Barragem 'bomba-relógio' faz população de Barão de Cocais (MG) arrumar malas

Documento da Vale diz que estrutura na mina Gongo Soco pode se romper entre os dias 19 e 25 de maio

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

“A gente está apreensivo, aguardando o momento”, diz a professora Lourdes Reis, 56. Assim como ela, boa parte dos moradores de Barão de Cocais (MG), a 100 km de Belo Horizonte, passou o domingo (19) à espera do toque da sirene anunciando o rompimento da barragem na mina Gongo Soco, da Vale. 

Um documento da mineradora, divulgado em uma recomendação do Ministério Público de Minas Gerais na última quinta (16), diz que, caso o talude da mina, que vem se movimento há vários dias, se rompa, poderá causar a ruptura da barragem Sul Superior entre os dias 19 e 25 de maio. 

A casa onde Lourdes vive desde que nasceu, ao lado do rio São João, pode ser atingida pela lama de rejeitos em um eventual rompimento. Depois de casar, ela construiu um barracão nos fundos da casa dos pais, onde vive hoje com os três filhos, que têm idades entre 26 e 28 anos. Na casa da frente, moram a irmã mais nova e cinco sobrinhos. 

Ela conta que uma mala com roupas e documentos já está separada, à espera do toque da sirene e do carro de som que devem alertar sobre o rompimento. Se a barragem em Gongo Soco romper, será a terceira em menos de quatro anos em Minas Gerais. 

“A vizinhança toda está preparada nesse sentido. Estamos nos sentindo como uma grávida na última semana de gestação, aguardando a hora do parto”, diz ela. 

Treinamento de evacuação em caso de emergência em Barão de Cocais (MG), realizado no sábado (18)
Treinamento de evacuação em caso de emergência em Barão de Cocais (MG), realizado no sábado (18) - Eliezer Viegas/Futura Press/Folhapress

Em fevereiro, cerca de 440 moradores foram retirados da zona de autossalvamento na cidade—a primeira a ser atingida em caso de rompimento. No final de março, com o nível de risco aumentado para 3, que significa ruptura iminente, a situação piorou. 

No dia 25 de março, a Defesa Civil do estado promoveu um simulado de treinamento de fuga para os moradores da área onde a lama pode chegar em 1h12. Cerca de 60% das 6.000 pessoas que eram esperadas apareceram.

Neste domingo (18), o simulado foi repetido para tentar incluir quem não estava presente no anterior, mas a participação foi ainda menor: apenas 26% foram. 

Segundo moradores, a maioria estava desmotivada. Enquanto no primeiro treinamento eles levaram 32 minutos para evacuar toda a área de risco, no domingo, foram necessários 11 minutos a mais. 

“Para o simulado, todo mundo estava esperando na porta de casa o carro de som passar. Agora, queria ver se estivesse tomando banho, na cozinha, fazendo alguma coisa que não ouvisse o som, pegando a gente desprevenido, como vai ser? E se a gente ficar estaqueado e nem sair do lugar [na hora da calamidade]?”, questiona Lourdes. 

Os relatos de caminhões carregados com pedras indo em direção à mina, geradores e caminhões com água chegando à cidade aumentaram a preocupação da população. Os moradores afirmam que a Vale também estaria fazendo um levantamento de leitos de hospitais na cidade. 

Questionada pela Folha, a mineradora respondeu com a mesma nota que divulgou no sábado. Nela, a Vale diz que está fazendo a terraplenagem para construção da contenção em concreto a 6 km à jusante da barragem Sul Superior desde quinta. Além dessa estrutura, estão sendo instaladas contenções com telas metálicas e posicionamento de blocos de granito para barrar os rejeitos. 

“Em função da intervenção, haverá um aumento na circulação de caminhões e equipamentos pela cidade com destino à mina de Gongo Soco, o que poderá causar eventuais transtornos ao trânsito”, diz o texto.


Apesar do estado de alerta constante, os moradores seguem a rotina. Nesta segunda, Lourdes terá que dar aulas na escola municipal onde trabalha, em um distrito a 11 km de casa. “Eles alegaram que, se estourar e eu estiver lá, eu tenho que ficar para lá”. 

A empresa onde um dos filhos dela trabalha parou desde sexta. Ela também se preocupa com o que pode acontecer com a casa, diz que não está clara a altura que a lama pode chegar. Já transferiu algumas coisas para o segundo piso na esperança de salvá-las. 

“O importante para mim é salvar vidas. Os bens materiais a gente espera que, quando passar isso, se a gente puder recuperar alguma coisa, a gente consiga”, diz. 

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