Vão-livre do Masp, em SP, vira casa para mais de cem crianças e adolescentes

Prefeitura de SP já abordou 103 menores instalados sob o museu neste ano, além de adultos

Menores de idade que vivem na avenida Paulista escolhem o vão-livre do Masp como abrigo

Menores de idade que vivem na avenida Paulista escolhem o vão-livre do Masp como abrigo Danilo Verpa/Folhapress

Mariana Zylberkan
São Paulo

 Deitado sobre um colchão, Hippierre Freitas, 34, estica o pescoço para ver as horas. Da sua cama improvisada no meio do vão livre do Masp, ele avista um dos relógios eletrônicos da avenida Paulista e se situa no horário. "É meu relógio particular", diz ele, enfiado debaixo de uma pilha de cobertores. 

O mesmo colchão serve de "habitação" para a vira-lata Maloqueira, a única distração capaz de mobilizar a atenção do grupo de cerca de dez meninos que também tem como casa o espaço entre os famosos pilares vermelhos da construção de Lina Bo Bardi. 

Desde o início do ano, a Prefeitura de São Paulo abordou 103 crianças e adolescentes no ponto mais famoso da avenida Paulista. No ano passado, foram contabilizados 344 menores de idade abandonados em toda a extensão da via. 

Por terem família e casa em bairros distantes, mais de 85% recusam abrigo, mas, ao mesmo tempo, ficam na rua em decorrência de agressões sofridas em lares desestruturados, segundo a secretaria de Assistência Social. 

No último censo de moradores de rua, em 2015, cerca de 15 mil pessoas viviam nas ruas da capital paulista.

Tio Hippie, como Freitas é conhecido entre os garotos, tem o costume de se aproximar com a cadela no colo para acabar com brincadeiras entre eles que se tornam violentas, como quando um arremessou uma garrafa de vidro. "Fico de olho e me aproximo quando vejo que pode dar ruim", diz Hippierre. 

Nesse momento, um grupo de crianças pequenas com uniformes escolares caminhava até os fundos do vão-livre como parte da excursão ao museu, mas deu meia volta e foi embora quando as duas professoras que o acompanhava perceberam a confusão armada. 

A briga, no caso, começou quando um deles, Carlos Luciano, 14, pegou uma bala da caixa de Guilherme, 15. Eles vendem os doces nas calçadas da Paulista e usam o dinheiro para comprar cigarro, drogas, lanches de fast-food e "para jogar sinuca quando voltamos para a favela". 

Eles contam que costumam arrecadar R$ 50 em uma tarde com a venda das balas, além das doações que recebem de quem passa pela avenida.

Comida tampouco parece problema. "Brota comida do chão, tia", diz um deles, que afirma comer lanches do Burger King quase toda madrugada pagos por clientes da lanchonete na esquina com a avenida Brigadeiro Luis Antônio. 

Hippierre confirma a predileção pelas crianças quando o assunto é solidariedade. "Eu fico o dia todo sem conseguir nem uma marmita, enquanto eles ganham até duas de uma vez", diz. "Se na favela eles não conseguem nem um pão com mortadela, aqui, se quiserem, é misto-quente todo dia." 

Além do vão-livre, as equipes de abordagem apontam as alturas dos números 800 e 1.200 como os mais habitados por crianças abandonadas em toda a extensão da avenida. É onde estão localizados uma lanchonete do McDonald's e o shopping Cidade São Paulo. 

Com idades entre 12 e 17 anos, a maioria tem casa e família em bairros distantes do centro. De acordo com levantamento da secretaria de Assistência Social, a zona leste é a região de origem mais comum entre eles, seguida pela Grande São Paulo. 

Guilherme é de Heliópolis, favela na zona sul de São Paulo, e não se lembra da última vez que voltou para casa. Com um cigarro de maconha na mão, ele discute com outro menino a melhor forma de conseguir andar em uma patinete elétrica sem pagar, a diversão mais disputada. 

Hippierre Freitas, 34, e Thiago Rodrigo Simões, 29, dividem colchão no vão livre do Masp
Hippierre Freitas, 34, e Thiago Rodrigo Simões, 29, dividem colchão no vão livre do Masp - Danilo Verpa/Folhapress


"Algumas ficam sem bateria e aí nóis pega", conta. "Os boys também vacilam e a gente toma deles", diz um deles ao citar o fluxo grande de pessoas que toma conta da avenida aos domingos, quando fica fechada para o trânsito. 

As bicicletas compartilhadas também os atraem, mas não de forma tão unânime quanto as patinetes. Eles contam que usam a ciclovia da Paulista para apostar corrida e "tumultuar". Não gostam das bicicletas Yellow por serem muito pesadas, mas as do Itaú são "nave". 

Andar em grupo é estratégia para se manterem seguros. Hippierre diz ser comum que brincadeiras violentas virem facadas, e o consumo desenfreado de drogas resulte em morte acidental por overdose. 

A forma como cada um deles chegou até a Paulista varia. Uns dizem ter sido levados por amigos, outros por saber que ali têm mais chance de arrecadar dinheiro com as balas do que nos lugares onde vivem. 

Em comum, histórias de agressão, vínculos familiares desestruturados ou rompidos, conflitos na comunidade onde vivem ou ameaças são o que os mantêm longe de casa, de acordo com a secretaria de Assistência Social. 

Viver nas ruas para fugir de conflitos familiares não é exclusividade das crianças. Há 13 anos vivendo nas calçadas da Paulista, Thiago Rodrigo Simões, 29, conta que tem casa e família em Guaianases, bairro no extremo leste da capital, mas mantém a rotina de alternar duas semanas dormindo no chão do vão-livre do Masp com uma semana em que volta para casa "para tomar banho e trocar de roupa". 

Na mochila, ele carrega roupas limpas, toalha e escova de dentes, entre outros itens pessoais que renova a cada visita à casa da mãe em Guaianases.

"Eles aqui na rua são a minha família de verdade, me sinto mais confortável aqui do que na minha casa. Tenho um estilo aventureiro", diz ele ,que divide o colchão com Hippierre e a cachorra Maloqueira.

Sobre a escolha do vão-livre para se instalar, Thiago cita a segurança como principal atrativo. "Aqui têm muitas câmeras. Se eu der alguma coisa na sua mão, os policiais ali já ficam ligados", diz ele apontando uma base da Polícia Militar instalada no outro lado da avenida, em frente ao parque Trianon. 
Enquanto isso, uma equipe do museu montava um palco a poucos metros do colchão para uma atração musical. 

"Agora vou ver um show de graça sem nem sair da minha cama", disse Thiago. "O vão, como o próprio nome diz, é livre, e deve ser ocupado."

Abordagens de crianças e adolescentes no vão-livre do Masp

Das 103 abordagens realizadas desde janeiro:
Sexo: 91 meninos e 12 meninas
Faixa etária: 56 (15 a 17 anos), 38 (12 a 14 anos), 4 (6 a 11 anos) e 5 (0 a 5 anos)
Região de origem: 27 (zona leste), 22 (Grande SP), 19 (centro), 17 (zona norte), 15 (zona sul), 2 (zona oeste) e 1 (outros estados)
Escolaridade: 55 (ensino fundamental completo) e 48 (ensino fundamental incompleto)
Etnia: 53 (parda), 35 (negra) e 15 (branca)

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