Estudos ligam mineração da Braskem a rachaduras em Maceió

Serviço Geológico do Brasil apresentou conclusão de pesquisas nesta quarta (8)

João Pedro Pitombo
Salvador

As atividades de mineração da Braskem em uma área de falha geológica são a principal causa dos afundamentos de terra, rachaduras, fendas e trincas que atingem imóveis de três bairros de Maceió (AL).

Esta é a conclusão dos estudos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil, órgão ligado ao Ministério das Minas e Energia, que foram apresentados nesta quarta-feira (8) em audiência pública na capital alagoana.

As rachaduras nos imóveis nos bairros do Pinheiro, Bebedouro e Mutange intensificaram-se há cerca de um ano, quando foram registrados tremores de terra, atingindo uma área de 2,2 milhões de metros quadrados onde moram cerca de 20 mil pessoas.

Desde então, 160 imóveis foram condenados pela Defesa Civil e outros 330 foram localizados em áreas consideradas de altíssimo risco.

Os estudos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil apontaram que atividades de mineração da Braskem, que possui 35 poços de extração de sal-gema na região, quatro deles em atividade, resultaram na desestabilização de cavidades no solo e na movimentação da camada de sal.

Essa movimentação resultou em uma reativação da atividade de estruturas geológicas preexistentes, sobretudo em uma escarpa que foi identificada como “falha do Mutange”, considerada de alto risco.

De acordo com o geólogo Thales Sampaio, pesquisador do Serviço Geológico do Brasil e coordenador da equipe técnica que estudou o caso de Maceió, a Braskem não levou em consideração a existência das falhas geológicas em suas atividades de mineração na região.

“Você pode fazer mineração em região de falha. Mas não pode em hipótese alguma desconhecer que a ela existe [...] Acho que realmente eles acreditaram que não existia uma falha”, afirmou. 

Com a identificação das causas das rachaduras e afundamentos, Serviço Geológico e Defesa Civil vão dar início a um plano de ação para a retirada das famílias em áreas de risco.

“Não podemos garantir a integridade dos imóveis nas áreas em que há subsidência [afundamento da terra]. Mas isso não significa que as pessoas precisam sair correndo”, diz Thales Sampaio.

A possibilidade de chuvas torrenciais é um dos fatores que pode ampliar margem de risco, forçando uma desocupação imediata dos imóveis.

A situação é considerada mais grave no bairro do Pinheiro, onde problemas de saneamento e drenagem no bairro geraram mais instabilidade no terreno, com afundamentos que chegam a 40 centímetros.

Os problemas de drenagem fazem com que a água das chuvas infiltre nas rachaduras, acelerando o processo de mudança geológica.

Por isso, uma das frentes de atuação neste primeiro momento será o fechamento das fendas e rachaduras, evitando a infiltração da água de possíveis chuvas.   “Quanto menos água infiltrar, menos risco nós teremos”, afirma o Coronel Alexandre Lucas, secretário nacional de Defesa Civil.

Ao apresentar os estudos nesta quarta-feira, o Serviço Geológico Nacional ainda apontou que a Braskem enviou dados de apenas oito de seus 35 poços de sal-gema, impedindo uma conclusão mais detalhada nos estudos realizados.

O órgão também apontou que a empresa enviou dados equivocados sobre afundamento de terra nas áreas dos poços de mineração: “O erro era bastante grosseiro”, afirmou o geólogo Thales Sampaio.

Moradores dos bairros do Pinheiro, bebedouro e Mutange participaram da audiência pública e se mostraram preocupados quanto ao risco de desabamento de seus imóveis, à garantia do pagamento de aluguel social e a possíveis indenizações no futuro.

A mineradora ainda foi alvo de protestos em pelo menos três momentos da audiência, quando os participantes interromperam a apresentação com gritos de “fora, Braskem”. 

Em nota, a Braskem informou que analisará os resultados do relatório do Serviço Geológico do Brasil e também os dados coletados por geólogos e especialistas independentes.

“Desde início do agravamento das rachaduras e fissuras no bairro, a Braskem vem colaborando com as autoridades na identificação das causas e informando com transparência e responsabilidade os estudos realizados por empresas de renome internacional” disse.

A empresa ainda disse prestar solidariedade às famílias e informou que prosseguirá com ações emergenciais, que incluem a inspeção dos sistemas subterrâneos de drenagem, a instalação de uma estação meteorológica e de equipamentos para detecção da movimentação do solo.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.