Descrição de chapéu Obituário Nilson Costa da Silva (1951 - 2019)

Mortes: Garçom, foi símbolo de bar tradicional da boêmia curitibana

O Passarinho, deslizava e assoviava pelo salão do Manekos

Katna Baran
Curitiba

Era como uma dança. Durante quase 35 anos, Nilson Costa da Silva, o Passarinho, deslizava nos estreitos espaços entre uma mesa e outra do Maneko’s Bar, tradicional no centro de Curitiba (PR), que desde a aquisição por Manoel Pereira Alves, o Maneko, contava com o ilustre garçom.

O funcionário veio antes do dono: Nilson já trabalhava para o antigo proprietário do bar, e não havia um dia que ele não chegasse até mais cedo que o patrão. “Até eu falava: ‘Não precisa chegar tão cedo, rapaz’”, diz Maneko. “A disposição para o trabalho”, responde rapidamente Carlos Alberto Guiffo quando perguntado sobre a característica mais marcante do colega

Nilson Costa da Silva, o Passarinho, garçom do Bar Manekos.
Nilson Costa da Silva, o Passarinho, garçom do Bar Manekos. - Gazeta do Povo

Entre os assovios imitando os cantos das mais variadas espécies de passarinhos —daí o apelido— e as escorregadas pelo salão, Nilson soltava alguns sons de sirene para os clientes e colegas que atrapalhavam a ligeira passagem. “Às vezes, eu brincava que os assovios enchiam o saco, mas se ele ficasse sem até perdia o equilíbrio para trabalhar”, conta o patrão.

A agilidade e o bom humor fizeram com que o bar atraísse clientes. Mesmo com a casa lotada, com Nilson, ninguém ficava mais de um minuto esperando para ser atendido, conta um deles. Às vezes, ele trocava o pedido de mesa, admite Maneko, mas esquecer de alguém, nunca.

Passarinho também tinha as suas piadas: alguém pedia mais farinha e ele já soltava: “pode ser em pó?”.

Outro perguntava quais eram os pratos servidos na casa: “ah, são de porcelana”, respondia. Um dia, conta o proprietário, um freguês pediu uma “meinha”, em referência à meia dose de cachaça. Sem pestanejar, Nilson lhe entregou uma meia de criança.

O jeito peculiar rendeu amigos. Até hoje —e durante os dois anos em que ficou afastado do trabalho para tratar do câncer—, os clientes perguntam por ele. Ganhou citações em livros do ex-governador, o arquiteto Jaime Lerner, que também só queria ser atendido por ele, e se orgulhava das reportagens em que foi personagem, algumas enquadradas na parede do bar.

Quando ainda estava em tratamento contra o primeiro câncer, sem aposentadoria, os fregueses organizaram rifas para ajudá-lo. Um chegou a doar 500 reais. Quem ousasse falar mal do garçom era imediatamente repreendido por Maneko ou um de seus vários defensores.

“As pessoas até queriam ficar bravas com ele, mas não conseguiam porque ele tinha uma resposta na ponta da língua, desequilibrava a pessoa. Se duvidar a pessoa saía devendo para ele”, detalha o patrão e amigo enquanto repara nos quadros com os olhos marejados.

Passarinho morreu na quarta-feira (3), vítima de câncer de intestino. Deixa mulher, três filhos, netos, e um silêncio triste na boêmia curitibana.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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