Agitação e cocô de aves opõem Promotoria, prefeitura e até igreja no interior de SP

Amargozinhas, uma espécie de pombo, tomam praças e árvores de Presidente Prudente aos finais de tarde

Paulo Batistella
Presidente Prudente

Os fins de tarde no entorno da catedral de Presidente Prudente (a 556 km de São Paulo) têm um som ambiente estridente. Quando o sino badala às 17h35, já se somam ao ruído do trânsito estouros de bombas em resposta a um estardalhaço que irrompe no alto —milhares de pombas começam a chegar ao centro da cidade

Os pássaros surgem de direções diversas e se aglomeram ao redor da paróquia de São Sebastião. Enchem a fiação até encontrarem abrigo em alguma das árvores espalhadas. Numa revoada que parece manchar o céu de cinza, terminam de lotar a vegetação, onde pernoitam.

Ao amanhecer, o que resta na praça Monsenhor Sarrion é um rastro de cocô de pombos. A situação tem gerado um impasse entre prefeitura, Ministério Público e até a diocese local, que têm buscado uma maneira de manejar as pombas —ali chamadas de amargosinhas.

A prefeitura, sediada a poucos metros da praça, propôs arrancar 12 oitis, árvores de copas largas, para desabrigar a passarinhada e tentar dar fim ao problema que se arrasta há quase uma década.

Em contrapartida, a gestão do prefeito Nelson Bugalho (PTB) — promotor de Justiça do Meio Ambiente licenciado— propunha o plantio de palmeiras e ciprestes, desfavoráveis para as aves se empoleirarem.

Recebeu apoio da igreja, mas foi criticada pela população, com protestos em audiência na Câmara Municipal. A Promotoria também se opôs ao plano e recomendou apenas uma poda, o que foi feito em maio.

Centenas de pontos pretos em um céu cintilante
Amargozinhas, ao final da tarde, chegando às praças de Presidente Prudente, no interior de SP - Paulo Batistella/Folhapress

Agora diz aguardar relatório da prefeitura sobre a efetividade da iniciativa para espantar as pombas. O documento já está pronto, segundo afirmou o secretário de Meio Ambiente, Wilson Portella,  à reportagem.

O resultado da poda, acrescida de limpeza da região, foi positivo, segundo ele. "Deu uma atenuada grande no problema", disse.

O pároco da igreja, monsenhor José Antônio de Lima, no entanto, ponderou: "Amenizou, mas não resolveu". O religioso, que defende a derrubada das árvores, narrou, entre outras preocupações, o receio de quem vai às missas noturnas de levar um "carimbo de fezes" e até a diminuição de casamentos na catedral.

Portella afirma ter buscado iniciativas de outras cidades que lidam com o mesmo problema, como o uso de iluminação especial direcionada às árvores e de aves de rapina adestradas.

"Só tiveram resultados durante um período. Depois as pombas voltam, vão se adaptando." O secretário ainda respondeu sobre críticas à limpeza feita pela prefeitura, que seria insuficiente.

Ele afirma ser feita varrição rigorosa no largo da igreja diariamente e, em dias alternados, na praça Nove de Julho.

Quem trabalha alocado por ali, em barracas de comida ou pontos de táxi, empenha sua própria faxina na área de atuação, caso de Nilda da Silva, 65, que ajuda a irmã no trailer de caldo de cana no pé da igreja.

Apesar disso, defende a manutenção das árvores, que garantem sombra na cidade de temperaturas altas. Na outra praça, taxistas inovaram na técnica de limpeza. Montaram uma armação com panelas, sustentada por uma corda, na árvore frondosa que sombreia o ponto de trabalho.

O barulho ao sacudir o aparato espanta as pombas para outra parte da vegetação e diminui a incidência de fezes na área na manhã seguinte. As bombinhas, dessas comuns às festas juninas, que ajudam a compor a barulheira vespertina, são usadas com o mesmo intuito.

O pipoqueiro José Bezerra Lima, 52, diz já ter feito uso delas, mas agora, por causa de reclamações, se vira com um chocalho adaptado, uma garrafinha cheia de pedras. 

Problema é antigo na zona rural 

Silvestre, a chamada amargosinha difere da pomba-doméstica, comumente vista se alimentando de sobras nas cidades. Menor, de plumagem cinza e com manchas pretas, vive em enormes bandos e tem se aproveitado do ambiente urbano para dormir menos exposta a predadores.

É natural de regiões abertas semiáridas da América do Sul. O desmatamento, seguido de expansão agrícola, deu à subespécie natural dos pampas e do Chaco terreno e fartura de grãos, seu alimento favorito —o gatilho para a explosão populacional.

O problema de manejo da espécie não se restringe ao cotidiano de Presidente Prudente. Há relatos semelhantes em diversos centros urbanos no interior das regiões Sudeste e Sul, além de Argentina e Uruguai.

Na zona rural, a aglomeração da ave é um problema antigo. O docente aposentado do ICB (Instituto de Ciências Biomédicas) da USP Ronald Ranvaud estudou a espécie nos anos 1990 e identificou a busca das aves por alimento em plantações de milho, trigo, arroz e soja no médio Vale do Paranapanema.

Em Tarumã (a 454 km de SP), uma colônia chegou a ter estimada população de 5 milhões de indivíduos nos anos 1990.

Com estudos mais recentes, o biólogo Giliandro Gonçalves, doutorando pela Unisinos, afirma que a presença e hábitos no campo se mantêm. Os pesquisadores convergem ao dizer que um plano eficiente de manejo da espécie, com alto potencial de reprodução, deve focar no controle da oferta de alimento.

"A sugestão é de melhoria nas práticas agrícolas", diz Ranvaud, a fim de evitar desperdício de sementes.

Os cuidados ajudam a conter a população das amargosas, que terão uma diminuição no bando e precisarão até migrar para sobreviver.

Os especialistas explicam ainda que o problema nas cidades não está isolado da questão rural. A aglomeração num dormitório urbano indica fartura em toda a região em que ele está situado.

"A solução definitiva envolve manejo de paisagem", resume Gonçalves, que, em 2015, prestou consultoria à Prefeitura de Piracicaba (a 155 km de SP), que tentava lidar com a presença das amargosinhas na praça José Bonifácio, também na região central.

A aplicação do plano exigiria, segundo ele, articulação regional, entre municípios vizinhos, uma vez que a espécie se dispersa em um raio de até 100 km a partir da colônia ou do dormitório para se alimentar.

Sobre cortar árvores, Ranvaud diz que, de fato, obrigaria as aves a achar novo abrigo, mas pondera: "É um sacrifício tão grande quanto fazer a limpeza do local".

Já Gonçalves contesta a eficiência da iniciativa a longo prazo: "A chance de só transferir o problema de um lugar a outro é considerável".

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