PRB usa verba do Legislativo para atividades do partido em São Paulo

Contratados por vereadores e deputados trabalham em projetos políticos e religiosos da sigla

Artur Rodrigues Danilo Verpa
São Paulo
Mariluce dá aulas de inglês, Marilda atua num projeto voltado às mulheres e Eduardo organiza cursos de política. Mario trabalha na máquina partidária e Cirlene, por sua vez, dá expediente um projeto social de evangelização. 
 
Eles são assessores do Legislativo federal, estadual ou municipal, lotados em gabinetes de membros do PRB (Partido Republicano Brasileiro). No entanto, dão expediente em outros lugares e usam o horário de trabalho para atuar em braços políticos e religiosos da sigla. 
 
Folha passou o último mês acompanhando a rotina da sede estadual e municipal do PRB, no Planalto Paulista, na zona sul de São Paulo. Nesse período, foram flagrados veículos oficiais e cerca de 20 servidores públicos no sobrado amplo na avenida Indianópolis.
 
A reportagem ligou para alguns dos gabinetes onde eles estão lotados e foi a outros; em nenhum dos casos encontrou os assessores citados. Além disso, chegou a ouvir de funcionários destes locais que servidores não trabalhavam ali. 
 
Os partidos deveriam se manter apenas com recursos de doações e do fundo partidário, verba geralmente usada para o pagamento de funcionários. Em 2019, o PRB receberá a nona maior cota do fundo, cerca de R$ 47 milhões, mais do que partidos como o DEM. 
 
Apesar disso, a sigla usa funcionários pagos com dinheiro público para fazer as vezes de professor, secretária, assessor de imprensa e até motorista. Essa mão de obra também é absorvida em​ entidades como a Fundação Republicana Brasileira, braço político e educacional do PRB.  

A assistente parlamentar Mariluce Siman, por exemplo, recebe R$ 5.800 para atuar no gabinete do deputado estadual Wellington Moura, parlamentar que hoje preside uma CPI para investigar universidades públicas. Ela trabalha, porém, como professora de inglês na FRB —as aulas acontecem às terças e quintas, em seis horários durante o dia, entre 8h45 e 20h15. 

 
A reportagem ligou para o gabinete de Moura na quarta-feira (24) procurando Mariluce, mas a atendente não sabia de quem se tratava. No dia seguinte, o repórter da Folha foi até o local e se apresentou.
 
Aparentando nervosismo, funcionárias disseram que ligariam para saber onde a servidora estava —ao fim,  disseram que Mariluce não voltaria mais, pois havia ido ao médico.  
 
Pouco mais de uma hora depois, em conversa curta por telefone celular, Mariluce disse que havia voltado à Assembleia. "Sou voluntária [dando aulas de inglês]. Não fico só aqui", disse. 
 
O responsável pela FRB em São Paulo é Eduardo Verrone, lotado no gabinete do deputado estadual Sebastião Santos (PRB). Verrone também viaja articulando cursos de política e é visto com frequência falando ao celular na frente do escritório político. 
 
Outro que costuma andar de um lado para o outro na garagem do partido é Mario Teixeira,  funcionário de Sebastião Santos. No partido ele é conhecido como articulador financeiro, mas, no gabinete, um funcionário afirmou que desconhecia tanto seu nome quanto o de Verrone. 
 

Assim como a Fundação Republicana, o PRB Mulher também se beneficia do trabalho de comissionados. Marilda Barbosa é contratada do vereador Souza Santos, de São Paulo, e atua neste órgão do partido. 

 
Por telefone, seu nome soou desconhecido à atendente do gabinete. Pessoalmente, uma outra funcionária disse ao repórter que ela não poderia ser encontrada no local, pois fazia trabalhos externos. 
 
No entanto, a própria Marilda disse à Folha por telefone que fazia trabalhos internos. Mudou a versão, ao ser confrontada, e afirmou: "Sei onde você está querendo chegar. Eu não sou funcionária fantasma". 
 
Até a coordenadora de comunicação do partido, Fábia Zuanetti, está lotada em um gabinete na Assembleia, o do deputado estadual Gilmaci Santos. Ela já atendeu a Folha, inclusive, em horário comercial sobre demandas relacionadas ao partido, mas afirma atuar fora do horário de trabalho e de maneira voluntária.
 
Parte da base de apoio do governo João Doria (PSDB) no estado e Bruno Covas (PSDB) no município, o PRB é dono de indicações políticas no Executivo.
 
Carro oficial da Prefeitura de São Paulo flagrado pela reportagem na sede do PRB
Carro oficial da Prefeitura de São Paulo flagrado pela reportagem na sede do PRB - Danilo Verpa/Folhapress
 
O partido tem vários de seus principais nomes ligados à Universal, igreja onde a Folha também encontrou servidores legislativos atuando durante horário de expediente. Cirlene Rosa Conceição, por exemplo, atua na Unisocial, projeto social e evangelizador da igreja. Ela é lotada no gabinete do deputado federal Vinícius Carvalho, um pastor licenciado da entidade religiosa. 
 
Após confirmar que ela estava no Unisocial durante a tarde por dois dias na semana passada, a reportagem ligou para o telefone fixo do projeto no terceiro dia e falou com ela.
 
Ao ser questionada sobre o que fazia trabalhando ali em horário de expediente, Cirlene disse que precisava falar com seu superior. No escritório político do deputado Carvalho, em Osasco (Grande SP), ninguém a conhecia. 
 

OUTRO LADO

O PRB paulista nega que funcionários atuem no escritório na hora do expediente.
 
"Os funcionários públicos citados atuam nos gabinetes dos deputados ou no gabinete da liderança do PRB-SP na Assembleia Legislativa e foram contratados exclusivamente pelos parlamentares. Alguns deles prestam serviço para a Fundação Republicana Brasileira, como voluntários, e fora do horário de expediente", afirma o partido, em nota. 
 
Mariluce Siman afirmou dar expediente na Assembleia e diz que atua como professora voluntariamente. Questionada sobre a atuação em horário de expediente, pediu para a reportagem procurar o gabinete. 
 
O deputado Wellington Moura afirmou, em nota, que Mariluce cumpre sua carga horária. "Às terças e quintas-feiras, a funcionária participa de reuniões na sede do partido, com o escopo de aprimorar o desenvolvimento econômico e social dos municípios onde possuo base política. E nos intervalos intrajornada, a mesma aproveita para ministrar aulas voluntárias, sem qualquer remuneração, com a minha anuência."
 
O deputado estadual Sebastião Santos afirmou que tanto Eduardo Verrone quanto Mario Teixeira atuam em serviços externos representando seu gabinete. 
 
"Quanto a realização dos cursos que o senhor Eduardo Verrone vem ministrando neste curto período, como representante deste parlamentar, em diversas regiões do Estado de São Paulo, certamente só tem agregado a este gabinete, já que nos traz grande demanda, viabilizando a interação deste parlamentar com diversas entidades e com a população local", diz nota do deputado.
 
Sobre Teixeira, o deputado afirma que "muitas demandas de prefeitos e vereadores do interior são encaminhadas diretamente ao partido, sendo este o motivo pelo qual o mesmo frequenta o partido com assiduidade, nos trazendo toda a demanda lá existente". Teixeira ainda justificou não ter seu nome reconhecido no gabinete por ser conhecido como Zaqueu. 
 
Mariluce Siman, que dá aula de inglês no PRB, saindo do escritório do partido
Mariluce Siman, que dá aula de inglês no PRB, saindo do escritório do partido - Danilo Verpa/Folhapress
Um terceiro funcionário, Anderson de Souza, também flagrado no escritório do PRB, atua entregando ofícios, mas que ele não fará mais parte da equipe. 
 
O deputado Gilmaci Santos afirmou estar ciente das atividades da assessora Fabia Zuanetti, mas diz que ela dá expediente na Assembleia e fora dela, além de buscar demandas no escritório do PRB. 
 
A assessoria do vereador Souza Santos afirmou que a funcionária que disse que Marilda não trabalhava era recém-contratada e que ela é conhecida pelo segundo nome —no Facebook, ela utiliza o nome Marilda, e não o segundo nome. "A funcionária em questão desempenha também função externa, visitando diversas bases espalhadas pela cidade e órgãos institucionais, não se limitando ao expediente prestado exclusivamente gabinete".
 
A Igreja Universal afirmou que o Unisocial conta com 3.599 voluntários. "Certamente, a Folha de S. Paulo sabe que no voluntariado não há controle de jornada, de presença e tampouco “expediente” prestado. Trata-se de uma atividade não remunerada, prestada por pessoa física a instituição sem fins lucrativos, que tem como objetivo a assistência solidária e humanitária ao próximo, no tempo livre disponível de cada voluntário. A igreja afirmou que seus projetos ajudam a auxiliar pessoas "invisíveis à sociedade". 

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