provocar vibrações no solo e servir de gatilho para o rompimento da barragem Sul Superior. A 1,5 km de distância da cava, a barragem já se encontra em nível de risco 3 —ruptura iminente ou já ocorrendo— desde março. 

Nesta segunda, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), a velocidade da deformação na parte inferior passou a ser de 18 centímetros por dia, enquanto os pontos mais críticos chegaram a 21,5 centímetros. Desde 2012, a movimentação registrada era de cerca de 10 centímetros ao ano. 

As agências do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal abriram normalmente. Bradesco e Itaú terão atendimentos em postos móveis. 

O prefeito Décio Geraldo dos Santos (PV) diz que a tensão com a situação de espera segue, mas que a cidade está funcionando normalmente, “porque não tem outra opção”. 

Desde fevereiro, quando a barragem foi colocada em nível de risco 2 e cerca de 440 pessoas foram retiradas de casa na zona de auto salvamento (a primeira a ser atingida em caso de rompimento), desemprego e atendimentos médicos por problemas psicológicos aumentaram. 

Segundo Décio, o efeito econômico veio da queda do turismo e da insegurança geral criada pela situação com a barragem. Lojas de materiais de construção tiveram quedas nas vendas porque ninguém quer construir sem saber o que poderá acontecer. 

“Aqui só não aconteceu o acidente, mas o impacto é igual [ao de Brumadinho]. Nós estamos sofrendo muito, a cidade está sofrendo muito”, afirma ele. “Nós estamos preparados para o pior, estamos em nível 3. Esse talude foi só um complicador que apareceu”. 

Segundo Wagner Nascimento, chefe da Divisão de Segurança de Barragens de Mineração da ANM, não há como prever novas datas para a possível queda do talude.

“Tudo pode acontecer. Ele pode continuar descendo devagarzinho, pode descer de uma vez ou ele pode parar. O que a gente vê é que se parar de descer, continua o risco de deslizamento. Tem que avaliar todas as situações e ver como melhor gerir a situação”, explica. 

A Vale diz que segue monitorando a estrutura 24 horas por dia e revendo, diariamente, as previsões sobre deslocamento de parte do talude. A empresa reforça que não há elementos técnicos para afirmar que o deslizamento poderia levar à ruptura da barragem. 

O município enfrenta ainda problemas com recursos. Segundo o prefeito, o governo do Estado ainda não pagou cerca de R$ 14 milhões em repasses atrasados, e a Vale também não entregou a ajuda que prometeu para os custos do hospital municipal. 

Segundo Décio, entre fevereiro e maio, a rede municipal de saúde teve 6 mil atendimentos a mais do que no mesmo período do ano passado. O vereador Leonei Pires (PV) tinha dito à Folha, no sábado, que o aumento fora mensal. 

A mineradora diz que vem prestando atendimento médico aos moradores retirados das casas em fevereiro, e que está avaliando formas de atender ao pedido da prefeitura de Barão de Cocais para reforçar o atendimento de saúde. Ela não fala em prazo para pagamentos.

A gestão Romeu Zema (Novo) respondeu à Folha que o governo repassou a Barão de Cocais um total de R$ 8,4 milhões referentes a ICMS, IPVA e Fundeb. Outros R$ 8 milhões que o município ainda tem a receber estão contemplados em acordo assinado entre estado e municípios em abril. O acordo prevê pagamento em parcelas a partir de janeiro de 2020. 

Décio, no entanto, diz que gostaria que houvesse um olhar diferente para a cidade neste momento. Ele mesmo enfrenta dificuldade para dormir e costuma sonhar com barragens. 

“Estou lutando sozinho aqui contra um gigante, sem ajuda do poder público mais alto, do governo federal ou do estadual”, afirma. 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.