Moradores do Minhocão vão à Justiça para remover jardins que definham

Com fim de acordo, paredes verdes da gestão Haddad não têm manutenção há mais de um ano

Condomínios no Minhocão que receberam os jardins verticais na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT) agora processam a prefeitura para arcar com os custos da retirada das plantas

Condomínios no Minhocão que receberam os jardins verticais na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT) agora processam a prefeitura para arcar com os custos da retirada das plantas Karime Xavier/Folhapress

Mariana Zylberkan
São Paulo

De passarinhos e borboletas os moradores de pelo menos três edifícios ao longo do Minhocão, na região central de São Paulo, passaram a receber visitas de lagartas, aranhas e pernilongos. 

A mudança no perfil dos visitantes é apenas um dos muitos transtornos, segundo relatos de vizinhos, causados pelo abandono dos jardins verticais instalados em prédios ao longo do elevado há cerca de três anos pela gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT). 

Segundo moradores, os jardins verticais não recebem manutenção porque a empresa que os instalou, Movimento 90, deixou de prestar o serviço há mais de um ano devido a impasse com a prefeitura. 

Sem dinheiro para pagar os custos, estimados em R$ 3.000 mensais, os condomínios agora recorrem à Justiça para exigir que a prefeitura remova os jardins. "Virou um pasto vertical. Temos medo de que qualquer faísca provoque um incêndio, porque as plantas estão secas, mortas", diz Paulo Gomes Negrão, 64, morador do edifício Minerva. 

Procurada, a gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB) afirmou que estuda orçamentos para retirar os jardins dos edifícios que se recusaram a renovar o contrato, mas não deu um prazo. A gestão afirma que não tem vínculo contratual com a Movimento 90. 

Após pedidos reiterados para remover as plantas da parede, sem respostas, o condomínio Minerva, na rua Amaral Gurgel, decidiu acionar a gestão Covas judicialmente para exigir a retirada do mato seco em que foi transformado o jardim vertical.

O síndico do edifício Bonfim, Wendel Cardoso da Silva, 37, fez o mesmo na semana passada. "A prefeitura disse que não tem verba para desinstalar o jardim, mas isso está previsto em contrato, então acionamos o advogado", diz. 

Segundo o síndico, a bomba que irriga as plantas está quebrada há cinco meses e nem prefeitura e nem a Movimento 90 atenderam aos chamados para consertá-la. "A água fica parada na caixa-d'água. As plantas só são molhadas quando chove", diz Wendel. 

Perto dali, os moradores do edifício Santa Filomena, na rua Amaral Gurgel, também contam sofrer com o descaso. 

O prédio é emblemático porque seu jardim vertical forma o desenho de uma carranca, diferente dos outros que representam imagens abstratas. "Era o cartão-postal do projeto, mas está largado. A carranca perdeu sua característica", diz o síndico Marco Mendo sobre o desenho criado pelo artista plástico paulistano Pedro Wirz. 

Devido a uma infiltração em um dos apartamentos, causada por defeitos no sistema de irrigação, o síndico desligou há três meses a bomba de água. A falta de irrigação atrai insetos, como grilos e gafanhotos, que também invadem o prédio. 

Mesmo quando a irrigação funcionava normalmente, a preocupação era com o consumo excessivo de água para manter as plantas saudáveis. "O sistema de reaproveitamento de água e captação da chuva não era suficiente. A conta de água tinha todo mês um extra de R$ 400", diz o síndico do edifício Santa Filomena, que tem 34 apartamentos e condomínio de R$ 410. 

Os custos extras não chegaram a ser repassados aos moradores, mas, segundo o síndico, consumiram a verba que seria destinada a obras de manutenção no prédio, erguido há mais de 40 anos. 

Outro jardim vertical, este pensado e inaugurado por João Doria (PSDB) nos 15 meses em que foi prefeito de São Paulo, ao longo da avenida 23 de Maio, também definhou devido à falta de manutenção. 

No segundo semestre do ano passado, o muro verde orçado em R$ 9,8 milhões passou meses sem receber irrigação porque a prefeitura não pagou contas de água e luz referentes ao abastecimento.

As contas eram de responsabilidade da Movimento 90, segundo a prefeitura. A empresa, por sua vez, disse que o termo de doação assinado com a municipalidade lhe obrigava a cobrir os custos de manutenção somente até fevereiro do ano passado. 

A gestão Covas, então, teve que pagar o conserto do sistema hidráulico e as contas de luz e água para manter o muro vivo. 

Com 6 km de extensão, o corredor de plantas na avenida foi uma iniciativa de Doria após grafites coloridos feitos sob a gestão de Fernando Haddad terem sido pintados de cinza a mando do tucano no início de seu mandato.

Os jardins verticais ao longo do Minhocão começaram a aparecer pela cidade em 2015 durante a gestão de Haddad como uma forma de compensação ambiental

Na ocasião, construtoras que desmataram terrenos para construir empreendimentos na cidade fizeram acordo com a municipalidade que as autorizou a pagar as dívidas ambientais a partir da instalação dos jardins verticais. 

Em 2018, porém, a Promotoria de Meio Ambiente avaliou que os jardins verticais representam uma troca insuficiente para repor a retirada de árvores, e o acordo com as construtoras foi revogado. 


Sem um contrato formal com a prefeitura --apenas um termo de doação, como muitos outros realizados pela gestão Doria com empresas privadas interessadas em prestar serviços à cidade--, a empresa Movimento 90 afirma não ter obrigação legal de continuar a fazer a manutenção dos jardins verticais desde fevereiro do ano passado. 

A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente abriu licitação no fim de 2018 para contratar a manutenção dos jardins verticais. A Movimento 90 venceu o certame após ter sido a única a participar. 

De acordo com a secretaria, o edital não prevê repasse de verba pública e, em troca da manutenção, a empresa tem direito a explorar espaço publicitário nos jardins. 

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