Tapete religioso reúne 60 toneladas de pedrinhas e mil voluntários no interior de SP

Organizadores da festa de Corpus Christi em Matão esperam atrair 80 mil turistas

Juliana Sayuri
Matão (SP)

A madrugada desta quinta-feira (20) era o momento mais esperado do ano em Matão, a cerca de 300 km de São Paulo. Por volta das 4h, mil voluntários ocuparam o centro da cidade para enfeitar as ruas com os tradicionais tapetes de pedrinhas coloridas para o Corpus Christi, festa religiosa instituída pelo papa Urbano 4º, em 1264.  Em países como Portugal e Brasil, é um dia de procissões.

Desde a década de 1940, matonenses decoram as vias para o cortejo católico, que parte da igreja matriz e percorre 12 quarteirões. Os tapetes ficaram famosos após ilustrarem a capa da revista O Cruzeiro, em 1962, e passaram a atrair turistas.

No Corpus Christi, a cidade de 82 mil habitantes (segundo o IBGE) para e praticamente duplica: de acordo com a prefeitura, a expectativa nesta 71ª edição é receber cerca de 80 mil visitantes de fora.

A festa é efêmera, um tipo de virada cultural católica, mas envolve preparativos ao longo do ano. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) define o lema bíblico (“serás libertado pelo direito e pela justiça” é o atual) e uma comissão de representantes das paróquias matonenses articula e distribui tarefas entre os voluntários, incluindo a criação dos desenhos e a produção dos materiais.

Inicialmente, eram usadas folhas secas. Depois, foram incorporados materiais como borra de café, cascas de ovos, folhas, palha de arroz e areia. 

Na década de 1970, passou-se a usar vidro moído e colorido, o que deixou os tapetes mais vibrantes. Nos últimos 15 anos, privilegiou-se a dolomita, tipo de calcário branco que é tingido em mais de 30 tons —neste ano, foram preparadas 60 toneladas de dolomita.

“É contagem regressiva para a madrugada e a manhã de Corpus Christi”, diz Eugênio Masselani, 43, professor de artes e um dos autores das ilustrações dos tapetes.

Na madrugada, é comum assistir a cenas como crianças brincando no asfalto colorido, adolescentes envoltos em edredons e idosos distribuindo café e chocolate quente para amenizar o leve frio de outono do interior paulista. 

Enquanto artistas produzem quadros especiais nas esquinas, voluntários ajudam a preencher os moldes dos tapetes.

A festa é religiosa, mas não só religiosos participam. “Já ficou ecumênico. Universal”, diz Masselani, para quem a atividade é mais artística e não necessariamente envolve apenas fieis católicos. 

Em 2016, por exemplo, Masselani e seus alunos de arte decidiram dedicar um dos tapetes a mulheres fortes, católicas ou não —na época, foram retratadas, entre outras, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai (muçulmana) e a ex-primeira-dama americana Michelle Obama (evangélica).

Neste ano, o fluminense Ivan Cruz, famoso por obras relacionadas a brincadeiras de infância, inspira um dos tapetes. A vitralista paulista Yolanda Geuer Castel será homenageada na Casa de Cultura.

“Observamos, neste contexto, uma união de toda a população para que seja uma celebração maravilhosa na cidade”, diz, em nota, o prefeito Edinardo Esquetini (PSB), 51.

Por volta das 11h da manhã, os tapetes estão prontos para os visitantes. A igreja matriz celebra missas às 7h, 9h, 11h e 15h —nesta última, acontece a procissão pelas ruas adornadas, como símbolo da caminhada dos fiéis em busca da terra prometida. As ruas são limpas às 23h e, no dia seguinte, os mais animados já começam a contagem regressiva para a próxima edição. 

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