Em SP, fotógrafo revela cotidiano da comunidade muçulmana no Ramadã

Marcelo Schellini, 39, nasceu em Botucatu (SP) e viveu em países como o Egito e a Arábia Saudita

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Muçulmano segura Alcorão - Marcelo Schellini
São Paulo

Oração, jejum, caridade. Quantas cidades inteiras se revelariam em São Paulo pelos olhos de quem nela vive? À resposta incerta, contrapõem-se pequenos fragmentos desses universos. Nesta segunda-feira, um deles se abriu em forma de devoção.

Neste primeiro dia do Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos, as mesquitas se transformam.

Exercitar o olhar para esses locais de oração revelará que, quando a noite cair, a quebra do jejum autoimposto enquanto o sol brilhar será feita em comunidade, com familiares e amigos, de acordo com a tradição. Durante esses 30 dias sagrados para os mais de 1 bilhão de seguidores do Islã no mundo, a distribuição de comida aos necessitados também é regra.

Nas mesquitas de São Paulo não é diferente. Uma delas, na rua Barão de Itapetininga, pode passar desapercebida. Para quem parar e olhar para cima, no entanto, estará ali, na sobreloja, a Masjid Al-Munawar, a Mesquita Iluminada, aberta para um sem número de histórias que compõem a realidade paulistana.

São histórias que vêm de longe, como a de Chris Juma, 41, que há 12 anos trocou Zanzibar, na costa leste africana, por São Paulo, para aqui se tornar referência religiosa entre os fiéis da mesquita.

Histórias como a de seus dois filhos, Yassir de Melo, 11, e Hudhaifah de Melo, 7, nascidos no Brasil e criados como paulistanos que professam a fé segundo a qual "Não há deus senão Deus (Alá), e Maomé é seu mensageiro" --frase repetida todas os dias e um dos pilares da religião islâmica.

Mas são também histórias de quem aqui se converteu e partiu para longe em busca da compreensão do Islã, como a do fotógrafo Marcelo Schellini, 39. Nascido em Botucatu, no interior do estado, e radicado em São Paulo, viveu em países como o Egito e a Arábia Saudita.

Seus registros do universo muçulmano, aqui e no exterior, deram origem a uma tese de doutorado na USP, publicada no fotolivro "17Janela18Corredor", com tiragem reduzidíssima de 20 exemplares.

Nesse caminho, Schellini vem registrando o cotidiano da Mesquita Iluminada desde 2010. Composta em sua maioria por imigrantes e refugiados, foi nela que o fotógrafo fez do Islã parte de seu cotidiano. "É uma comunidade bastante particular em relação a outras há mais tempo estabelecidas. Há uma presença muito grande de africanos e brasileiros", diz Schellini.

De acordo com dados de 2010 do IBGE, são cerca de 35 mil muçulmanos vivendo no Brasil. A comunidade, no entanto, estima esse número em mais de 1 milhão.

A realidade de Schellini é parte de uma cidade que ele ajuda a revelar. "Fotografo o que está perto de mim", diz. "Esses dias revisitei uma frase de Robert Capa [pioneiro fotógrafo de guerra], 'Se suas fotos não são suficientemente boas, é porque você não está suficientemente próximo.' Ele falava até num sentido físico, mas tomo como um sentido metafísico, de fotografar as coisas que pertencem a meu mundo."

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