Descrição de chapéu Obituário João Oliva (1922 - 2019)

Mortes: Jornalista e intelectual, foi membro da Academia Sergipana de Letras e amante da poesia

Nas palavras do colunista Ancelmo Gois, João 'reunia generosidade e brilhantismo'

Daigo Oliva
São Paulo

Para compensar a grandeza intelectual, João Oliva era franzino. As pernas finas, quase sempre em calças de cintura alta, eram acompanhadas de cabelos rigorosamente penteados para trás, cheios de gel, que só deixou de passar nos últimos anos de vida.

Muito antes de se tornar membro da Academia Sergipana de Letras, em 2001, honra que o encheu de orgulho e o deixou um pouco mais vaidoso, o jornalista e escritor partiu cedo da minúscula Riachão do Dantas, no interior do estado, onde nasceu. 

Órfão aos 6, foi para Boquim aos 13. No município vizinho a Riachão, trabalhou como balconista e desenvolveu o gosto pela poesia após os primeiros contatos com a obra do conterrâneo Hermes Fontes.

De memória invejável, declamava poesias inteiras de cor. Sempre que chegava à casa de uma das filhas, em São Paulo, parava no centro da sala e passava a derramar Olavo Bilac: “Aqui deves entrar como num templo / Com a alma pura e o coração sem susto”. 

O jornalista e escritor João Oliva, em Aracaju - Tamar Oliva/Divulgação

Para a esposa, Maria Alves, com quem foi casado durante 63 anos, escreveu versos sobre “um amor outonal, cuja beleza calma tem o doce langor de um final de tarde”.

O sobrenome Oliva foi adotado por ela após o casamento, mas eles já pertenciam à mesma família: eram primos de primeiro grau.

Mudou-se para Aracaju em 1956, aos 34, transferido pelo IBGE, para o qual escreveu verbetes de municípios sergipanos. Na capital, porém, dedicou-se sobretudo à imprensa. 

Nos veículos Gazeta de Sergipe, Diário de Aracaju e A Cruzada, Oliva foi de repórter a redator-chefe, de editorialista a crítico de literatura.

"Foi um dos mais importantes intelectuais que conheci", diz o sergipano Ancelmo Gois, colunista do jornal O Globo.

"Na época, havia [em Aracaju] um jornalismo voltado às questões locais, quase paroquial. Ele se diferenciava ao olhar para fora. Reunia generosidade e brilhantismo."

Os editoriais escritos do final da década de 1950 até 1969, alguns meses depois do AI-5, renderam um de seus dois livros, no qual há artigos a favor da anistia a presos políticos e críticos à truculência policial.

A ditadura militar que criticava foi a responsável pela deposição do governador Seixas Dória, de quem Oliva foi secretário de Imprensa.

Também como assessor, desta vez da Universidade Federal de Sergipe, idealizou o Festival de Artes de São Cristóvão, que, com intervalos, acontece há 46 anos.

Para o escritor Francisco J. C. Dantas, autor de "Os Desvalidos" (Companhia das Letras), os textos de Oliva valorizavam o progresso ao mesmo tempo em que "buscavam repor as bases da tradição sergipana".

Dantas, que também nasceu em Riachão, destaca a perseverança do jornalista que desenvolveu o talento da escrita na condição de autodidata e que, "já adulto, com uma penca de filhos", formou-se em direito.

"Um homem perseverante, cheio de fé, voltado para a igreja." Oliva morreu na madrugada de quarta (3), aos 96 anos, após sofrer uma insuficiência respiratória.

Deixa 11 filhos —dez biológicos e uma adotiva—, 15 netos e nove bisnetos. A esposa, Maria Alves, morreu em 2011.

Após a perda da mulher, a família recomendou a Oliva fazer um exame geral para avaliar sua condição física. O médico, percebendo a tristeza, receitou um antidepressivo. Dias depois, um dos filhos, também médico, foi checar se o pai estava seguindo a ordem.

“Meu filho, vocês jovens não querem sofrer. Deixe-me sentir essa dor.” Todos nós, incluindo este neto, sentiremos.

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