São Paulo corre para ter córrego do Ipiranga limpo até 2022

Moradias irregulares e esgoto são desafios para melhorar qualidade da água

Fabrício Lobel Marcelo Pliger
São Paulo

Quem passar pelas históricas margens plácidas do córrego do Ipiranga na zona sul de São Paulo em 2019 tem como paisagem um rio fétido, de cor cinza opaca e alta carga de esgoto —semelhante a dos rios Pinheiros e Tietê.

Mas a Sabesp, vinculada ao governo do Estado de São Paulo, promete que até 2022, o córrego deverá ter outra cara: limpo, sem cheiro e com a possibilidade de presença de peixes e plantas aquáticas. A data da promessa foi fixada para que um novo córrego do Ipiranga seja entregue a tempo das comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil. Na mesma época, o governo do Estado promete também entregar o restauro do Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, às margens do córrego.

Para cumprir a meta, a Sabesp terá que acelerar rumo à universalização do saneamento em São Paulo. Hoje, São Paulo São Paulo ainda deixa de coletar 13% de seu esgoto e de tratar 39% de todo o material gerado. Esse residual vai para os rios e represas da Grande São Paulo.

Entre eles, está o Ipiranga, onde falta terminar de conectar os últimos 2% de imóveis que estão em sua área de influência (que inclui o córrego principal e todos os seus pequenos afluentes que também estão poluídos). 

A tarefa no Ipiranga não é simples principalmente porque, grande parte da área onde ainda há trabalho a ser feito, é preciso lidar com a ocupação irregular, moradias construídas sobre córregos ou rios que estão espremidos entre casas. Na prática, são os 2% mais difíceis de todo o projeto.

Um dos casos mais icônicos é o córrego Cacareco, que desemboca no Ipiranga na altura do viaduto Ministro Aleomar Baleeiro, próximo ao Parque do Estado, e contribui para a sua poluição.

O Cacareco deságua no Ipiranga após percorrer pouco menos de 2 km, recebendo o esgoto de 2.260 imóveis. Para revitaliza-lo, grande parte dessas casas, que são de alvenaria e estão ali há anos, teria de ser retirada. A ação exigiria uma política de remoção e de reassentamento da prefeitura, dificultando o projeto.

O que deve ser feito, porém, é a criação de um cano subterrâneo que consiga receber o esgoto de 70% da área —os outros 30% da bacia do córrego Cacareco permanecerão fora de alcance e continuarão chegando ao Ipiranga.

O trajeto desta tubulação tem que ser estudado com cuidado. Justamente por ser área com ocupação irregular, cada metro de terreno por onde o futuro encanamento vai passar tem que ter sua titularidade checada pela Prefeitura de São Paulo. O subterrâneo de ruas é um caminho fácil. Avançar sob casas é uma tarefa mais difícil. 

Quando a obra estiver completa, a Sabesp acredita que com a retirada de 70% do esgoto do Cacareco, já será possível aliviar bastante a condição do Ipiranga. 

Em 2018, no encontro dos dois córregos, o índice de DBO (Demanda biológica de oxigênio, que serve como termômetro de poluição de águas) chegava a 135 mg/L de O2, isso é o dobro do verificado pela Sabesp nos rios Pinheiros e Tietê em dias mais secos, quando a poluição é pior.

Neste ano, a média dessa medição ficou em 35  mg/L de O2. A meta é baixar esse índice para 30 mg/L de O2.

Segundo o consultor em hidrologia Carlos Tucci, a meta de 30 mg/L de O2  não é necessariamente uma água de qualidade, mas é um bom parâmetro para águas de uma cidade  do tamanho de São Paulo. "Dificilmente rios em uma metrópole como São Paulo tem índices muito mais baixos que esse", analisa. 

Conforme o Ipiranga avança pelo bairro, a poluição diminui. Outro ponto de medição da Sabesp fica no cruzamento da avenida Doutor Ricardo Jafet com a rua Dr. Mario Vicente. Ali, em 2018, o córrego esteve metade dos meses dentro da meta. Neste ano, as medições estiveram sempre dentro da meta.

Já no seus últimos metros antes de desaguar no rio Tamanduateí, o Ipiranga passa em frente ao Monumento à Independência. Ali, o índice DBO chegou a ter picos de 65. Neste ano, a pior medição indica a taxa de 20.

A expectativa da Sabesp é de que quando todo o Ipiranga tiver abaixo do índice de 30, além de melhorar a qualidade do seu entorno, passará a levar água mais limpa para o Tamanduateí, onde outras equipes da Sabesp já atuam para tentar diminuir a carga de esgoto. 

Por sua vez, o Tamanduateí mais limpo levará águas de melhor qualidade ao Tietê, cuja despoluição é o objetivo final de um projeto que já consumiu U$ 3 bilhões desde 1992. 

A lógica, portanto, é limpar o principal rio de São Paulo, a partir dos afluentes de seus afluentes, indo da periferia até o Tietê. Córregos como o Pacaembu (centro), Casa Verde 1 e Casa Verde 2 (zona norte), Dois Irmãos, Verde (ambos na zona leste) e Espanhol (zona oeste) passam por processos semelhantes. 

Após a limpeza desses córregos, é preciso ainda garantir que suas encostas não sejam mais uma vez ocupadas irregularmente ou que novos pontos irregulares de descarte de esgoto surjam. A ação exige, portanto, ação conjunta com as prefeituras da região metropolitanas, que cuidam da ocupação do solo. 

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