Campo de concentração no Ceará, anterior aos do nazismo, será tombado

Prefeitura de Senador Pompeu quer preservar história dos flagelados retidos durante a seca

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

“Todo povo precisa de uma história a ser contada. A nossa, apesar de triste, merece ser conhecida”, diz o prefeito de Senador Pompeu (CE), Mauricio Pinheiro. 

E triste é o passado desta cidadezinha que, nove décadas atrás, entrou na leva de municípios cearenses que abrigaram campos de concentração para conter retirantes esfomeados que tentavam chegar à capital do estado, Fortaleza.

A prefeitura pompeuense aprovou no fim de junho o tombamento do perímetro onde milhares desses migrantes foram detidos —e que virou a cova de muitos deles, vitimados por doenças. A oficialização da iniciativa, segundo Pinheiro (PDT), será feita em uma cerimônia neste mês. 

O confinamento é de 1932. Um ano depois os nazistas criariam sua primeira versão dessa modalidade de carceragem que assombraria o mundo ao permitir o assassinato sistemático de 6 milhões de judeus: uma fábrica reestruturada no sudeste alemão para enclausurar prisioneiros políticos de Adolf Hitler. 

Pouco mais de um mês após a abertura de campos em seis cidades cearenses (Crato, Ipu, Quixeramobim, Cariús, Fortaleza e Senador Pompeu), havia, segundo dados oficiais, 73.918 detidos —16.221 dos quais estavam em Senado Pompeu. Na capital, os dois currais de pobreza instalados chegaram a atrair curiosos, tal qual uma atração turística.

A nomenclatura era usada no Brasil havia anos. Em “O Quinze” (1930), clássico sobre a seca de 1915 no Nordeste, Rachel de Queiroz empregou-a ao descrever como a heroína Conceição “atravessava muito depressa o campo de concentração” e tratava de acelerar o passo, “fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento”.

Em Senador Pompeu, 12 casarões e três casas de pólvora serviram de prisão temporária para nordestinos que viam em Fortaleza uma salvação para a nova grande estiagem. O posicionamento dos campos eram estratégicos: próximos a estações de trem. “Dali as autoridades retiravam os clandestinos”, conta o prefeito Pinheiro.

Parte deles era convertida em mão de obra forçada e apartada de uma elite fortalezense com horror à indigência. Nove anos antes, o jornal “O Nordeste” anunciara o 17 de fevereiro de 1923 como o Dia da Extinção da Mendicância. 

Ser mendigo, dali em diante, tornou-se ilegal, e, caso alguém fosse pego nessa situação de “graves perigos de ordem moral”, seria encaminhado ao Dispensário dos Pobres, sob comando da Liga das Senhoras Católicas Brasileiras. 

“Toda noite morriam de 20 a 30 trabalhadores. Pela manhã, eram enterrados em vala comum. Como o nosso povo é religioso, ficou um sentimento de culpa pela dor e pelo abandono aos quais foram sujeitados aquela gente pobre. Tempos depois foi realizada uma procissão pela Igreja Católica em favor de suas almas”, diz o advogado José Maria Saraiva Nogueira Júnior, um dos pompeuenses que postula a preservação do patrimônio histórico-cultural.

Em 2017, o Ministério Público cearense e a Prefeitura de Senador Pompeu firmaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), aplicado quando um lado se compromete com algo. No caso do município, após anos de cobrança de ativistas locais, enfim veio o primeiro passo para tombar o sítio arquitetônico.

A maior parte das construções, erguidas para acomodar trabalhadores que se mudaram para construir uma barragem ali, não existe mais. 

“Os casarões, onde moravam engenheiros ou serviam de armazéns, estão semidestruídos pela falta de cuidado dos poderes públicos. Em pé, restou uma das casa de pólvora, que antigamente faziam uma espécie de dinamite para implodir pedras”, diz Saraiva.

Muitos confinados morriam de doenças. “Provavelmente a cólera veio com a comida feita para os trabalhadores. Restos de vísceras do matadouro com farinha. Esse angu sem o mínimo de higiene foi a causa”, afirma o advogado. 

Em 2014, a reportagem da Folha esteve na cidade e conversou com uma das remanescentes daquela época. Carmélia Gomes, então com 91 anos, contou a lenda do Papa-Figo, uma entidade que abria as entranhas das pessoas para surrupiar um pedaço do fígado. 

Dona Carmélia, que morreria em 2018 após um AVC, apontou uma possível origem para o mito: havia um médico que extraía amostras do órgão das vítimas do campo e as enviava a Fortaleza para análise clínica.

O pai da então menina de nove anos era um dos vigias do campo de concentração que Senador Pompeu ganhou em 1932. Em 2014, Carmélia ainda se recordava que ele voltava para casa contando de “lagartixas entrando na boca dos defuntos, tudim inchado por causa da fome”.

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