Polícia conclui que americana morreu por causa indeterminada em Paraty; família se diz decepcionada

Delegacia não pediu exames para entorpecentes, diz perita, e testes com vísceras não foram feitos por falta de vidros

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

A polícia concluiu que a americana Danielle Davila, 32, que foi achada nua e sem sinais de agressão no dia 23 de junho, deitada na cama de uma pousada em Paraty, morreu por causa indeterminada e não foi vítima de um crime.

A conclusão se baseou em um exame toxicológico que indicou que a artista teve um mal súbito sem motivo aparente, e que havia uma quantidade pequena de álcool e não havia monóxido de carbono (inalado em fumaças, por exemplo) em seu corpo.

“Pedimos arquivamento até que surjam novas provas. Não há elementos suficientes que apontem indícios de autoria e materialidade contra a vida da Danielle, ao menos pelos depoimentos, exames e provas colhidos até agora. Mas sempre pode chegar alguém na delegacia amanhã e dizer algo”, diz o delegado do caso, Marcello Russo.

A americana Danielle Davila, 32, havia se mudado para Paraty havia um mês para se inspirar e ficar perto da natureza - Facebook

A polícia, porém, não pediu outros tipos de testes para entorpecentes, segundo a perita Gabriela Graça, diretora do IML (Instituto Médico Legal) do Rio de Janeiro. O uso de drogas, como um LSD líquido que ela supostamente fazia para usar em rituais espirituais, era um dos motivos investigados para a morte.

“Não sei quais são os tóxicos que o exame procura. O laudo toxicológico dá indeterminado: não diz que tem nem que não tem [entorpecentes]. Monóxido de carbono não acharam, álcool acharam em pequena quantidade, e as outras drogas deu indeterminado”, diz o delegado.

Também não foram feitos ainda exames nas vísceras, que poderiam confirmar se o óbito ocorreu mesmo por causa natural, porque não havia os potes de vidro necessários no momento do exame necroscópico, segundo o laudo de necrópsia do corpo.

Graça diz que o material agora já está na unidade e será analisado. A perita descarta a possibilidade de um ataque cardíaco, que seria visível, segundo ela.

‘DECEPCIONANTE’, DIZ FAMÍLIA

O relatório do inquérito, entregue na noite desta quarta (10) para avaliação do Ministério Público, frustrou a família de Danielle, que relatou à Folha nesta terça (9) a saga que está vivendo há mais de duas semanas no Brasil para entender o que aconteceu e retirar o corpo para cremação.

“É decepcionante, é como se uma vida não tivesse valor”, diz a modelo Claudia Davila, irmã de Danielle que ainda está no país junto com a mãe —outros familiares tiveram que ir embora para poupar gastos. “Queremos justiça, queremos saber o que aconteceu, não apenas respostas vagas, mas parece impossível.”

Ela encaminhou à reportagem a mensagem de um médico da Flórida para quem mostrou os resultados da toxicologia e de autópsia.

“Algo não bate, porque quando você faz uma autópsia, você não só faz um relatório de toxicologia, mas também tenta muitas outras coisas. [...] Eu estive em centenas de autópsias e não importa quão grande mistério a morte tenha sido, o corpo sempre deixa sinais para trás”, escreveu o médico.

Para evitar mais transtornos, a família decidiu cremar o corpo no Brasil. A cerimônia provavelmente ocorrerá no sábado (13), em São José dos Campos, que tem o crematório mais disponível e próximo de São Paulo, de onde elas embarcarão de volta para os EUA.

“Ou esperamos refazerem os testes, que já deveriam ter sido feitos, e a Dani fica aqui mais 30 a 60 dias, ou paramos de ser torturados pela negligência que ela recebeu e deixamos ela descansar, embora ainda assombrada pelo fato de o Brasil não ter nos dado respostas”, desabafa a irmã.

Só agora, depois que os exames foram concluídos, o delegado poderá assinar um “nada a opor” para a cremação, segundo o advogado da família, Ricardo Tomás de Sampaio. “Antes a família poderia ter retirado o corpo para enterrar no Brasil, mas não para cremar ou transportar para os EUA. É como se o corpo fosse uma prova, você não pode levar ela embora”, explica.

EX-COMPANHEIRO NÃO FOI LOCALIZADO

Ele acredita que a investigação poderia ter ouvido outras pessoas e pedido exames complementares.

“Esse LSD líquido que ela supostamente ingeria, por exemplo, segundo os amigos, para o ritual com cristais, não dá pra saber se ela ingeriu. Amigos acreditam que não, porque ela só fazia isso na natureza, sem usar álcool, e não achamos esse material no quarto dela”, diz.

Uma das pessoas que a polícia não conseguiu localizar foi um ex-companheiro de Danielle, que não atende ligações depois que o corpo foi achado. Ele morava em um trailer e se mudava constantemente, portanto já saiu de Paraty.

No celular da jovem não havia nenhuma mensagem que indicasse briga com ninguém, diz o advogado, mas esse homem que já teria feito rituais junto com ela poderia ter dado mais informações. A irmã, no entanto, insiste que Danielle não usava esse tipo de droga nem fazia rituais.

QUEM ERA DANIELLE E COMO ELA MORREU

Danielle era música e estava em Paraty havia um mês. Ela vinha ao Brasil todo ano para ver o filho que mora em Minas Gerais com o pai, mas dessa vez resolveu estender a viagem para a cidade histórica para continuar perto do menino, se inspirar e ficar próxima à natureza.

Danielle era música e foi a Paraty para se inspirar e ficar perto da natureza - Arquivo pessoal

Nascida em Tampa, na Flórida, ela começou tocando “de ouvido” quando tinha três anos e já compunha aos seis, mesmo sem saber ler ou escrever, segundo a irmã. Aos 15, foi para o Peru estudar música e fotografia. Encontrou em Paraty uma segunda casa, para onde queria levar a mãe.

Na madrugada em que morreu, em 23 de junho, Danielle encontrou amigos e tocou em bares no centro da cidade, famosa pela noite agitada. Voltou para o quarto da pousada em que estava se hospedando de bicicleta, sozinha.

No dia seguinte, um domingo, um funcionário da pousada bateu na porta e estranhou quando ela não atendeu. Ela foi achada nua, usando apenas um colar, deitada de barriga para cima e coberta por um edredom até a altura dos ombros.

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