Morte de menino expõe limbo de ocupações à beira da estrada em SP

Cristiam de Melo, 8, foi atropelado por carro e caminhão na Fernão Dias

Comunidade ao lado da rodovia Fernão Dias, em SP Zanone Fraissat/Folhapress

Dhiego Maia
São Paulo

A tinta branca desgastada pelo tempo sinaliza no asfalto linhas e as traves do gol. O campinho de futebol improvisado convive, de um lado, com a movimentada rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte no trecho sob concessão da Arteris e, de outro, com pilhas de material reciclado e lixo.

Esse era o único espaço de lazer que Cristiam Dekeste Ferreira de Melo, 8, tinha para brincar com os amigos na Vila Nilo, comunidade da zona norte da capital paulista erguida rente à estrada federal, no quilômetro 85 da pista no sentido Minas.

Nesta segunda (27), faz uma semana que nenhum gol é marcado ali. O gesto é de luto.

Cristiam morreu atropelado na noite do dia 20 ao invadir a rodovia enquanto brincava. As circunstâncias do acidente são investigadas pela Polícia Civil com apoio da Polícia Rodoviária Federal, que responde pela segurança na estrada.

Na casa de três cômodos alugada por R$ 450 onde o garoto vivia com a mãe, o pai, dois irmãos e sete periquitos, a ausência de Cristiam exige fé.

"Eu creio que ele foi para a glória. Tô pedindo muito para Deus me dar força porque é difícil. Vamos seguir. Está sendo um dia por vez", diz a mãe, Solange Ferreira Inácio, 29.

A auxiliar de limpeza cursa à noite o oitavo e o nono ano do ensino fundamental na modalidade EJA (Escola de Jovens e Adultos). Ela conta que queimou as roupas, brinquedos e objetos do filho um dia após enterrá-lo no cemitério Vila Nova Cachoeirinha (zona norte). "Não suportaria ver ninguém usando as coisas dele."

À reportagem da Folha, a mãe diz que guardou apenas o estojo com lápis de cor dado por uma professora ao filho, para nunca se esquecer que Cristiam amava estudar.

"Ele chorava quando eu dizia que ele não iria para a escola", diz, entre lágrimas. "Quero guardar as melhores lembranças do meu filho. Ele era esperto, muito falante e amoroso. Toda vez que eu saía de casa, ganhava um beijo dele. Como eu vou ficar sem isso?"

Na comunidade, o corredor por onde os moradores circulam está tomado por um emaranhado de fios que abastece as moradias com energia elétrica. Segundo Solange, o filho não andava sozinho no local. Era orientado a ficar em casa com os irmãos assistindo a programas infantis na TV quando não estava na escola.

O 20 de maio seria mais uma noite em que Cristiam, Cícero, 9, e Maria, 3, aguardariam a chegada dos pais em casa. Eles ficavam sob a guarda do tio.

A mãe conta que seu irmão precisou deixar os sobrinhos sós por um tempo, e, nesse intervalo, Cristiam foi brincar com os amigos no campinho. 

As primeiras testemunhas relatavam que o menino morreu ao tentar resgatar uma bola na pista da Fernão Dias.

Mas o delegado Carlos Poli, titular do 73º DP (Jaçanã), refuta a hipótese. Ele diz ter analisado as únicas imagens disponíveis, captadas por câmeras de um motel ao lado do campinho, e com base em novos depoimentos concluiu que o garoto entrou na rodovia fugindo de um cachorro.

"Não teve bola. O cachorro avançou sobre a criança, ela correu, subiu uma rampa e muito desesperada foi para o meio da rodovia", diz Poli. A família conta que Cristiam tinha muito medo de cães.

Segundo Poli, as imagens mostram que Cristiam foi, primeiro, atropelado por um carro de passeio. Depois, foi atingido por um caminhão. 

Nenhum dos motoristas socorreu a vítima nem se apresentou à polícia até agora.

Cristiam teve o crânio esmagado e morreu na hora. "Culpo ele [motorista] por omissão de socorro. Sei que aqui é uma comunidade e, se ele parasse, seria linchado, mas que parasse no posto ou ligasse na delegacia", diz a mãe.

As imagens não identificaram as placas dos veículos, um entrave para a conclusão do inquérito. "A circunstância do delito está esclarecida. Falta apurar a autoria do veículo atropelante", diz Poli.

A câmera da Arteris mais próxima está a dois quilômetros e meio do local onde Cristiam morreu. Pela distância e os problemas de visibilidade, o equipamento também não registrou as placas dos veículos que atropelaram o menino.

"O monitoramento que elas [câmeras da Arteris] fazem não é para a polícia. Quando fizeram a concessão da estrada, ninguém perguntou para a corporação como deveria ser o monitoramento para identificar as causas de um acidente", diz o inspetor Leon Pomar, chefe da 3ª delegacia da PRF, responsável pelo trecho paulista da Fernão Dias.

Corpo do garoto Cristiam, 8, atropelado na rodovia Fernão Dias, em São Paulo
Corpo do garoto Cristiam, 8, atropelado na rodovia Fernão Dias, em São Paulo - Reprodução/TV Globo

O delegado Poli diz que os motoristas devem responder à Justiça por homicídio culposo (sem intenção de matar) e omissão de socorro.

Independentemente do desfecho, a família de Cristiam quer partir. "Não queremos ficar aqui. Tudo lembra o meu filho", diz o auxiliar de pedreiro Cícero Ferreira de Melo, 38.

O caso joga luz na proliferação de moradias irregulares nas margens das rodovias que cortam a região metropolitana de São Paulo.

Na Fernão Dias, a Polícia Rodoviária Federal contou ao menos 10 comunidades entre os kms 86 e 76. Também foram localizados pontos de consumo e venda de drogas nos kms 85, 86 e 87 da estrada.

As moradias estão na área de escape das vias, que deveriam estar livres para facilitar o atendimento em acidentes e permitir ampliar as pistas. 

Além dos atropelamentos —a concessionária não revela quantas das 99 mortes na Fernão Dias entre Contagem (MG) e São Paulo em 2018 foram por atropelamento, mas ressalta uma redução drástica nos casos desde 2010— há transtornos mais banais.

A Arteris diz recolher 60 toneladas de lixo por dia só nos 90 km de concessão da rodovia no trecho paulista. As casas jogam esgoto sem tratamento nos acostamentos e têm pressionado a derrubada de vegetação perto do Parque Estadual da Cantareira.

A Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente da gestão João Doria (PSDB) diz ter aplicado 420 multas a construções irregulares que desmataram 72 hectares do parque nos últimos quatro anos.

A polícia rodoviária diz estar mapeando e apontando à Arteris os problemas causados pela presença de gente no lugar onde só poderia ter asfalto, conta o inspetor Pomar.

Para Flamínio Fichmann, consultor de trânsito e transporte, os novos contratos de concessões de rodovias precisam incluir uma cláusula de mitigação de impactos sociais. 

"Você obriga o concessionário a estabelecer uma relação com as prefeituras para inibir novos agrupamentos populacionais e dar as mínimas condições aos existentes. Se a cláusula não for cumprida, a concessionária recebe menos da receita pedagiada", afirma.

Em nota, a Arteris lamentou a morte de Cristiam e diz que colocou todas as suas câmeras à disposição da investigação.

Diz que instalou barreiras de concreto e defensas metálicas para aumentar a segurança de pedestres e condutores, além de calçadas e 86 passarelas com telas de proteção. 

A ANTT (agência federal que regula os serviços prestados pelas concessionárias) diz que, para agir, precisa ser comunicada pelas empresas quando o trecho concessionado necessita de alguma ação do poder público. Segundo a agência, a Arteris não encaminhou nenhum pedido.

Já a subprefeitura Jaçanã/Tremembé diz à Folha que vai fiscalizar os pontos com moradias irregulares. Sobre a Vila Nilo, o órgão afirma que presta serviços de zeladoria aos moradores, como a coleta de lixo e a limpeza de córregos.

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