Concorrência por material reciclável afasta catadores do centro de SP

Mapa elaborado pela Promotoria de Direitos Humanos aponta concentração dessa população nos extremos da cidade

Rodrigo Lucena, 33, carroceiro que trabalha no centro e usa aplicativo para se conectar com clientes, a maioria, funcionários de escritórios que precisam descartar materiais volumosos

Rodrigo Lucena, 33, carroceiro que trabalha no centro e usa aplicativo para se conectar com clientes, a maioria, funcionários de escritórios que precisam descartar materiais volumosos Zanone Fraissat/Folhapress

Mariana Zylberkan
São Paulo

Diante de uma concorrência cada vez mais acirrada pelo material reciclável descartado nas ruas de São Paulo, que gera cerca de 5.000 toneladas por dia, catadores têm migrado para áreas distantes do centro para conseguir encher as carroças

Mapa requisitado pela Promotoria de Direitos Humanos constatou que a maior concentração dessa população se dá no extremo leste da cidade, no bairro de Cidade Tiradentes, onde foi contabilizado um quarto do total de cerca de 870 catadores registrados. 

Os números se baseiam em levantamento feito pelas prefeituras regionais nos abrigos municipais e não, englobam, portanto, os catadores autônomos, que dormem nas ruas, ou fazem parte de cooperativas. A prefeitura estima em 2,1 mil o número total de catadores que atuam em toda cidade. 

Na região central, onde atua, o catador Rodrigo Lucena, 33, diz que chegava a fazer quatro ou cinco carregamentos de entulho pelos quais ganhava até R$ 500 por viagem, mas esse tipo de trabalho tem rareado nos últimos anos. 

Boa parte de sua demanda, hoje em dia, vem de escritórios do centro que o contatam por meio de um aplicativo, o Cataki, que conecta catadores e pessoas interessadas em descartar materiais volumosos. “Eu faço a limpeza da cidade, a coleta”, diz ele, que desenvolve um projeto para transformar recicláveis em móveis e luminárias. 

“A falta de emprego, o desperdício e o descaso com a gestão de resíduos faz aumentar a quantidade de catadores nas ruas”, diz Mundano, grafiteiro, ativista e criador do aplicativo Cataki.  

Aliado a isso está a atuação de empresas que têm enxergado cada vez mais o lixo da cidade de São Paulo como uma fonte rentável. 

Atualmente, de acordo com a gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), a capital recicla por volta de 330 toneladas por dia, ou 7% do que é coletado, e metade dos distritos não é coberta totalmente pela coleta seletiva. 

Em 2016, a prefeitura adquiriu duas máquinas para separar automaticamente o lixo reciclável. As duas centrais mecanizadas são gerenciadas pelas concessionárias da coleta de lixo na cidade, Loga e Ecourbis. 

Técnicos, porém, levaram quase dois anos para habilitar o maquinário fabricado na Alemanha a separar o lixo de São Paulo, mais contaminado por resíduos orgânicos e de pior qualidade em comparação com o resíduo europeu. 

Desde então o material reciclável produzido pelos chamados grandes geradores, como fábricas e restaurantes, é destinado às duas centrais mecanizadas. 

A presença das cooperativas na cadeia de reciclagem também tem diminuído devido a dificuldades em cumprir exigências da municipalidade para integrarem o cadastro municipal e poderem receber o material coletado pelos caminhões.

 “Cooperativas novas não podem participar porque é exigido no mínimo um ano de atividades. As antigas têm dívidas de impostos”, diz Eduardo Ferreira de Paula, coordenador nacional do MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis). 

Segundo ele, nem metade das cerca de 60 cooperativas que existem na cidade é capaz de corresponder às exigências. “Há cerca de 750 pessoas que estão sem trabalho e passando necessidade”, diz Ferreira de Paula. 

A gestão Covas afirmou que o termo de colaboração com as cooperativas é regido por decreto de 2011, que inclui exigências como regularidade fiscal, condições de saúde e segurança do trabalho, entre outras. 

Apesar de válido há oito anos, o decreto passou a nortear processos licitatórios no ano passado, quando foram realizadas três chamadas públicas. Apenas 25 cooperativas foram habilitadas. 

Em fevereiro, a gestão anunciou projeto para ampliar a coleta seletiva na cidade, o que implicou em acréscimo de R$ 2,9 milhões mensais aos contratos das concessionárias Loga e Ecourbis, que totalizam R$ 1 bilhão por ano. 

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