Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Posição política vira critério para dividir aluguel de apartamento

Anúncios de vagas nas redes sociais deixam clara a segmentação entre esquerda e direita

São Paulo

Entre os costumeiros pré-requisitos de "ser organizado" e "não fumante" para rachar um apartamento, virou motivo de rejeição a pecha de "bolsominion" ou "esquerdopata". Em grupos de anúncio de vagas nas redes sociais pipocam hashtags que vão do #EleNão e #LulaLivre a #EleSim e #TeamMoro, junto a descrição do tamanho do quarto, endereço e valor.

Um lista o que não pode: "atrasar o aluguel, não pagar caução, apoiar o Bolsonaro e/ou acreditar na cura gay". Coxinha, escreve outro, "só a de comer". Para fugir dos eleitores do presidente, foi criado um grupo à parte: "Aluguel para esquerdistas". Nele, "não há vagas abertas a fascistas, golpistas, racistas, homofóbicos". 

A estudante Isadora Abdalla, 23, explica: "o que caracteriza apoiadores [do Bolsonaro] é a intolerância a tudo que é diferente, e isso torna difícil a convivência", diz ela, que faz parte da Frente Feminista de São José dos Campos.

O arquiteto Breno Pilot, 25, também quis deixar clara sua posição ao procurar alguém pra dividir um lugar. É que, para ele, "o ambiente de casa deve ser tranquilo. É onde a gente busca conforto, não ficar duelando ou limitando certos comentários".

Política é uma afinidade que pesa, diz o redator Eduardo Carvalho, 37. Há dez anos dividindo apartamentos, ele conta que já morou com héteros, mas que se encontrou mesmo na "república do unicórnio", onde vive com dois colegas gays. "Às vezes a pessoa diz que não tem preconceito, mas no dia a dia mostra que tem", diz.

Postagem em grupo pede que novos moradores de apartamento não tenham votado no presidente Jair Bolsonaro
Postagem pede que novos moradores de apartamento não sejam bolsonaristas - Reprodução/Facebook

Ser LGBTI+ fez a auxiliar administrativa Paula Souza, 27, adotar critérios. Ela é lésbica e namora uma mulher trans, Penélope Stefan, 29. Quando foi Penélope a autora da postagem da vaga no apartamento, houve uma enxurrada de ataques. "O que mais aparecia eram comentários desejando a morte dela com a hashtag #B17", conta Paula. 

"Nós fomos muito atacadas nos discursos do Bolsonaro e dos seus eleitores. Não tem a mínima condição de colocarmos pra dentro de casa alguém que vai totalmente contra tudo que acreditamos", diz ela, que acabou alugando o quarto para dois homens héteros, mas de esquerda. 

A segurança é determinante para o administrador Gregory Scatolin, 28. Ele já foi vítima de violência homofóbica duas vezes. Na sua casa, pode ter gente de esquerda, de direita e apolítica, só que todos "têm que ter consciência de que as minorias sofrem, que existe racismo, LGBTfobia".

Do outro lado da trincheira, a procura de Carolina Mayworm, 22, é por alguém que "tope dividir apartamento com uma garota conservadora" e que apoia Bolsonaro. "Sim, é sério esse post", escreve. É que já tinha sido negado um teto à curitibana por causa de seu apreço ao capitão reformado e suas posições antifeministas. Ela faz parte do Avante Femininas, grupo para "mulheres de valor".

 
Postagem em grupo pede vaga em apartamento com moradores que votaram no presidente Jair Bolsonaro
Postagem pede vaga em apartamento com moradores que votaram em Bolsonaro - Reprodução/Facebook

O professor de inglês Bruno Vitale, 32, é um dos que não teriam problema em dividir o espaço com Carolina. Ele votou em Bolsonaro e prefere alguém do lado destro do espectro político no quarto da frente.

"Já tentei dialogar, mas a esquerda se mostra intolerante", afirma. De dez pessoas, diz, uma ou duas estariam abertas a ouvir a palavra da direita. "Isso transforma o convívio em algo complicado."

A pesquisadora mineira Raquel Nogueira, 34, ao contrário, é a favor de conviver com ideias diferentes. Sua postagem no grupo: "sou #EleNão, mas não me importo se você é #EleSim. E viva a diversidade!"

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