Descrição de chapéu Obituário Diolino Gomes Damasceno (1931 - 2019)

Mortes: Serviu suas famosas batidas para Vinicius, Carybé e Pelé

Drinques de coco e de limão transformaram bar em epicentro da boemia de Salvador

Guilherme Seto
São Paulo

Os pedaços de coco in natura são colocados no liquidificador e triturados. O líquido resultante é coado com uma peneira de palha e recolocado no aparelho, onde é batido com açúcar e leite condensado. Ao fim, adiciona-se aguardente.

A receita de Diolino Gomes Damasceno, ditada à Folha por seu filho Otaviano, parece trivial, mas a conhecida batida de coco resultante não é. Pois não é possível que uma bebida qualquer tenha encantado um time formado por Jorge Amado (diabético, tomava sem açúcar), Pierre Verger, Carybé, Mussum, João Ubaldo Ribeiro, Angela Ro Ro, Wando, Vinicius de Moraes e Pelé (tomava dentro do carro).

Baiano nascido em 1931 na cidade de Ipecaetá, interior do estado, Diolino abriu seu primeiro estabelecimento em 1968, no bairro do Rio Vermelho, reduto boêmio de Salvador. Localizado em uma garagem, ganhou o nome de Mini Bar.

Diolino Gomes com sua esposa, Maria do Salete
Diolino Gomes com sua esposa, Maria do Salete - Arquivo pessoal

A batida de limão —feita com cachaça, suco de limão galego, mel de abelha de primeiríssima qualidade e açúcar refinado, segundo o escritor Ubaldo Marques Porto Filho—  chamava a atenção dos homens, mas Diolino deu por falta das mulheres. É que elas não queriam ser vistas bebendo em público, e então arranjavam alguém para comprar as batidas e bebiam dentro dos automóveis.

Diolino bolou então o sistema de atendimento direto aos veículos, em que os garçons iam até os carros que apenas encostavam e saíam em disparada. A novidade alavancou a fama do bar. No auge, chegou a produzir 6.000 litros de batida por mês.

O largo da Mariquita, onde Diolino instalou o bar depois de 1971, foi sendo gentrificado ao longo das décadas. O cardápio com batidas como "calcinha de náilon" (maracujá com coco) deixou de agradar a um público mais interessado em hambúrgueres e steaks. Em 1998, Diolino fechou as portas e tornou-se fornecedor de restaurantes da região.

"Aprendeu a ler e a escrever e as quatro operações matemáticas sozinho, escrevia uma dissertação como ninguém. Muito inteligente", diz sua esposa, Maria do Salete. "Gostava de relembrar o passado. Suas memórias eram as batidas no largo. Teve uma linda história."

Morreu no dia 5, aos 87, devido a complicações de um câncer de próstata. Deixa a esposa, sete filhos e quatro netos. Otaviano continua a produzir as batidas do pai.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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