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Com fisioterapia aquática e técnica de 'cockpit' para cadeira de rodas, AACD avança em reabilitação

Instituição, que em agosto de 2020 completa 70 anos, atende maior parte de seus pacientes pelo SUS

Ricardo Kotscho
São Paulo

Dona Marisa, 60, que teve paralisia infantil, é uma das pacientes mais antigas da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). Em tratamento permanente, nos últimos tempos não conseguia mais ficar em pé e se queixava de fortes dores.

Avaliada por uma equipe multiprofissional, foi encaminhada para o fisioterapeuta Douglas Martins Braga, chefe do setor de fisioterapia aquática, totalmente reformado há dois anos. Conta agora até com uma máquina para simular ondas.

A paciente nunca tinha entrado nem na piscina, nem no mar. Numa cadeira de rodas que entra na piscina, desenvolvida nas oficinas da instituição, ela teve uma crise de pânico quando tentou usar o veículo pela primeira vez.

“Certos músculos só conseguem ser ativados na água, onde a força da gravidade é quase zero e faz a pessoa flutuar”, explica o professor Braga, há 14 anos na AACD, onde já viu muitos “milagres” acontecerem.

Em seis meses, segundo a AACD, após uma cirurgia reparadora na perna e com as atividades aquáticas, Marisa voltou a caminhar com a ajuda do andador, e não sentia mais dores.

Um menino de 15 anos, com distrofia muscular, chegou bastante debilitado quando a fisioterapeuta Mika Yamada Imaizumi o examinou pela primeira vez. Queixava-se de fortes dores por não conseguir mais ficar na cadeira de rodas que usava.

Imaizumi é uma das 60 funcionárias da oficina ortopédica central, na Vila Clementino, zona sul de São Paulo, onde são fabricadas de 80 a 100 cadeiras sob medida por mês, graças aos recursos de um simulador digitalizado e aos cuidados de verdadeiros artesãos, para dar maior conforto aos pacientes.

Em geral, são feitas cinco provas, como no alfaiate ou na costureira, até ajustar perfeitamente a cadeira ao corpo, mas o caso do menino era mais complexo. É o mesmo processo usado para adaptar o cockpit nos carros dos pilotos da Fórmula-1.

“Depois de fazer dez provas, sem resultado, eu estava quase desistindo, o menino começou a chorar, já não sabia mais o que fazer. Na 11ª tentativa, deu certo, e ele saiu feliz da vida, pilotando sua cadeira motorizada, com o joystick ajustado junto à sua barriga”.

Histórias como essas fazem a felicidade dos 1.938 funcionários e 1.214 voluntários da instituição, que realizaram 800 mil atendimentos e entregaram 55.895 produtos ortopédicos em 2018.

No início, nos anos 1950 do século passado, quando uma epidemia de poliomielite assolou o país, a AACD atendia apenas crianças, mas hoje cuida de pacientes de todas as idades, a maioria pelo SUS. 

Como os custos são altos e a tabela do Ministério da Saúde está sempre defasada, o grande complexo médico-hospitalar, sem fins lucrativos, só sobrevive graças a doações de pessoas físicas e jurídicas.

Ao fundar a AACD, que em agosto de 2020 completa 70 anos, o médico ortopedista Renato da Costa Bonfim definiu os objetivos, que sempre foram seguidos pela instituição:

“Não se trata de fazer caridade ou filantropia, é preciso encarar a causa da reabilitação como problema médico-social prioritário”.

Hoje, a maioria dos pacientes tem paralisia cerebral provocada por problemas no parto (no momento, são atendidos 880 casos), o que exige constantes investimentos em pesquisa para o desenvolvimento de novas tecnologias e tratamentos em nove unidades de reabilitação.

Coordenador geral da oficina ortopédica, Ciro Pavarina, 53, formado em ajustagem mecânica pelo Senai, é protesista ortesista, uma profissão que nem existia quando foi contratado, em 1988, e ainda não está regulamentada.

Não foi fácil. Fez três tentativas até ser aprovado nos testes.

“Juntar a habilidade que eu tinha com a vontade de ajudar as pessoas é o que me fez vir para cá”, lembra Pavarina, responsável por todos os produtos ortopédicos desenvolvidos pelos engenheiros da AACD (próteses, órteses, coletes, capacetes e as cadeiras de rodas adaptadas, entre outros).

Ao entrar nesta que é a maior oficina ortopédica da América Latina, me deu a mesma impressão que tive ao conhecer o departamento de efeitos especiais do Projac da Globo: uma linha de montagem com próteses de braços, pernas, mãos, tudo controlado por computadores, scanners e simuladores.

“O que mais me motiva a trabalhar aqui é o retorno dos pacientes, que não é financeiro. É um pagamento que recebo na hora, à vista, ao ver a emoção das pessoas. É o que faz a diferença”.

Formado em fisioterapia pela Faculdade de Medicina do ABC, Douglas Martins Braga, 41, é outro que conseguiu juntar a formação profissional com sua grande paixão desde menino: entrar numa piscina.

Depois de um estágio em hidroterapia na faculdade, ele resolveu mandar seu currículo para várias pessoas que conhecia na AACD.

“O mais difícil foi entrar aqui. Tive a oportunidade de fazer uma outra faculdade, completamente diferente do mundo lá fora”.

O tratamento dos pacientes é individualizado, com o apoio de toda a estrutura da instituição. Quando chega um novo paciente, como fez com dona Marisa, Braga sempre pergunta:

“O que você quer? O que você precisa? Aonde quer chegar?”.

A partir daí, é traçada a meta e distribuído o trabalho entre os 24 fisioterapeutas da equipe para atender de 180 a 200 pacientes por dia.

Na AACD, sempre uma história puxa a outra. Feliz com o tratamento recebido por uma parente, o engenheiro Mauro Cardoso de Aguiar resolveu por contra própria desenvolver uma máquina de fazer ondas na piscina, doado à instituição.

Chamado “Raia Viva”, segundo o engenheiro que criou o sistema, “a corrente de água é produzida dentro de um gabinete de polipropileno, onde um dispositivo faz com que a água da própria piscina volte em fluxo horizontal, o que proporciona exercícios para braços e pernas".

Ele afirma ainda que "a velocidade de giro do motor é controlada por um inversor de frequência, com um potenciômetro regulado para cada tipo de tratamento”. 

Se perguntarem ao professor o que ainda falta no seu trabalho, a resposta vem na lata: “Mais recursos para investir em tecnologia e pesquisa”, o grande desafio da AACD.

Recente estudo feito pelo setor mostra a reação de equilíbrio em pacientes com paralisia cerebral nível 4 (alto grau de complexidade). A pesquisa aplicou um protocolo de atendimento em pacientes da AACD nas sessões de fisioterapia aquática que mostrou uma melhora significativa no quadro e foi premiada pelo SUS.

Qualquer pessoa com dificuldades para andar, como é o caso do repórter, ao conhecer o trabalho nas duas piscinas comandadas por Braga, vai pedir para ficar lá...

Tem também coisas boas acontecendo no Brasil. É só procurar. A AACD é sempre um bom endereço.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do informado, a sigla da AACD é Associação de Assistência à Criança Deficiente. O texto foi corrigido

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