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'Aquilo não é humano', diz padre que foi preso em penitenciária de Altamira

Sucessor da missionária Dorothy Stang relata calor e fome no cárcere em que 58 foram mortos

Fabiano Maisonnave Danilo Verpa
Altamira (PA)

Preso em março do ano passado, o padre José Amaro Lopes de Sousa, 52, passou 92 dias no Centro de Recuperação Regional de Altamira, palco do massacre que deixou 58 presos mortos, na última segunda-feira (29).

Sucessor do trabalho da missionária Dorothy Stang, assassinada na vizinha Anapu (PA), em 2005, ele é acusado por fazendeiros de crimes como extorsão, em processo criticado pela Igreja Católica e por entidades de direitos humanos. Em junho do ano passado, o religioso foi solto após um habeas corpus dado por unanimidade pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O padre José Amaro Lopes de Sousa, que ficou preso durante três meses no presídio de Altamira - Danilo Verpa/Folhapress

Neste depoimento à Folha, padre Amaro relata que os presos passam fome e que chegou a ser vizinho de cela do fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, condenado a 25 anos pela morte da irmã Dorothy.

Cheguei no dia 27 de março. Estava com uma sandália Crocs, eles me mandaram ficar descalço, tiraram o relógio, tentaram tirar a pulseira do Flamengo, mas não saiu. E deixaram passar a bolsinha de livros que eu tinha.

A sandália ficou fora, depois que eles entregaram. Poucos dias mais tarde, entrou um senhor preso, e ele veio de sapato. Foram duas medidas diferentes para a mesma situação.

Eles me colocaram em uma cela pequena para pessoas de curso superior, 4 metros por 4 metros. É para apenas uma pessoa, mas, quando cheguei, éramos quatro. Todos éramos presos provisórios. Fui bem acolhido por eles, pelos agentes e pelo próprio diretor.

Um não tinha curso superior. Ele estava com a perna cortada, e os presos queriam pegá-lo lá dentro. Esse senhor, o Elielson, foi morto durante a rebelião em setembro do ano passado, quando eu já não estava mais lá. Nessa rebelião, outro preso estava na mesma cela onde fiquei quando foi morto. Foram ao todo sete mortos.

Tinha um banheirinho sem lâmpada. Depois de um mês, conseguimos arrumar. Lá nunca tem nada, a família que tem de levar. Eles me deram um colchonete fininho, um saquinho com uma barra de sabão, uma pasta e uma escova. Depois deixaram entrar a minha rede, porque eu não durmo de cama. E tinha uma televisão de um rapaz que ficou preso lá.

Não tinha assento. Aí arrumei um balde de margarina, desses grandes, onde eu colocava as minhas roupas dentro. O balde servia de mesa, cadeira. Tinha uma pia no banheiro, onde a gente lavava as louças. Na tampa do vaso, a gente colocava um pano e depois enxugava.

Eu me sentia muito inseguro ali dentro. As grades estão um pouco enferrujadas. Lá na cela onde eu estava, era o acesso à cantina para os anexos A e B. Todos os presos passam ali na frente, para fazer a triagem.

Havia uma enfermaria do lado. Depois, para minha surpresa, tiraram a enfermeira e colocaram o Regivaldo, o Taradão. Ele me dava bom dia, boa tarde e me disse três vezes que ele e eu éramos inocentes e que isso era uma armação que fizeram comigo. Deu feliz Páscoa, fez a política das boas maneiras. Só isso. Não desenvolvi a conversa, não.

Ele não me ameaçou, mas só por estar ali dentro era uma ameaça. Não tem porta, só grade. Alguém com um objeto pontiagudo acertaria quem estava lá dentro. Procurava não ficar muito perto da porta.

Para a alimentação, a gente recebia um pão, um café e um copo de leite. No almoço, tinha um pacote de farinha, galinha assada ou carne. Repetiam na janta. As minhas irmãs mandavam comida, fruta.

Mas tinha limite, só podia entrar três maçãs, por exemplo. Sem ajuda, não dá pra comer dignamente. Você recebe almoço ao meio-dia e a próxima refeição só chega seis horas depois.

No dia de domingo, eles só servem café e almoço, não tem janta. Quem não tinha visita, ficava sem comida. Muitos pediam comida tarde da noite, aquilo não é humano. A gente juntava e dava pro carcereiro distribuir. Pão, bolacha. Às vezes, a gente entregava até sanduíches. Mas era pouco pra quantidade de presos que tinha.

Era quente demais. Tinha um ventilador ligado direto. A parede esquentava. Camisa, nem pensar, só short mesmo. Você sai do chuveiro e já está quente.

Tem um sistema de celas de container lá, um absurdo. Eram ao menos três. Os agentes entravam lá rapidinho pra fazer a tranca e saíam pingando de suor. É só uma janelinha.

Quando os presos que ficam ali passavam perto de mim, eles fediam a couro velho. A aparência era diferente. Muito pra baixo mesmo. Largado. A cor da pele fica amarela lá dentro, mas a dos presos dos contêineres era ainda mais amarela.

Um dia, o rapaz estava deitado no beliche e alguma coisa caiu na perna dele. Ele pensou que era o fio da antena, mas, quando olhou, era uma cobra jararaca. Ele deu um grito, pulou. A gente chamou o carcereiro, e ele matou.

Eu não presenciei violência. Mas uma noite chegou um jovem na enfermaria que havia sido furado no lado, na costela. Fizeram os procedimentos. Perfuraram o intestino dele, mas, graças a Deus, não morreu.

Os presos se dividem por facção. Eu não entendia como funcionava, mas tinha rivalidade. Às vezes, um bloco ficava insultando o outro. Tem um linguajar que eles usam, mas eu não entendo. Eles se comunicam também com gestos de mão, tem um do Comando Vermelho e outro do Comando Classe A. As tatuagens também mostram qual é a facção.

O que a cadeia oferece é sair mais revoltado. Ali não ressocializa ninguém. A Igreja Católica e os evangélicos vão lá, as pessoas são bem receptivas para falar de Deus, mas não é tudo. Até mesmo porque muitas pessoas que deveriam estar fora continuam ali. A Defensoria Pública tem só uma pessoa para atender a todos.

Há pouca assistência. Um médico para atender a todas aquelas pessoas. No dia em que um dentista ia, era só extrair os dentes das pessoas. Tinha como fazer tratamento dos dentes, mas eles iam mesmo pra extrair.

Não tem reabilitação e trabalho. Só a questão de limpeza. Tem muitos artesãos, se tivesse um espaço, eles estariam ocupando a mente com alguma coisa. A escola não está funcionando. Eu me ofereci para ensinar ao menos o nome, a maioria é analfabeta, pobre, a ponto de a família não ter nem condição de ir até lá fazer uma visita.

Mas nunca me senti preso. Na minha consciência, era como se estivesse viajando. Eu sentia falta da paróquia, do trabalho lá, da minha família. Em 21 anos como padre, meu trabalho sempre foi no meio do povo.

Li a vida e a obra de Nelson Mandela e as cartas de São Paulo quando ele foi preso. Comparando com o que eles e o Gandhi passaram na cadeia, eu não estava nem perto disso.

Só tinha uma coisa animada, a celebração da missa. Um gesto que me marcou muito foi quando o padre Patricio [da Pastoral Carcerária] chegou com o material da missa e disse que quem ia celebrar era eu. Eu não estava me achando digno de celebrar. Aí disse que queria confessar. Entramos no banheiro, confessei com ele. Uma das maiores alegrias era celebrar a missa.

Sentia muita força, presença das comunidades, da Pastoral Afro, do grupo de candomblé, dos movimentos de mulheres, LGBT, todo mundo correu pra cima, porque acolho todos. O trabalho que a CPT (Comissão Pastoral da Terra) faz é ecumênico. E também a minha família. Não fiquei abandonado em momento algum. Eu me senti muito acolhido.

 

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