Após acidente e divórcio, caminhoneiro vira pai solo de filhas e neto

Seu José ficou paraplégico em acidente e também viu a mulher sair de casa

Ricardo Kotscho
São Paulo

O caminhoneiro José Luiz Oliveira não queria viajar naquela noite para Belo Horizonte, como fazia todos os dias. Com a mãe internada no hospital, preferia ficar perto da família. Mas, às 20h, pegou a estrada na viagem que mudaria sua vida. Havia urgência na entrega de rodas para a fábrica da Fiat em Betim (MG). 

Entre Oliveira e Carmópolis de Minas, “cansado e com a bexiga apertando”, parou no acostamento da rodovia Fernão Dias. Ao voltar para a cabine, outro caminhão bateu na traseira do seu Mercedão e o arrastou por mais de cem metros.

José Luiz Oliveira, 55, com uma das filhas e os netos; após o acidente, ele se aproximou mais da família
José Luiz Oliveira, 55, com uma das filhas e os netos; após o acidente, ele se aproximou mais da família -  Jorge Araujo/Folhapress

Com fraturas no joelho, na coluna e na bacia, foi levado para o Hospital João 23, em Belo Horizonte, e saiu de lá dirigindo uma cadeira de rodas. Oliveira ficou paraplégico. Corria o ano de 1998. Hoje, aos 55 anos, relembra com detalhes o acidente.

Com bom humor, relata a saga que enfrentou depois, quando passou a criar sozinho duas filhas e, mais tarde, do neto Arthur Henrique, 7, que não larga dele. 

Assim como o pai, também caminhoneiro, Oliveira pouco via a família, passava os dias viajando. Marta, a mulher, trabalhava como doméstica e só depois do acidente ele passou a conviver de fato com as filhas, Isadora e Isabela. 

A Justiça condenou o causador do acidente a pagar indenização de R$ 500 mil a Oliveira —dinheiro que não recebeu até hoje. “O sujeito era pobre como eu, não tinha dinheiro para me pagar. Fazer o que?”
Para receber o benefício do INSS a que teria direito, o caminhoneiro também teve que entrar na Justiça, que levou sete anos para lhe pagar o primeiro salário mínimo.


3,6%
é o percentual de famílias brasileiras em que os pais criam os filhos sozinhos

26,8%
é o percentual de famílias que contam apenas com a mãe

Fonte: IBGE (2015 - dado mais recente)


Na mesma época, em 2012, a mulher resolveu sair de casa. “Não estava mais dando certo mesmo. De primeiro, eu não parava em casa, viajava todo dia. Depois que aconteceu o acidente, ela passou a sustentar a casa sozinha.”

Isadora tinha 10 anos, e Isabela, 12, quando a mãe foi embora. Mas elas decidiram ficar com o pai. “Só passei a aproveitar a vida com as crianças depois do acidente, porque antes passava a semana inteira fora de casa.”

No mesmo ano, sofreu um infarto e prometeu às filhas que pararia de fumar. Oliveira fumava quatro maços de cigarros por dia nos tempos de caminhoneiro, “para espantar o sono”. “Saía mais fumaça da cabine do que do escapamento.”

Sem condições para pagar fisioterapia, foi tratado de graça pela doutora Justina Izzo, que o encaminhou para a Rede de Reabilitação Lucy Montoro, em São Paulo, para onde vinha uma vez por semana. Lá, fez vários cursos, de informática a empreendedorismo, mas se especializou em cartonagem. Virou mestre no ofício. As filhas o ajudam a divulgar o trabalho, e recebem encomendas de blocos de papel e caixas de cartolina.

Mas ele não vive disso. A casa onde mora, em Bragança Paulista (a 80 km de São Paulo), com a filha mais velha, o genro e três dos netos, virou ponto de referência da vizinhança, principalmente aos domingos, quando Oliveira gosta de assar costela na brasa como na época em que vivia na estrada.

Até a ex-mulher Marta voltou a frequentar a casa com seu atual companheiro, que ele chama de “meu sócio”. A vida começou a melhorar quando José Carlos, um dos seus dois irmãos, precisou de alguém para ajudar a cuidar do depósito de adubos e a informatizar a operação, algo que tinha aprendido nos cursos.

“Levo a vida assim, meio no tapa, sem me preocupar muito. Se ficasse em casa chorando as mágoas, quem ia pagar minhas contas?”

Com um bebê no colo, Isadora ri das histórias que Oliveira conta e diz que não sabe o que vai dar de presente para ele no Dia dos Pais. “Eu sei, é um jogo de ferramentas...”, diz o neto Arthur, que chama o avô de pai e dorme com ele na cama até hoje. 

A filha só não admite que o pai se case de novo, e ele se conforma. “Eu agora arrumei um homem na minha vida”, brinca, apontando para o neto, que também quer ser caminhoneiro. “O óleo diesel corre nas veias da minha família.”

Erramos: o texto foi alterado

A cidade mineira perto da qual o caminhoneiro José Luiz Oliveira sofreu um acidente se chama Carmópolis de Minas, não Cosmópolis. O texto foi corrigido.

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