Parentes de presos mortos no AM reclamam de demora para liberação dos corpos

Clima no Instituto Médico Legal (IML) é de tristeza e revolta de familiares, que ainda buscam informações sobre as vítimas

Fabiano Maisonnave Monica Prestes
Manaus

"Ele estava pedindo ajuda e eu não percebi", desabafou a dona de casa Adriana Belém Marinho, 41, mãe de Leonardo Marinho Araújo, 23, um dos 40 detentos encontrados mortos em unidades prisionais do Amazonas na última segunda-feira (27).

Adriana disse que falou com o filho pela última vez na sexta-feira (24), pelo telefone, quando ele contou que havia sido trocado de cela por conta de uma suspeita de fuga e pediu que a mãe não faltasse à visita de domingo. 

"Ele disse que tinha uma coisa importante para falar comigo, que precisava da minha ajuda. Se despediu de todos dizendo que logo estaria com a gente e aconteceu isso", relatou. 

No domingo (26), ela foi ao Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), no km 8 da rodovia BR-174, mas não conseguiu visitar o filho, que cumpria pena de 25 anos de prisão pelos crimes de furto e latrocínio. "Quando cheguei, os agentes já não me deixaram entrar. Depois recebi só a notícia da morte dele. Esperei tanto pelo dia em que ele sairia para ficar com a gente e nem pude me despedir do meu filho", lamentou.

Governador Wilson Lima (PSC) (à dir) durante visita ao Compaj, em Manaus, nesta terça-feira, após motins deixarem 55 mortos em dois dias em presídios da capital do estado
Governador Wilson Lima (PSC) (à dir) durante visita ao Compaj, em Manaus, nesta terça-feira, após motins deixarem 55 mortos em dois dias em presídios da capital do estado - Divulgação/Governo do Amazonas


A espera, agora, é para poder velar e enterrar o corpo de Leonardo. E também não tem sido uma espera fácil. Desde o início da manhã desta terça-feira (28) ela aguarda o laudo necropsial.

No terceiro dia da crise penitenciária que já acumula 55 mortos em quatro presídios de Manaus, o clima no Instituto Médico Legal (IML) é de tristeza e revolta de familiares das vítimas, que reclamam da demora para liberação dos corpos e da falta de informação.

Enquanto alguns aguardam para velar seus familiares, outros vão ao IML em busca, ainda, de confirmações sobre as mortes. 

É o caso da dona de casa Juliana Santos, 32, que buscava informações sobre o marido, Raimundo Muniz Guimarães, 30, que, segundo ela, estava preso no Ipat e, até esta terça, não havia sido localizado."Ele me pediu para visitá-lo no domingo, mas eu não fui", lembrou.

Segundo ela, a notícia das mortes no Ipat chegou durante a madrugada e, logo no início da manhã desta terça (28), ela foi ao IML em busca de informações. "Como não consegui mais noticias dele vim aqui para saber se ele estava entre os mortos, mas o nome dele não aparece em nenhuma lista e também não confirmam pra gente se ele está vivo, no presídio. Estamos todos aflitos e sem saber o que fazer", contou.

Pai do detento Edvilson Ramires de Oliveira, 25, Edimilson Costa de Oliveira, 55, vive o mesmo drama de Juliana. Sem informações, ele sequer sabe se o filho, que estava cumprindo pena no Ipat, está vivo ou morto. 



"Durante a madrugada recebemos uma foto pelo Whatsapp onde ele aparece morto, mas o nome dele não consta na lista e o IML diz que ele está vivo, mas até agora não temos notícias dele do presídio", disse, reclamando da demora para as identificações dos mortos e a falta de confirmação de quem está vivo. 

Nem mesmo o dia de quem já teve a morte dos familiares confirmada está sendo fácil. Apesar do IML informar que está cadastrando e acionando os parentes das vítimas após as liberações para que eles não precisem ficar de "plantão" no instituto, há quem prefira aguardar no local, o dia inteiro se preciso. 

Essa foi a escolha da cozinheira Maria do Socorro Salgado de Lima, 53, que espera desde segunda à noite pela liberação do corpo do irmão, Marcilei Salgado Guimarães, encontrado morto no Ipat, na segunda-feira. "Fiquei sabendo pela televisão e ainda ontem (27) vim ao IML, fiz o reconhecimento, cadastro, boletim de ocorrência, paguei funerária e até agora nada", reclamou. 

A maior preocupação dela, agora, é com o velório, que pode não acontecer. "Está demorando tanto que acho que quando liberarem o corpo dele nem vai dar mais tempo de velar, vai direto para o cemitério”.

O Departamento de Polícia Técnica Científica (DPTC), responsável pelo IML, informou que os nomes de todas as vítimas fatais encontradas nos presídios constam na lista divulgada aos familiares e que "quem não está na lista está vivo". A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) não respondeu aos sobre os casos de detentos não localizados pela família.

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