Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Polícia investiga aplicativo de transporte em área de milícia

Uber vetou atuação em comunidade no Rio de Janeiro após ameaças a motoristas

Diego Garcia Italo Nogueira
Rio de Janeiro

​A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a relação entre a milícia de Rio das Pedras e o aplicativo exclusivo de transporte criado na favela.

A ferramenta comunitária, revelada pela Folha, é turbinada pela ameaça a motoristas de outros apps que acessam o bairro. O domínio é tamanho que a Uber decidiu vetar chamadas originadas em Rio das Pedras. 

A Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado) apura se os responsáveis pelo aplicativo têm vínculos com a quadrilha que atua no local. A unidade está intensificando a apuração sobre o braço financeiro das milícias.

Rua na comunidade de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro
Rua na comunidade de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro - Fabiano Rocha - 23.jan.19/Agência O Globo

O serviço RP Driver, como é chamado, existe há pelo menos um ano. Até março, era acionado em um grupo de WhatsApp. Há dois meses, foi criado um aplicativo para automatizar a demanda.

O app foi desenvolvido pela Driver Machine, que faz plataformas de transporte personalizadas em todo o país para grupos de motoristas que tentam fugir das taxas dos grandes serviços —a empresa diz que os contratos a impedem de divulgar dados de clientes.

Investigadores ouvidos pela Folha desconheciam o aplicativo. Afirmam que um serviço do tipo dificilmente é oferecido sem participação ou anuência paga da milícia. 

A Folha tentou contato com representantes do app, mas eles não responderam a telefonemas nem a mensagens.

A ferramenta é oferecida também na favela da Muzema e em outras comunidades da região, todas dominadas pela mais antiga milícia do Rio, chefiada, segundo o Ministério Público, pelo ex-policial militar Adriano da Nóbrega.

Foragido há cinco meses, Nóbrega foi companheiro no 18º Batalhão da PM de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) sob investigação, e teve a mãe e a mulher nomeadas no gabinete do senador quando este era deputado estadual no Rio. Durante o mandato de Flávio, o ex-PM chegou a ser condecorado com a Medalha Tiradentes pelo então deputado.

Ao tentar pedir um motorista pela Uber em pontos movimentados de Rio das Pedras, a Uber afirma que o serviço não está disponível. “Peça de locais acessíveis e para locais acessíveis”, diz a mensagem.

Em nota, a empresa diz que “para aumentar a segurança de motoristas parceiros e usuários, nosso aplicativo pode impedir solicitações de viagens de áreas com desafios de segurança pública em alguns dias e horários específicos”.

Tela de aplicativo de transporte que funciona em zona dominada por milícia
Tela de aplicativo de transporte que funciona em zona dominada por milícia - Reprodução

“A Uber tem adotado no Brasil a tecnologia de 'machine learning' para identificar riscos com base na análise, em tempo real, dos dados das milhões de viagens realizadas diariamente por meio do aplicativo e bloquear as viagens potencialmente mais arriscadas”, diz.

Outros aplicativos, como o 99, aceitam chamados da região. Mas, segundo relatos, os motoristas não vão até o local temendo represálias.

A empresa Driver Machine, que elaborou o RP Driver, disse que tem como objetivo “democratizar a tecnologia para quem quer empreender em mobilidade urbana”. 

“Cada cliente conduz o negócio de maneira independente, configurando tarifas, modo de operação e atendimento aos passageiros e motoristas. Nós somente fornecemos a tecnologia, ou seja, não somos proprietários dos aplicativos”, diz a empresa em nota.

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