Ao menos três moradores de rua morrem em SP em meio à onda de frio

Madrugada de sábado foi a mais fria do ano na capital, segundo o Inmet

Morador de rua tenta se proteger do frio na zona sul de SP após a madrugada mais fria dos últimos anos
Morador de rua tenta se proteger do frio na zona sul de SP após a madrugada mais fria dos últimos anos - Bruno Rocha/Fotoarena/Agência O Globo
Thiago Amâncio Mariana Zylberkan
São Paulo

Ao menos três pessoas morreram nas ruas de São Paulo em meio à onda de frio que atinge a capital paulista —a madrugada deste sábado (6), foi a mais fria dos últimos três anos na cidade, segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), com 7,4ºC.

Um corpo ainda não identificado foi encontrado pela Polícia Militar em Itaquera, zona leste de SP, na rua Professor Leonídio Allegreti às 6h55 deste sábado. O homem estava deitado em um colchonete na calçada, sem sinais vitais e sem vestígios de violência. O Samu foi acionado pela PM e constatou a morte.

Outro caso ocorreu na manhã de sexta (5), no metrô Barra Funda, zona oeste de SP. Um segurança do metrô foi acionado por uma passageira, que viu um homem desacordado na escada de acesso ao terminal de ônibus. 

Os agentes encontraram o rapaz, identificado como Gabriel Leguthe Lafott, 22, às 9h15, já sem sinais de vida. O caso foi registrado na Delpom (Delegacia do Metropolitano), que fica na própria estação. Gabriel vivia nas ruas de SP e já havia sido atendido em serviços da prefeitura.

De acordo com agentes, Gabriel estava sem nenhum tipo de proteção contra o frio e alcoolizado. 

Em nota, o Metrô lamentou o caso. “O frio e a chuva que atingiram a cidade de São Paulo nestes últimos dias foram especialmente severos para a população em situação de rua. O Metrô lamenta a morte e o fato de pessoas em situação de rua precisarem buscar abrigo em um terminal de ônibus.”

O terceiro caso ocorreu durante à tarde, na rua Dr. Pacheco e Silva, no Canindé, região central de São Paulo. A polícia foi acionada e encontrou o homem já morto, sem sinais de violência. 

Conhecido como Moreno, ele não carregava documentos. Segundo testemunhas, o homem era um morador de rua, mas não costumava ficar pela região. O caso foi registrado no 12º Distrito Policial (Pari) como morte suspeita.

De acordo com pessoas que o conheciam, Moreno não aceitava ser levado para abrigos por ter sofrido preconceito nos equipamentos, já que era homossexual.

 O padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, afirma que os trabalhos têm se intensificado nessa onda de frio. 

“Temos feito mutirões, saímos para a rua para procurar e ver como as pessoas estão”, diz ele, que relatou dois casos extremos encontrados na madrugada deste sábado: um homem com os cobertores molhados e outro com pneumonia.

“A gente tem que se preocupar com quem está sozinho, que é quem está desprotegido e corre mais risco. Tem que aquecer as extremidades do corpo, como pés e mãos, e dar bebida quente. Dependendo da situação, é preciso chamar o socorro”, diz o padre.

Segundo Robson Mendonça, presidente do Movimento Estadual de População em Situação de Rua, a abordagem feita pela prefeitura está mais demorada neste inverno do que nos anos anteriores devido a cortes recorrentes no orçamento da Assistência Social, que comprometeram a abrangência do serviço. "Neste ano está mais complicado, as reclamações são mais numerosas", diz.

Procurada, a secretaria de Assistência Social não respondeu os questionamentos da reportagem a respeito da maior demora na abordagem de moradores de rua. 

A prefeitura diz que, nesta madrugada, fez 162 acolhimentos de moradores de rua, e 24 pessoas recusaram o acolhimento.

Quem encontrar uma pessoa na rua precisando de ajuda deve ligar para o telefone 156, da prefeitura, e fornecer dados detalhados da pessoa e o endereço onde ela pode ser localizada pelas equipes de abordagem.

Segundo a prefeitura, há 18.411 vagas para acolhimento na capital, além de vagas emergenciais que são abertas em épocas de baixas temperaturas. 

O último censo, de 2015, calculava em 16 mil o número de pessoas vivendo nas ruas da capital, mas estima-se que hoje, três anos depois, o número total possa ser até o dobro disso.

O morador de rua não pode ser obrigado a ir a um abrigo. Os assistentes sociais podem convidá-lo, mas a decisão de dormir em um centro de acolhida é só dele. Se ele estiver com visíveis e graves problemas de saúde, os assistentes devem acionar o Samu, que levará a pessoa para um hospital.

Neste domingo, as temperaturas na capital devem registrar mínima de 5ºC e máxima de 16ºC. Não há previsão de chuva. Apesar do frio, o sol volta brilhar na capital, de acordo com previsão do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências).

A partir da segunda-feira (8), o frio diminui, e os termômetros vão variar entre mínimas de 6ºC e máximas de 18ºC, também sem chuva.

É possível que uma temperatura mais baixa do que a deste fim de semana seja registrada, pois o inverno ainda está no início.

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