Doria anuncia desassoreamento do Pinheiros, mas rio segue sem plano de despoluição

Meta é retirar 1,2 milhão de metros cúbicos de sedimentos do rio paulistano

Fabrício Lobel
São Paulo

Ainda sem um plano completo para a despoluição do rio Pinheiros, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou nessa sexta-feira (12) a retomada de seu desassoreamento.

A medida é parte do processo da promessa de Doria de despoluir o rio Pinheiros até o fim de seu governo, em 2022. O prazo é visto por especialistas como difícil de ser alcançado. Projetos similares costumam durar mais tempo do que o mandato do atual governador. Além disso, o rio já recebeu diferentes projetos e programas com o mesmo objetivo e que não foram concluídos.

Doria já chegou a dizer que o Pinheiros seria o Porto Madero, se referindo ao cais do rio da Prata em Buenos Aires. Disse ainda que São Paulo pegaria experiências com o projeto de despoluição do rio Tâmisa, em Londres. Os dois casos citados, porém, são muito diferentes da realidade do Pinheiros. Tanto o rio da Prata quanto o Tâmisa têm alto fluxo de água e proximidade com o mar, facilitando a dispersão de poluentes. 

A partir de terça-feira (16), com a retomada do desassoreamento do Pinheiros, o governo do estado pretende retirar uma quantidade de sedimentos do rio na ordem de 1,2 milhão de metros cúbicos nos próximos 12 meses. O volume é 150% a mais do que foi retirado do rio Pinheiros nos últimos cinco anos, segundo o governo do estado.

Com menos sedimentos, o governo do estado espera que o rio tenha maior capacidade de dispersão de poluentes. Em alguns pontos, o rio Pinheiros é bastante raso, chegando a um metro de profundidade. 

Outro benefício que o governo do estado espera ter com a retomada do desassoreamento é a mudança do aspecto da água. Com o leito mais profundo, a coloração da água deve, em parte, perder o aspecto de esgoto. Além disso, segundo especialistas, a presença de lixo deve também diminuir. 

Barcas para recolhimento de lixo em suspensão no rio Pinheiros
Barcas para recolhimento de lixo em suspensão no rio Pinheiros - Ofotográfico

Essa é a segunda medida anunciada pelo governador João Doria em pouco mais de um mês desde que ele anunciou que despoluiria um dos maiores rios de São Paulo. Em junho, o governo do estado havia anunciado os testes de duas balsas que recolhem o lixo em suspensão no curso do Pinheiros. 

A Emae ( Empresa Metropolitana de Águas e Energia) também está no projeto de despoluição e diz estudar formas de filtrar a entrada de lixo pela calha do Pinheiros. A empresa, porém, ainda não tem uma solução para o problema e diz estudar tecnologias internacionais. 

Ainda assim, nenhuma das medidas altera a qualidade da água que circula pelo Pinheiros. Para que ela seja despoluída, é preciso primeiramente reduzir drasticamente o volume de esgoto que é descartado no rio. São Paulo hoje ainda não coleta 13% de seu esgoto gerado e deixa de tratar 30%. Esse residual vai para os rios e represas da Grande São Paulo.

Hoje, o rio Pinheiros tem um índice de DBO (demanda bioquímica de oxigênio) que fica entre 60 a 75 por litro de água. O DBO é um dos principais índices de poluição de rios e represas. Segundo o secretário estadual de infraestrutura e meio ambiente, Marcos Penido, a meta é baixar essa taxa para 30 mg/l no rio Pinheiros.

Essa é a mesma meta usada pela Sabesp (empresa paulista de saneamento) no programa Córrego Limpo, que visa despoluir córregos na periferia que alimentam rios maiores na cidade. 

Para chegar às 30 mg/l de DBO, a Sabesp diz que irá acelerar programas de saneamento na bacia do rio Pinheiros. Os programas do Pinheiros, assim como o Córrego Limpo, já estavam previstos como parte do Projeto Tietê, que tem como objetivo a despoluição do principal rio de São Paulo. 

Um dos empecilhos dessa meta é conectar áreas de ocupação irregular ao longo da bacia do rio Pinheiros às tubulações de esgoto que levam a uma estação de tratamento. Um exemplo é o entorno do córrego Águas Espraiadas, na zona sul. Ali, todos os imóveis têm que ter seus imóveis conectados nas tubulações de esgoto que levam a uma estação de tratamento. Caso contrário, o esgoto cairá no Águas Espraiadas e seguirá para o Pinheiros. 

O problema é que muitas vezes, a Sabesp demora meses para avançar poucos metros de tubulações em áreas de moradia irregular, onde não há ruas ou espaço para obras. Há ainda o problema de milhares de imóveis que não se conectam à rede de esgoto para não pagarem a integralidade da tarifa da Sabesp, esse esgoto irregular também vai para os rios.

O exemplo do Águas Espraiadas é apenas um dos 23 afluentes do Pinheiros, mostrando o tamanho da tarefa. A Folha apurou que já existem setores da Sabesp que estimam que não será possível coletar todo o esgoto da bacia do rio Pinheiros, principalmente por causa da ocupação irregular. 

A aposta da empresa é de criar pequenas estações de tratamento de esgoto em locais de difícil acesso para acelerar o saneamento inclusive nas áreas de moradia irregular.

Mas ainda que a Sabesp consiga reduzir em 90% a quantidade de esgoto enviada ao rio Pinheiros, alguns especialistas alertam para um novo risco no Pinheiros: a eutrofização, ou seja, a proliferação de algas que forram a superfície do rio, o que derruba a taxa de oxigênio na água.

O receio existe pois grande parte do volume do Pinheiros hoje é de esgoto. Sem essa carga, o rio perde força em seu fluxo, tendendo a ficar parado (o Pinheiros já tem uma vazão muito baixa). A água parada é um bom ambiente para a proliferação dessas algas que poderão aparecer com o esgoto residual no Pinheiros. 

Segundo Penido, a eutrofização ainda não é uma preocupação do governo do estado. Mas estuda também projetos de aeração como remédio para esse efeito.

Para o engenheiro e consultor Carlos Tucci a meta estabelecida por Doria até 2022 é extremamente complexa. Mas ele vê com bons olhos que São Paulo tenha metas de despoluição de rios e que elas sejam parte do programa de governo. "Ninguém fala nisso em outras grandes cidades do país", comenta.

Ele pondera ainda sobre a qualidade da água. "A meta de 30 mg/l de oxigênio não traz uma água necessariamente boa. Mas dificilmente teríamos algo melhor do que isso em uma região metropolitana".

Erramos: o texto foi alterado

Na versão anterior deste texto, o subtítulo não continha a unidade de medida da quantidade de sedimentos a ser retirada do rio Pinheiros. A informação foi adicionada.

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