Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Atirador seguiu procedimento padrão e evitou mal maior, diz ex-capitão do Bope sobre sequestro no Rio

Especialista em Segurança Pública analisa que perfil do sequestrador pode ter determinado ordem para disparos

Thaiza Pauluze
São Paulo

A ação do atirador de elite da Polícia Militar, que disparou e matou o homem que sequestrava um ônibus na ponte Rio-Niterói, foi um procedimento tático adequado à situação, diz Paulo Storani, ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais), especialista em segurança pública.

O sequestrador, identificado como Willian Augusto da Silva, 20, manteve o motorista e 38 passageiros do veículo como reféns por quase quatro horas. O sequestro começou por volta das 5h30 desta terça-feira (20).

Storani explica que há uma escala de alternativas táticas em casos do tipo. A primeira e principal aposta é a negociação, que neste caso foi encabeçada por policiais rodoviários e do Bope.

Ao longo de três horas, o sequestrador trocou mantimentos pela liberação de seis reféns: quatro homens e duas mulheres. 

Quando a negociação parece não estar levando ao desfecho do sequestro, a segunda opção é a utilização de armamento não letal (que não foi feita) e a terceira é o apelo ao sniper. Essas duas alternativas levam a quarta, que é uma intervenção tática.

Quem dá o sinal verde para que o atirador de elite dispare é o comandante do Bope, que assumiu o papel de gerente da crise. "A partir daí o policial espera o momento que vai gerar o menor risco para os reféns", diz o especialista.

Segundo Storani, a decisão não passa pelo governador. "Houve más experiências ocorridas no passado, com intervenções de políticos neutralizando medidas técnicas. Hoje, a corporação se blinda e resiste a tais pressões", explica. 

O caso em questão é o sequestro do ônibus 174, no Jardim Botânico, zona sul do Rio, em 2000. Dez reféns ficaram em poder de Sandro Barbosa do Nascimento, 21, por mais de quatro horas. Ele poderia ter sido morto por um sniper quando colocou a cabeça para fora do veículo, mas não houve autorização.

O desfecho foi trágico. Quando estava prestes a se render, já fora do veículo, Sandro viu um soldado da PM se aproximar e disparar. Ele então deu três tiros e matou a refém Geísa Gonçalves, 20. Capturado ileso, o sequestrador foi asfixiado e morto por PMs.

À época, o governador era Anthony Garotinho (então no PDT). Ele ficou todo o tempo em conexão direta com o secretário de Segurança Pública, que mantinha contato com o comandante do Bope, responsável pela operação. Garotinho chegou a se intrometer na negociação, sugerindo até jogar gás do sono dentro do coletivo.

O porta-voz da PM, coronel Mauro Fliess, rechaçou a hipótese de interferência do governo do estado nesta terça-feira. Ele disse que o gerente da crise teve independência para atuar e que todos os protocolos foram seguidos. A negociação foi difícil, segundo ele, porque o sequestrador ameaçava incendiar o ônibus. 

De acordo com Storani, o perfil do sequestrador é o que determina a ordem para disparos. Essa avaliação é feita a partir de perguntas durante a negociação, das atitudes do criminoso e de informações coletadas com os reféns liberados. 

Após horas de cerco, por volta de 9h, o atirador de elite em cima de um caminhão disparou e fez um sinal de positivo, no momento em que o sequestrador sai do ônibus para se livrar de um objeto. A corporação não confirmou quantos disparos foram feitos. Ele chegou a ser levado para o hospital, mas morreu. Os policiais comemoraram e rezaram um Pai-Nosso após o desfecho.

 

A pistola que Willian usou no sequestro, segundo a polícia, era de brinquedo, mas ele também tinha uma faca, um taser (arma que dá choques elétricos), um galão de gasolina que ameaçou usar para atear fogo no veículo e chegou a jogar um coquetel molotov na direção dos agentes.

Ainda de acordo com a polícia, o sequestrador tinha um perfil psicótico.

Toda negociação tem limite, afirma o ex-comandante do Gate, (Grupo de Ações Táticas Especiais da PM de SP), Diógenes Viegas Dalle Lucca. "Quando o criminoso começa a maltratar reféns, ter atitudes violentas, é preciso adotar atitude mais enérgica. Ali o sujeito estava descontrolado, tinha prendido com braçadeiras algumas pessoas. Se ele provoca um incêndio, viraria uma tragédia."

Em geral, afirma o tenente-coronel Lucca, o sniper faz apenas um disparo, certeiro. "Mas às vezes não tem ângulo e ele precisa atirar até eliminar a agressão", diz. 

Para Storani, uma operação concluída com sucesso é "quando todos são salvos, sem nenhum ferido". Mas, se não for possível, a prioridade é resgatar os reféns. A vida do sequestrador é considerada um "efeito colateral". 

"O procedimento técnico evitou um mal maior. Foi preciso tirar uma vida para salvar mais de 30 passageiros", diz ele. "A missão foi cumprida: salvar os reféns."

Ações deste tipo são previstas no Código Penal, como legítima defesa de terceiros. "É excludente de ilicitude, por estrito cumprimento do dever legal e legítima defesa de terceiros. A polícia tem obrigação de exercer a força letal em nome do Estado", diz Lucca, que também é membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Ainda sim, um inquérito deve ser aberto e os três principais envolvidos na ação devem ser ouvidos — o negociador, o comandante da operação e o atirador de elite. O Bope também deve entregar à Polícia Civil um relatório sobre a negociação. O processo ainda terá perícia técnica, exame cadavérico do sequestrador e depoimento dos sequestrados. Caberá ao Ministério Público decidir se irá fazer denúncia ou não.

GOVERNADOR COMEMORA

Logo após a execução de Willian, o governador Wilson Witzel (PSC) chegou ao local da ocorrência de helicóptero e celebrou o desfecho. Ele determinou a promoção dos policiais envolvidos na ação, cujos nomes foram omitidos para evitar retaliações.

Com discurso de incentivo ao abate de criminosos, o governador afirmou que pretende consultar o STF (Supremo Tribunal Federal) sobre em que possibilidades os policiais podem matar suspeitos de cometer um crime e comparou a ação contra o sequestrador às operações realizadas em favelas

“Se não tivesse sido abatido esse criminoso, muitas vidas não teriam sido poupadas. Se a polícia puder fazer o trabalho dela e abater quem está de fuzil tantas outras vidas vão ser poupadas”, disse.

Pablo Nunes, coordenador da Rede de Observatórios de Segurança Pública do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, no Rio, elogia a ação da polícia que "evitou uma tragédia maior", mas lamenta a cena de comemoração protagonizada por Witzel.

"O caso era muito grave, com alto potencial letal, e o governador aparece como se estivesse comemorando um gol. Não cabe a um chefe de Estado uma atitude dessas", afirmou. "Em oito meses, esse governo se notabiliza pela contagem de cadáveres e uma política de segurança que comemora mortes."

Em entrevista coletiva, Witzel negou que tenha comemorado a morte do sequestrador. Ele declarou que celebrou a vida dos reféns salvos.

Até a conclusão desta reportagem, a polícia dizia não saber as motivações que levaram o Willian a sequestrar o ônibus.

VIAÇÃO GALO BRANCO E SNIPERS

O ônibus da viação Galo Branco, sequestrado nesta manhã, não foi o primeiro a ser interceptado por um criminoso na história da companhia.

Segundo reportagem da Folha, de 1996, um coletivo da companhia caiu na altura do Vão Central da Ponte Rio-Niterói, na noite de uma sexta-feira, dia 4 de agosto, após sofrer uma perseguição policial. O coletivo havia sido roubado em São Gonçalo — a 20 km do Rio — e era dirigido por um criminoso.

Houve troca de tiros e o bandido perdeu o controle do veículo, bateu na mureta e despencou de uma altura de 72 metros. Com o impacto, cerca de 20 metros da mureta de proteção da ponte foram destruídos.

Mergulhadores do Grupamento Marítimo fizeram buscas na água em busca do ônibus e do corpo dos assaltantes, que nunca foram encontrados. Os socorristas chegaram a resgatar o corpo de um homem branco, de cerca de 24 anos, próximo ao local do acidente.

Essa também não foi a primeira vez que um sniper encerrou uma ação de sequestro com reféns no Rio. Em 2009, em Vila Isabel, um major da PM baleou Sérgio Ferreira Pinto Junior, 24, libertando a comerciante Ana Cristina Garrido, 42.

Sérgio havia rendido o motorista de uma kombi dos Correios por volta das 9h30 de uma sexta-feira, no dia 25 de setembro. Foi descoberto por policiais e na fuga, invadiu uma farmácia com uma granada nas mãos. Ana Cristina, que trabalhava no local, foi feita refém. Ela passou mal e quase desmaiou algumas vezes.

A polícia cercou a farmácia e começou as negociações. Muito nervoso, Sérgio tirou o pino da granada e ameaçava explodir todo mundo. Às 10h40, a comerciante novamente quase desmaiou e se abaixou. Neste momento, o PM executou o que chamou de "tiro certeiro". 

O sequestrador está em liberdade há 5 meses.


PASSO A PASSO DO SEQUESTRO

5h26
Willian Augusto Silva sequestra ônibus na ponte Rio-Niterói com 39 pessoas e obriga motorista a deixar o veículo atravessado sobre a pista

6h11
Sequestrador obriga uma das vítimas a entregar um celular para manter comunicação com os policiais durante a negociação

6h20
Primeiro refém é libertado

6h38
Segundo refém é liberado pelo sequestrador

7h
Terceiro refém deixa o ônibus

7h21
Quarto refém é libertado

7h58
Quinto refém deixa o ônibus

8h14
Sexta passageira é libertada, sai do ônibus, passa mal e cai nos braços de policiais

9h02
Tiros são disparados na ponte Rio-Niterói por snipers da PM

9h04
PM confirma que sequestrador é atingido por disparos

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