Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Polícias investigam se explosão contribuiu para rompimento de barragem em Minas Gerais

Dois funcionários divergiram em depoimento sobre quando ocorreu detonação próxima à barragem

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

Os depoimentos de dois funcionários, um da Vale, outro da empresa Sotreq, à comissão parlamentar de inquérito da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, nesta segunda-feira (24), trouxe de volta a discussão sobre uma explosão realizada na mina Córrego do Feijão no dia do rompimento da barragem B1. 

Os dois confirmaram que foi realizada uma detonação na mina no dia 25 de janeiro, mas divergiram sobre os horários. Nesta terça, a tragédia que deixou 246 mortos e ainda tem 24 desaparecidos completa cinco meses. 

Eiichi Pampulini Osawa, mecânico de mineração da Sotreq, disse à CPI que a detonação teria ocorrido entre 12h20 e 12h40 - o rompimento da barragem aconteceu às 12h28. A Sotreq presta serviços de manutenção de equipamentos de mina. 

O aplicador de explosivos da Vale (função conhecida como blaster), Edmar de Rezende, indicou que a detonação ocorreu às 13h33. Ou seja, uma hora depois do rompimento. Rezende disse que decidiu executar a explosão porque não teria como retirar os explosivos do local e poderia ser perigoso deixá-los por lá.

O funcionário ainda apresentou um vídeo gravado em seu celular, do momento da detonação, que comprovaria o horário, e um relatório de campo que fez no mesmo dia.

A versão dele é a mesma da Vale. A mineradora diz que realizou duas detonações que já estavam programadas, após o rompimento, “por medida de segurança”. Ela não explica se as duas ocorreram na mesma mina. 

“As detonações foram mantidas com o objetivo de eliminar qualquer risco vinculado à presença de furos carregados de explosivos no complexo do Córrego do Feijão”, afirma a empresa. 

A Vale não respondeu à reportagem sobre horários específicos das detonações ou como as pessoas responsáveis tiveram acesso ao local depois do rompimento. 

Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais, até o rompimento, as detonações na mina da Jangada eram diárias. Já na mina Córrego do Feijão - a 1,3 km da barragem B1 - ocorriam até duas vezes por semana. Os dados foram colhidos em um relatório sobre frequência e intensidade dos explosivos usados na área.

Um registro da Vale apresentado à Polícia Federal diz que a explosão na mina Córrego do Feijão ocorreu às 13h34. O delegado Luiz Augusto Pessoa Nogueira, responsável pela investigação, acredita que o horário pode estar equivocado pelo horário de verão, em vigência em janeiro, que adianta o relógio em uma hora. 

A PF usa dados colhidos por sismógrafos da UnB e da USP na região para tentar chegar ao horário exato da explosão e esclarecer se ela serviu ou não de gatilho para o rompimento. 

“A gente trabalha com a hipótese de que pode ter acontecido antes, por causa de alguma inconsistência no registro do horário da detonação. Ainda está sob investigação”, afirmou à Folha o delegado.

A USP faz pesquisa na região em parceria com a Vale, em uma rede de estações da empresa. Coordenador do centro de sismologia da universidade, o professor Marcelo Assumpção confirma que as leituras dos aparelhos indicam duas detonações no dia 25 de janeiro. 

“Uma antes, que foi em uma mina bem longe, e outra seis minutos depois do rompimento. Essa foi perto da mina Córrego do Feijão”, explica ele. “Não há como precisar exatamente [o local], pode ser em uma mina próxima ou pode ser essa que o funcionário relatou”. 

A CPI da Assembleia mineira pediu que a Vale envie dados e documentos sobre detonações realizadas no complexo das minas Córrego do Feijão e Jangada entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019. 

Os dois funcionários ouvidos negaram saber de recomendações emitidas pela Tüv Süd  a empresa responsável por atestar estabilidade da estrutura, para evitar circulação de máquinas pesadas ou detonações na área próxima à barragem. 

Além deles, a CPI também convocou um funcionário da Tüv Süd, Denis Valentim, mas ele não compareceu usando um habeas corpus conseguido por liminar no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

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