'Pensei que fosse morrer também', diz mulher de detento morto em presídio de Manaus

Rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim deixou 15 mortos neste domingo

Monica Prestes
Manaus

"Pensei que fosse morrer também". O desabafo é de Aline Costa da Silva, 29, companheira de Antonio Xavier da Silva Camargo,  42, um dos 15 detentos mortos durante uma briga entre presos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, neste domingo (26).

Complexo Penitenciário Anisío Jobim, em Manaus, onde 15 presos foram mortos durante rebelião - Josemar Antunes/Folhapress

Na manhã desta segunda, ela aguardava a liberação do corpo de Antonio no IML (Instituto Médico Legal). Aline relembrou os momentos de tensão e medo que vivenciou no último dia de visita ao presídio, no domingo de manhã. 

Como sempre faz aos finais de semana, ela acampou na estrada que dá acesso ao presídio para entrar logo cedo. Aline contou que entrou no Compaj às 8h20 e passou a manhã na cela 4 do regime fechado, com o companheiro. Por volta de 11h eles escutaram gritos vindos da cela 13, no final do corredor. 

"Ele falou: 'Lombrou [expressão local de que há algum problema]. Vou lá ver o que é'. Eu disse pra ele: 'Não vai, fica aqui'. Mas ele saiu e quando fui atrás vi um monte de gente puxando ele", contou. 

Aline disse que tentou sair da cela, mas foi impedida por outros presos, que a ameaçaram. "Logo depois vi eles arrastando ele pelo chão, puxando pelo pé. Foi horrível", lembrou. A vítima parecia desacordada, mas ela não viu mais o marido. Soube da confirmação da morte pelo governo, no fim do dia.

Depois de testemunhar o companheiro ser morto, ela ainda viveu 30 minutos de tensão, quando outros presos mantiveram visitantes em uma cela por dez minutos e, depois, fizeram uma "triagem" de presos e visitantes no pátio do Compaj. "Liberaram as mulheres que tiveram os maridos mortos. Saíram eu e mais quatro. Tudo isso antes de polícia chegar."

Familiares protestam em frente ao Compaj, presídio em Manaus onde 15 presos foram mortos - Sandro Pereira/Reuters

A irmã do detento Cleison Silva do Nascimento, 25, que também foi morto no Compaj no último domingo, Maria Clara Silva, 22, lamentou não ter tempo de se despedir. "Quando cheguei lá não pude mais entrar. Ele morreu sem que eu pudesse falar com ele."

Ela chegava ao presídio quando a confusão começou e Maria sequer conseguiu entrar para entregar os alimentos e frutas, especialmente peras, que o irmão sempre pedia e que ela costumava levar aos domingos. "Ele morreu com fome e nem pôde se despedir."

Segundo Maria, Cleison estava preso há dois anos por tráfico de drogas e, no final de 2019, iria progredir para o regime semiaberto. A pena dele era de 16 anos. "Ele foi preso porque estava transportando droga, atraído pelo dinheiro fácil. Ele errou, mas foi só essa vez e ele nunca mais voltou pra casa. Nem vai voltar mais", lamentou. 

Avó de Elisson Oliveira Pena, 26, que também foi assassinado no Compaj, Maria do Carmo Pereira, 70, chorava na porta do IML, enquanto aguardava a liberação do corpo do neto. "Conselho não faltou. Cansei de dizer pra ele que essa vida só tem dois caminhos: cadeia e cemitério, mas ele não me escutou. Só Deus sabe a dor de enterrar um neto dessa forma".

A diretora do IML, Sanmya Leite, informou que a identificação e liberação dos corpos pode levar mais de um dia. Segundo ela, até agora apenas dois corpos foram liberados e os demais aguardam a conclusão da identificação. 

Segundo ela, um dos corpos é de um detento cuja família é oriunda de outro estado, o que dificultou a identificação, e quatro corpos devem exigir outros métodos de identificação, como exames de DNA ou de arcada dentária, por exemplo, o que deve demandar mais tempo. 

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