Bonecas dão lugar a vibradores em oficina de reparos em Osasco

Autodidata em eletroeletrônica, Bartolomeu de Alencar conserta aparelhos desde 2004 e vê demanda aumentar

Alencar trabalha na oficina em Osasco; vibradores são 20% da demanda

Alencar trabalha na oficina em Osasco; vibradores são 20% da demanda Karime Xavier/Folhapress

Dhiego Maia
São Paulo

Bartolomeu Queiroz de Alencar, autodidata em eletroeletrônica, sabe se vender. “Podem procurar, mas no Brasil só eu conserto ‘paus’.” 

Aos 58, o dr. House de Osasco (SP) não está em nenhuma sala de cirurgia. Bem mais simpático que o protagonista da série de TV que desvendava doenças mirabolantes, ele corre no seu pronto-socorro para trazer à vida bonecas, carrinhos e… Vibradores.

Faz 15 anos que o hospital dos brinquedos de Bartô, como ele é chamado, presta assistência técnica aos produtos eróticos. As bonecas, desde as que choram, engatinham e pedem comida, continuam no topo dos reparos. Mas os vibradores, diz, já representam 20% dos atendimentos.

Bartô conta que entrou no ramo por acaso. “Em 2003, um casal apareceu na minha loja perguntando se eu também consertava brinquedos de adulto. Disse que trabalhava com brinquedos e eles tiraram da bolsa um vibrador. Fiz cara de paisagem”, lembra.

Para não deixar o casal na mão, Bartô topou o desafio. Dissecou o vibrador e percebeu que toda a engrenagem que o faz funcionar é a mesma que move as bonecas. “É um brinquedo normal, só que sem braços e pernas”, ri.

Após devolver o vibrador funcionando ao casal, o empresário vislumbrou um filão. “Se vibradores estragam, precisam de conserto. E quem vai fazer isso?”, pergunta. 

Ofereceu o serviço por email, primeiro, a um sex shop de São Paulo em meados de 2004. Voltou de lá com mil vibradores com defeito. “Propus consertar metade deles. A outra parte serviu para abastecer a oficina com peças”, diz.

Bartô virou especialista. Seu nome correu casas de suingue, sadomasoquismo e sex shops. A fama de mecânico de vibrador o levou aos sofás de Jô Soares, Danilo Gentili, Otávio Mesquita e ao “Amor & Sexo”, de Fernanda Lima.

As entrevistas na TV aumentaram a demanda. Bartô diz que precisou rejeitar os pedidos encaminhados pelas empresas do ramo de produtos eróticos por falta de estrutura.

“Somos apenas eu e dois funcionários em Osasco.” Hoje, prefere atender diretamente os clientes que o procuram. “Mas o papo com o cliente é sério. Nada de intimidade.”

Nos últimos 15 anos, diz que viu crescer o número de mulheres que o procuram para consertar os seus “maridos e namorados”, apelidos que dão aos aparelhos eróticos.


“Elas brincam: já pôs meu marido de pé?”. Mas ele vê na maior demanda feminina sinal de libertação. “A mulherada está mais solta. Que bom!”.

Casais e gays completam a lista de 25 mil clientes —inclui quem busca reparos de brinquedos infantis. Quem não consegue ir ao hospital de Bartô, por distância ou vergonha, usa os Correios.

Toda semana, o carteiro desembarca ao menos 20 vibradores quebrados no número 1.304 da rua Deputado Emílio Carlos. Sobressaem os pedidos de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná. Mas também há encomendas de regiões tão longínquas como Araguaína (TO).

A higienização do equipamento antes do manuseio é fundamental. “Por sorte nunca tive situação desagradável.”

O conserto custa sempre 30% do valor original do vibrador. Bartô dá garantia de 90 dias e busca agilizar a devolução do aparelho. “É muita pressão. Quando fechamos o preço, o cliente já deposita no dia”. Com as bonecas, é diferente. “Tá vendo essa prateleira aqui cheia de brinquedos? As mães não vieram buscar”.

Ele não se esquece de uma entrega pelos Correios. “O cliente, homem, errou o endereço e o vibrador foi para a casa da noiva. Ela não sabia que o cara usava o equipamento. Achou que era brincadeira.”

Bartô já consertou de tudo: vibrador com giro em 360º, com ranhuras, luzes e até com câmera na ponta. “Os mais chiques têm um design que os deixa camuflados.”

Mas por que tanta gente busca o conserto de um vibrador?, pergunta a reportagem. “É o costume, o encaixe. Quando o cliente acha o vibrador perfeito, não quer jamais se desfazer dele. É comum eu arrumar o mesmo aparelho duas, três vezes.”

Bartô é casado e tem um casal de filhos. Quando disse à família que teria um “hospital de vibradores”, sentiu estranhezas. “Hoje sou motivo de piada”. Ele é expert em sair pela tangente quando ouve “Como você testa o vibrador pós-conserto?”. A resposta é padrão: “uso pilha”.

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