Polarização política do país chega às praias cariocas e reorganiza areia

Antes agrupados por divisão cultural e social, frequentadores se reúnem por afinidade ideológica

Ivan Finotti
Rio de Janeiro

Uma nova geopolítica toma as areias cariocas, seguindo a polarização que engoliu redes sociais e, após a eleição de 2018, o país. 

Se antes as praias possuíam linhas imaginárias comportamentais e/ou culturais que separavam os surfistas do Arpoador dos gays da rua Farme de Amoedo, ou a juventude cheia de invenções do Posto 9 dos mauricinhos e patricinhas do Leblon, hoje se percebem divisões políticas.

O principal movimento recente foi a tomada do Leme pela nova esquerda. 

Em 2005, reportagem da Folha intitulada “Tribos comportamentais dividem as praias do Rio” classificava o Leme assim: “Famílias do bairro e cariocas que procuram uma praia pouco agitada”. Hoje, reúne a juventude Lula Livre e todas as minorias que buscam um cantinho ao sol.

“A gente vem aqui porque sente identificação. Essa galera que quer diminuir a desigualdade social, diferentes cores e corpos”, diz a consultora de moda sustentável Giovanna Nader. “Há dois anos, quando morava em São Paulo, ia para Ipanema”, conta ela.

No Leme, o ator Pedro Benevides e a consultora de moda sustentável Giovanna Nader - Zô Guimaraes/Folhapress

No Leme, ela diz que a diversidade de estilos inspira seu trabalho. “Há menos preocupação em ser alta, loira e magra. Me sinto acolhida por pessoas que pensam igual a mim.”

Seu amigo Pedro Benevides, ator do Porta dos Fundos, é do Leme desde criancinha. “Há alguns anos ia no Posto 9, e agora venho ao Leme de novo. Todos os meus amigos estão aqui, aquilo que você chama de bolha da esquerda, está tudo aqui”, conta ele, em frente à Rasta Beach, barraca que se tornou ponto de encontro.

“É claro que ainda estamos num bairro rico da zona sul”, pondera ele. “Quando teve panelaço contra a Dilma, aqui também se escutava. Mas Laranjeiras, por exemplo, aqui perto, foi um dos raros bairros nos quais o [Marcelo] Freixo [PSOL] ganhou [a disputa estadual]. Aqui me sinto seguro, não sinto preocupação com o olhar do outro.”

“Amada, Ipanema acabou.” Assim a roteirista e colunista da Folha Antonia Pellegrino informou a uma amiga mineira que o quente era o Leme. “Tivemos vários territórios ícones no Rio de Janeiro, nos quais acontecia o imaginário de que na praia todo mundo se encontra: o Posto 9 nos anos 1990, o Arpoador de 2000 a 2010. Hoje é o Leme.”

Antonia resume o que vê: “Tem a juventude-tombamento (‘Como?’ ‘É a estética negra de empoderamento através do corpo, cabelo, do look’, explica), gays de mãos dadas, deficientes, há pessoas das comunidades do Chapéu Mangueira e da Babilônia, os moradores mais progressistas dos bairros próximos”, diz. 

“De fato, há um corte estético. Quem se coloca contra valores mais liberais não vai compreender. Talvez essas pessoas pensem que se deva jogar uma bomba ali”, brinca.

Certamente os territórios não estão divididos matematicamente entre os extremos. Em Copacabana, a mistura é evidente. Com seu pelotão de hotéis de todos os preços, atrai viajantes europeus ou brasileiros e os moradores da região.

Atraiu também o eleitor de Bolsonaro Leonardo Rattes Bevilacqua Pinaud Madruga (ufa!). O advogado se mudou recentemente da Barra para o Posto 5 de Copa. “Há muitos turistas e muita gente do morro também. Acho que as praias do Rio, em geral, são bem democráticas.”

Leonardo é neto da octogenária cuja foto Bolsonaro postou como sendo das manifestações a seu favor, em maio. Maria Nina Rattes, que aparecia na imagem com uma bandeira do Brasil e se locomovendo com a ajuda de um andador, morreu em 2018. 

Maria Nina Rattes, morta em 2018, em foto divulgada por Bolsonaro
Maria Nina Rattes, morta em 2018, em foto divulgada por Bolsonaro - Reprodução Twitter

Apesar da gafe, Leonardo afirmou que sua avó também era eleitora de Bolsonaro.

Quanto às praias, ele está à vontade em Copacabana, como estava na Barra. “É quase impossível ver alguém discutindo na praia”, afirma.

Em Ipanema, no Posto 10, diante do Country Club, é comum ver uma “galera de esquerda que votou em Bolsonaro”. O local é um tradicional ponto de mauricinhos.

“Aqui somos politizados”, diz uma estudante de publicidade que preferiu não se identificar. “Mas eu não estou em nenhum dos lados”, continua. “É que essa eleição foi em quem podia tirar o PT”, arrisca. “Sim, votei em Bolsonaro.”

Rumo a oeste, os ricos bairros do Leblon e de São Conrado concentram parte da elite do Rio. Mas também com democracia: quem é de direita precisa dividir o espaço com a esquerda caviar —aqueles que, segundo as línguas da direita, se dizem socialistas, mas levam uma vida de luxo.

É em frente ao condomínio de Jair Bolsonaro, no Posto 4 da Barra da Tijuca, que o orgulho pelo presidente fica escancarado. “Aqui a gente apoia ele, é claro”, afirma Maria Eduarda Fernandes, moradora de um condomínio próximo ao de Jair.

“Já comemoramos muito essa vitória, nas ruas e na praia. Aqui não tem Lula Livre”, brinca seu marido, o funcionário público Antonio Fernandes. “Na verdade, todos são bem-vindos. Não é que vai ter confusão, é só que não tem nada a ver.”

Do Leme à Barra, portanto, tem espaço para todos. Caso seu sangue ferva com a burrice que assola o outro lado do espectro político, essas são as dicas para você se sentir mais à vontade na areia e correr menos risco de ficar amigo de um inimigo.

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