Descrição de chapéu DeltaFolha

Explosão de ciclistas em SP fica restrita às camadas mais ricas

Pesquisa do Metrô mostra aumento de 400% entre os mais abonados e queda entre os mais pobres

Fabrício Lobel Leonardo Diegues
São Paulo

O número de viagens de bicicleta feitas por ciclistas da camada mais rica da sociedade explodiu, praticamente quintuplicando em dez anos, entre 2007 e 2017. Essa é mais uma das conclusões da pesquisa Origem e Destino do Metrô, divulgada nesta quarta-feira (3).

Os deslocamentos feitos inteiramente ou apenas em parte com bicicletas por pessoas dessa classe social saíram de 3.840 por dia para 19.131. O crescimento concentrado entre os mais ricos pode ser explicado pela falta de estrutura cicloviária na periferia.

Em termos gerais, as viagens que em algum momento utilizaram bicicletas passaram de 310 mil para 389 mil, um aumento de 25%.

Na camada mais rica, com renda familiar acima de R$ 11.448, o crescimento foi de quase 400%. Em 2017, a explosão entre os mais ricos se deu principalmente entre pessoas que moram na região da rua Oscar Freire e dos bairros do Itaim Bibi, Santana, Moema, áreas ricas da Grande SP.

O crescimento da adesão à bicicleta cai nas camadas mais pobres. Na base da pirâmide social, ou seja, entre aqueles com renda familiar inferior a R$ 1.908, chegou a haver retração de 3% (acompanhando o quadro geral de queda de circulação dessa população, devido a questões econômicas).

São justamente os mais pobres, porém, que historicamente fazem a maior parte das viagens de bicicleta em São Paulo. Em 2017, 70% delas foram feitas pelas duas camadas mais pobres, entre as cinco estudadas pela pesquisa.

Tanto em 2007 como em 2017, a maioria dos ciclistas dizia ter escolhido pedalar devido à conveniência para cumprir pequenas distâncias.

Mas há mudança nas outras motivações. Em 2007 estava em segundo lugar o fato de o transporte coletivo ser caro. Já em 2017, mais pessoas disseram ter optado pela bicicleta para fazerem exercício físico.

A pesquisa ainda concluiu que 72% dos ciclistas não usaram vias segregadas, como ciclovias e ciclofaixas.

Para Marina Harkot, pesquisadora em mobilidade, a diferença do crescimento do uso de bicicletas entre pobres e ricos pode ser um reflexo da falta de estrutura cicloviária nas periferias da Grande SP.

Para ela, a cidade de São Paulo fez uma escolha de concentrar seus esforços de criar uma nova malha nas regiões centrais ao longo da gestão Fernando Haddad (PT). “Foi uma escolha da gestão consolidar uma política inovadora em um território que é o espelho da cidade”, analisa.

Ela lamenta que a implantação de ciclovias tenha cessado desde então, ao menos na capital. Marina cita ainda medidas que poderiam incentivar novas viagens na periferia:

1) Aumentar a estrutura de bicicletários nas estações de trens, metrôs e terminais de ônibus: fazer com que a bicicleta seja o transporte até um meio de maior capacidade. 

2) Tornar o trânsito mais seguro em bairros onde já há uma cultura de ciclismo: medida incentiva e difunde o uso da bicicleta entre pessoas que não necessariamente pedalarão até o trabalho.

3) Redes e estratégias metropolitanas: se a dinâmica econômica e os deslocamentos são metropolitanos, a política cicloviária não deveria ser exclusivamente municipal.

Pedestres sem opção

Outra descoberta da pesquisa Origem e Destino de 2017 é que 101 mil pessoas vão trabalhar a pé por acharem que a condução é cara demais na Grande São Paulo.

Depois das 3.900 pessoas que dizem ir trabalhar caminhando pela pequena distância, a falta de dinheiro é o motivo mais presente entre esses trabalhadores.

Logo depois dessa razão estão os que caminham até o trabalho por opção de atividade física (66), demora para condução passar (28) e distância até locais de embarque de conduções (20).

Além disso, 254 mil estudantes dizem caminhar até a escola só por causa da falta de dinheiro. 

Menos famílias com dois carros

O índice de famílias que têm dois carros em casa diminuiu de 11,3%, em 2007, para 9,2% em 2017, segundo a pesquisa Origem e Destino do Metrô.

Apesar da queda, o índice geral de carros por família aumentou. Isso ocorreu pois mais famílias passaram a ter carros na Grande São Paulo. 

Segundo a pesquisa, 52,9% das famílias na região metropolitana têm carro (contra 49,5% na pesquisa anterior). Na capital, esse índice é de 69%.

No período, a frota na Grande São Paulo aumentou 22,8%, mais que o triplo do crescimento populacional em dez anos, que foi de 6,6%. 

Fretados em Queda

No balanço entre 2007 e 2017, o meio de transporte que proporcionalmente mais perdeu viagens foi o fretado.

Este modelo de transporte saiu de 629 mil viagens diárias para 352 mil (queda de 44%).

Na cidade de São Paulo, o período entre as pesquisas foi marcado por uma série de novas regras da prefeitura para restringir o acesso e os locais de paradas desse tipo de ônibus. 

Essas viagens basicamente têm a função de cumprir o trajeto casa-trabalho. 

Em 2017, a maior parte dos passageiros estiveram na segunda camada mais pobre da sociedade, entre cinco analisadas. 

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