Festa junina em São Paulo tem até fogueira de mentira

Suco de rosa, dogão de soja e barba hipster compõem um eclético arraial

Roberto de Oliveira
São Paulo

Em tempos de festa junina, a caipirice paulistana não tem limites. A cidade mais diversificada do país abraça todo tipo de arraial.

Numa área ainda não ocupada por prédios na Vila Mariana, coisa rara na zona sul, 25 barracas tomam o terreno. Um cordão de bandeirinhas juninas avisa que, sim, trata-se de um arraial... hipster!

Nele, é ofertado o Not Dog com suco de laranja, por R$ 20. A salsicha ali é feita à base de proteína de soja, assim como a linguiça e a carne que vai no pastel (R$ 8). Tem canjica, arroz doce (com leite de amêndoas), curau e pamonha, tudo sem uso de proteína animal. Mais: boa parte do cardápio desta sexta edição da Festa Junina Vegana também não leva glúten.

“A ideia é manter as lembranças das festas juninas de infância, mas com um cardápio variado que atenda às exigências do nosso público”, explica Priscila Gopi, 40, organizadora do evento. “Nossa clientela é formada por hipsters, pet friendly e também por boa parte da comunidade LGBTQ+”, diz ela.

O indiano Vini Kumar, 30, do Bombay Grill, não é o tipo que se encaixa exatamente em algum desses perfis, mas ele estava lá por outro motivo: para vender. Ao lado de seu assistente baiano, oferecia suco de rosa e de maçã verde a R$ 8 o copo. Logo viraram hits da festa por causa da temperatura agradável na tarde deste domingo (16), quando os termômetros marcaram 26°C. 

Na sua barraca, outro sucesso junino foi o chole bhature, um prato de grão de bico servido com pastel indiano (R$ 28) —obviamente vegano.

Ali não havia espaço para bigodinho de mentirinha. O que se via eram rapazes com barbas milimetricamente aparadas. O pretinho básico dominava o ambiente, valorizando o colorido das tatuagens.

A Festa Junina Vegana vai até o fim deste mês, sempre aos sábados e domingos, das 12h às 21h. Não constam do calendário apresentações de quadrilha, mas já está programado para a semana que vem um “Flash Day Tattoo”, dia dedicado a tatuar geralmente desenhos pequenos, de determinado estilo, criados pelo artista especialmente para o evento.

O domingo ensolarado também marcou o fim da Festa Junina da paróquia Santíssimo Sacramento, no Paraíso, zona sul. Um evento voltado às famílias, nas palavras de Beth Puertas, 45, da comissão de festas, que apostou num menu eclético, típico de São Paulo, para atrair a freguesia. Entre as 16 barracas destacavam-se a oriental (yakisoba e temakis), americana (hambúrgueres e hot dogs, esses feitos com salsicha de carne suína, bovina e de frango), italiana (massas) e portuguesa (caldos). Churrasco e pizza ganharam, cada um, seus espaços exclusivos. 

Na tenda de bebidas, opções alcoólicas, como quentão e vinho quente, e livres de álcool, como o chá de amendoim.

Mesmo assim, só deu quentão. No sábado (15), penúltimo dia da festa, foram vendidos ao menos 1.500 copinhos (R$ 5 cada um), nos cálculos ainda preliminares de Beth.

Com um vinho quente em uma mão e um cigarrinho na outra, Elisa Martins, 53, caminhava ao lado de Sansão, 7, cão sem raça definida, porém devidamente vestido a caráter.

“Festa junina para mim é como o Carnaval. Para você aproveitar, mesmo, precisa entrar no clima. Estamos caipiríssimos”, disse ela.

Na Santíssimo Sacramento, tinha quadrilha, formada por 30 integrantes do grupo de jovens da igreja. A organização da festa —realizada graças a doações— começou em janeiro. Mobilizou 350 voluntários, não só dos arredores como também dos extremos das zonas norte, sul e leste.

No coração central de São Paulo, uma fogueira fake fingia que ardia em frente à paróquia de Nossa Senhora da Consolação. Com cerca de 2 m de altura, ela foi montada em frente à igreja, atrás de uma imagem de são João, cuja data é no próximo dia 24.

Feita de madeira, ela ostentava pedaços de plástico colorido em tons de vermelho e laranja. Um ventilador voltado para cima permanecia ligado no centro da “fogueira”, dando a impressão que ela estava em chamas. Não acabou: vez ou outra, uma fumacinha saía de dentro dela.

“As pessoas estão poupando o trabalho. É muito difícil fazer uma de verdade”, disse o estudante Arthur Santos, 20, para, em seguida, confessar: “É claro que eu preferiria uma de verdade, quem não?”.

Morador da Lapa, zona oeste, Santos decidiu curtir o domingo junino no centro. “Onde moro, as fesas juninas são mais tradicionais, mais conservadoras”, contou. “Aqui, você tem de tudo. É um público bem mais tolerante.”

No arraial da Consolação, havia vovôs e vovós, casais hetéro e gay com ou sem crianças, bikers, skatistas.
Na quermesse da Consolação, carne louca (R$ 10), vinho quente e quentão (R$ 6 cada um) eram os itens mais concorridos ao cair da noite do domingo. Nada, no entanto, superava a extensão da fila para comprar as fichas. Coisa de paulistano!

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