Mil crianças estão sem ir à escola desde 2018 por falta de ônibus em RO

Contratos foram suspensos por irregularidades em outubro, e ano letivo foi atrasado

Felipe Corona
Porto Velho

Cerca de mil alunos da rede municipal de Porto Velho que são ribeirinhos ou vivem na zona rural estão há oito meses sem ir às aulas por falta de ônibus ou barco. A prefeitura atribui o problema à suspensão de contratos com empresas de transporte após uma operação policial indicar irregularidades.

A gestão do prefeito Hildon Chaves (PSDB), que assumiu em 2017, prometeu sanar o problema até o fim deste mês, mas pais e professores relataram que o prazo informado a eles é agosto.

Sem meio de chegar à escola desde outubro, esse grupo de alunos não concluiu o ano letivo de 2018. Mil deles não retomaram aulas este ano. A rede municipal de Porto Velho tem 11.125 mil estudantes.

A escola municipal Deigmar Moraes de Souza, a 35 km do centro, é uma das que está sem aulas desde outubro. 

Ali, a maioria dos 250 alunos chegava em voadeiras (pequenas lanchas) e ônibus que recolhiam os estudantes de comunidades e estradas próximas à vila de Cujubim Grande. 
Desde 2014, com a dificuldade de acesso, a escola perdeu metade dos estudantes.

Josenilda Nery, professora do 2º ano, diz que nesses cinco anos o serviço foi suspenso e retomado várias vezes —embora nunca por tanto tempo como agora. Desde então, os anos letivos estão sendo empurrados para o seguinte, atrasando as turmas. 

“Isso resultou em apenas três bimestres concluídos em 2017, já que fomos obrigados a encerrar as atividades em 13 de dezembro daquele ano, e apenas um em 2018”, afirma.

Várias famílias já deixaram Cujubim Grande, onde está a escola. É o que pensa em fazer a dona-de-casa Daiane Tomás, mãe de Gabriel, 15, Gabriele, 12 e Auriel, 8. “Se as coisas não melhorarem, vou ter que alugar minha casa e dar um jeito de ir para a cidade.”

André Lucas, 13, está no 6º ano do ensino fundamental, mas deveria estar no 9º. “Quero ser engenheiro civil. Se as aulas não voltarem logo, vou morar com meus tios em Humaitá (AM) para conseguir estudar”, lamenta.

Os pais reclamam. “As mentes desocupadas estão resultando em muitas coisas que não prestam: muitos ficam na beira do rio, vendo o tempo passar, usando e vendendo o que não deviam [insinua ser drogas]."

"Meu filho de seis anos está doido para ir à escola, mas não pode por conta dessa bagunça”, diz Andréia Carril, mãe de André.

Há três ações em curso no Ministério Público Estadual contra a prefeitura. Em uma delas, houve decisão judicial em 2017, exigindo que o serviço fosse regularizado, mas a decisão não foi cumprida. 

A investigação da polícia localizou diversas irregularidades nos contratos, na prestação de serviço e nos veículos. Em vistorias, o Detran encontrou ônibus velhos, com documentação vencida e sem equipamentos básicos como cintos de segurança, entre outros problemas.

A quarta ação contra a prefeitura e contra as empresas do contrato em curso, por improbidade administrativa, foi ajuizada em abril e está em curso.

Em nota, a Secretaria Municipal de Educação afirma que tem buscado todas as alternativas para que os alunos da área rural que dependem do serviço do transporte escolar sejam atendidos. A expectativa é que tanto o transporte terrestre como o fluvial sejam regularizados neste mês.

Ainda em nota, o governo municipal atribui os problemas a contratações feitas na gestão anterior e às consequências da Operação Ciranda, em 2018, que apontou irregularidades no transporte escolar.

A nota não explica, porém, o motivo de as falhas não terem sido sanadas desde 2017, quando a atual gestão assumiu o mandato.

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