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Aos 25 anos, dançarina abre escola de balé para crianças no Alemão

Aulas em quadra esportiva miram também desenvolvimento de autoestima e outros valores

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

A frase que Tuany Nascimento, 25, decidiu tatuar em linhas delicadas na lateral esquerda da barriga diz muito sobre sua personalidade: “Só o impossível me interessa”. Também define seu projeto de vida, uma escola de balé gratuita no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, que criou aos 18 anos.

Ali, a cena no fim de tarde é oposta à imagem de violência e miséria normalmente associada às megafavelas do Rio de Janeiro. O sol toma conta de metade da quadra esportiva, enquanto 19 meninas com saia de tule rosa dançam e brincam contra a luz, ao som de Beyoncé e Seu Jorge.

Ao fundo, um mar de casas e barracos antecede os morros cariocas e um fiozinho da Baía de Guanabara ainda visível. A falta de redes nos gols, os cocôs de pomba e as siglas da facção local nas paredes, no entanto, não deixam esquecer onde estamos. E isso faz toda a diferença.

“Fui uma menina que sempre tive vergonha de falar que era do Alemão. Hoje eu mostro para elas que elas têm que chegar nos lugares dizendo isso sim, mostrando quem são sim. Existe muito mais aqui dentro do que o Estado vê através da mira de um fuzil”, diz Tuany, nesse momento sem mostrar o sorriso fácil.

Se hoje ela usa o espaço da quadra três vezes por semana para guiar 38 meninas e um menino nos primeiros passos de balé, sete anos atrás ficava ali no canto sozinha para se alongar e treinar saltos nos horários livres do trabalho como aprendiz em marketing.

Tuany Nascimento, 25, ensina meninas a dançar balé em quadra esportiva no Complexo do Alemão, no Rio
Tuany Nascimento, 25, ensina meninas a dançar balé em quadra esportiva no Complexo do Alemão, no Rio - Zô Guimaraes/Folhapress

Não queria esquecer os movimentos que começou a descobrir aos cinco anos de idade, na Vila Olímpica do Complexo da Maré, também na zona norte. Foi para lá que se mudou bem pequena, quando seus pais, um baiano e uma carioca, separaram-se em Salvador.

Depois foi para o Alemão, ainda criança. “Mas não tinha muita atividade aqui ainda, então ficava indo e voltando da Maré”, conta. Por um tempo, teve que parar os esportes e a dança, porque era perigoso se deslocar entre favelas dominadas por facções rivais.

Até que abriu uma Vila Olímpica no Alemão e, dos 10 aos 18 anos, seguiu com natação, ginástica rítmica e balé. Representou o Brasil na Suíça num evento internacional de alto nível aos 17, mas quando voltou, o sonho começou a ruir.

Não havia mais competições para sua idade, e inscrições e figurinos eram caros. “Comecei a ver que não dava mais para sonhar nem ficar brincando de ser bailarina, aí decidi parar de dançar e fui trabalhar”, conta Tuany, a mais velha de seis irmãos.

Foi então que começou a usar o canto da quadra nos tempos livres e, sem espelhos para si, virou espelho para outras. A cada dia chegavam novas meninas para entender o que ela fazia com o corpo. Ela explicava, enquanto se dividia entre bicos e a bolsa na faculdade de educação física.

Só percebeu que o que fazia era um trabalho social que ultrapassava os limites da dança quando um comandante da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) na época chamou o grupo para se apresentar na estação do teleférico da favela —há mais de dois anos por problemas de contrato. Deu o nome de Na Ponta dos Pés.

Aos poucos, as garotas deixaram de ter que ensaiar em outro lugar quando os garotos queriam jogar futebol, a comunidade entendeu que as aulas não eram assistencialistas, e sim “para ensinar a pescar”, e as crianças pegaram gosto por gêneros antes impenetráveis como a MPB.

“Criei uma relação mais firme. Não era só ocupar o tempo ocioso delas, era mesmo formar elas para a vida. Eu não acho que vou transformar as 180 meninas que já passaram por aqui em bailarinas, mas eu vou ter todas elas sabendo quem são e o que querem.” 

Broncas (constantes), cobrança bimestral de notas, provas escritas e reuniões mensais com as mães fazem parte do pacote. “Percebi que não adiantava eu fazer um trabalho e ele ser totalmente distorcido quando elas chegavam em casa”, diz ela, que se divide entre a dupla personalidade de professora (a má) e “tia Tuany” (a boa).

Outro valor incansavelmente trabalhado é “a questão do eu mulher”, diz, para que não sejam mais para frente agredidas ou caladas. “Para que comecem a usar não só o corpo, mas também a fala. E se amem como são, com o cabelo crespo ou liso, com a sua cor.”

A pele negra e os cabelos enrolados já fizeram Tuany perder uma vaga num espetáculo. “Não tinha o perfil”, lhe disse a recrutadora. “O balé é uma dança feita para o corpo branco, não leva em conta nosso quadril, por exemplo. Não somos reconhecidas no Brasil.”

No fim do ano, ela passará quatro meses na Grécia e no Chile. É seu primeiro trabalho de dançarina profissional em longo tempo —o qual dividiu entre o curso de balé e os trabalhos de professora em academia, garçonete, animadora de festa e propagandas. Bailarinos voluntários vão ajudá-la nas aulas no Alemão.

Há quatro anos, a batalha de Tuany tem sido construir uma escola física, com espelhos e barras, para substituir a quadra. Hoje as aulas são canceladas toda vez que chove ou que tem confronto no Morro do Adeus.

A entrevista para esta reportagem, por exemplo, teve que ser adiada porque uma quadrilha rival tentou invadir a favela. Foi um tiroteio triplo —entre duas facções e a polícia— o dia todo, com mais dois dias sem luz porque um disparo atingiu um transformador, conta ela. Por isso as paredes erguidas na nova sala são de blocos de concreto. 

As verbas até aqui vieram de um aporte da Casas Bahia para projetos sociais e de financiamentos coletivos. Uma vaquinha online lançada há poucas semanas tenta atingir R$ 6.000 para acabamentos elétricos, portas e janelas.

O trabalho é coletivo. O terreno foi comprado pela mãe de Tuany, quem toca a obra é seu avô e seu tio pedreiros, e as alunas ajudam no que dá, carregando os materiais de lá para cá. Aplicam o que recitam em uma espécie de oração feita em roda, de mãos dadas, ao final de cada aula.

A letra: “Eu junto meus pés aos seus, eu coloco minha mão sobre a sua, eu olho nos seus olhos, para que juntos possamos fazer aquilo que eu não posso e não consigo fazer sozinho”. Tuany aprendeu a “reza” no circo: “Podemos realizar coisas sozinhos, mas sempre caminhamos com alguém do lado”, diz.

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