Dois bebês morrem por complicações de sarampo no estado de SP

Vítimas moravam em Osasco e na capital paulista; estado acumula 2.457 casos confirmados da doença

Natália Cancian
Brasília

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo confirmou nesta sexta-feira (30) duas novas mortes por sarampo. As vítimas são dois bebês: uma menina de quatro meses, de Osasco, e um menino de nove meses, que morava na capital paulista.

Com a confirmação, já são três mortes por sarampo neste ano. O primeiro óbito foi confirmado na quarta-feira (28). O paciente era um homem de 42 anos, sem histórico de vacinação e que havia passado por uma cirurgia para retirada do baço, órgão que faz parte do sistema linfático e ajuda na defesa do organismo.

As novas mortes foram registradas nos dias 2 e 6 de agosto, mas ainda estavam sob investigação. Em ambos os casos, os bebês começaram a apresentar sintomas de sarampo ainda no mês de julho e desenvolveram quadro de pneumonia, uma das complicações vinculados à doença.

Atualmente, a faixa etária de menores de um ano corresponde ao grupo mais vulnerável ao sarampo.

A situação levou o Ministério da Saúde a passar a recomendar, desde a última semana, uma dose extra para bebês a partir de seis meses. O objetivo é garantir que haja uma proteção para esse grupo, que não faz parte da faixa etária a quem a vacina contra o sarampo é indicada no calendário nacional de vacinação.

Chamada de dose zero, a vacinação não exclui a necessidade de receber as demais doses, aplicadas aos 12 meses, por meio da tríplice viral, e aos 15 meses, por meio da tetraviral ou vacina tríplice viral associada à varicela.

A eficácia da vacina é maior conforme para aqueles com esquema vacinal completo. Segundo a diretora-técnica da divisão de imunizações da secretaria de estado de São Paulo, Helena Sato, bebês são considerados mais suscetíveis a complicações que, embora não sejam frequentes, podem estar relacionadas ao sarampo. Além da pneumonia, outra complicação possível, mas considerada mais rara, é a encefalite, um tipo de inflamação no cérebro.

Ela reforça a necessidade de aderir à dose extra indicada para proteção dessa faixa etária. “É fundamental que as crianças a partir dos seis meses já tomem a vacina contra o sarampo. Também é importante que essas crianças retornem ao posto de vacinação com um ano e ao completar um ano e três meses para garantir a proteção”, afirma.

De acordo com Sato, a recomendação para pais de crianças com idade inferior a seis meses é evitar exposição a aglomerações, manter higienização adequada e ventilação de ambientes. Em caso de qualquer sintoma da doença, como manchas vermelhas pelo corpo, febre, coriza, conjuntivite e manchas brancas na mucosa bucal, a recomendação é procurar serviços de saúde imediatamente. Somente esses locais podem avaliar e dar as recomendações necessárias.

Atualmente, o estado de São Paulo já soma 2.457 casos confirmados de sarampo desde janeiro deste ano. Destes, 1.637 se concentram na capital, ou 66,6%. Segundo a secretaria de saúde, esses são os primeiros registros de mortes por sarampo desde 1997, ano que houve 23 mortes pela doença.

CENÁRIO NO PAÍS

Representantes do Ministério da Saúde dizem avaliar a situação na capital paulista e região metropolitana como de emergência local em saúde pública. Já nos demais estados, a principal preocupação é a baixa cobertura vacinal.

Dados de boletim epidemiológico da pasta divulgado na quarta (28) apontam que São Paulo responde pela maioria dos casos de sarampo já confirmados. Outros 12 estados apresentam surto ativo da doença —quando há registro de casos nos últimos 90 dias. 

Nesse período, foram registrados 2.331 casos no país. Destes, 2.299 ocorreram em São Paulo, 12 no Rio de Janeiro, cinco em Pernambuco, quatro em Santa Catarina e três no Distrito Federal. Os estados de Goiás, Paraná, Maranhão, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Bahia, Sergipe e Piauí têm um registro cada. Os casos foram registrados entre 2 de junho e 24 de agosto deste ano. 

Apesar do alerta, o ministério diz avaliar que a análise do cenário atual aponta para uma tendência de estabilização do surto no país. Segundo o secretário de vigilância em saúde da pasta, Wanderson Oliveira, isso ocorre devido ao avanço das estratégias de vacinação para conter a doença e o retorno do calor.

"Estamos entrando em um período mais quente, em que as pessoas tendem a ficar com as casas mais abertas e mais ventiladas. O sarampo é uma doença respiratória e ambientes fechados aumentam a chance de transmissão", afirma.

O número de registros, no entanto, ainda deve crescer, já que é alto o número de casos ainda em investigação. O último boletim, por exemplo, aponta 10.855 casos suspeitos. Em média, 26% dos casos suspeitos têm sido confirmados, informa o ministério. 

Após ter sido considerado eliminado no país, o sarampo voltou a registrar casos no país em 2018, inicialmente nos estados de Roraima e Amazonas. O impulso para o retorno da doença foi a entrada de casos importados e a baixa cobertura vacinal no Brasil.

A situação fez o país perder o certificado de país livre da doença, o qual havia sido entregue pela Opas (Organização Pan-americana de Saúde) em 2016. Nos últimos anos, surtos da doença têm ocorrido em outros países, o que eleva o alerta também no Brasil. Na Europa, por exemplo, são 49 países afetados. 


TIRE SUAS DÚVIDAS SOBRE O SARAMPO

A Folha elencou as principais dúvidas sobre o sarampo e a respeito da campanha de vacinação realizada em são Paulo.

O que é sarampo? É uma doença infecciosa aguda transmitida por um vírus, caracterizada por manchas na pele. A doença estava erradicada no Brasil, mas voltou. Uma das razões é a baixa cobertura vacinal, ou seja, as pessoas deixaram de se vacinar.

Como é transmitido? A transmissão acontece pela saliva, carregada pelo ar (quando a pessoa tosse, fala ou espirra). Ou seja, é altamente contagiosa.

Quais os sintomas? Febre alta (acima de 38,5°C), manchas vermelhas na cabeça e no corpo, tosse, dor de cabeça, coriza e conjuntivite.

Sarampo pode matar? Sim. É uma doença que traz complicações graves, inclusive neurológicas, e pode levar à morte. Também pode deixar sequelas como a surdez.

Como é o tratamento? O doente é isolado e apenas os sintomas são tratados. Por isso, a vacinação é a ferramenta mais eficaz no combate à doença.

O que fazer em caso de suspeita? Encaminhar o paciente a um serviço de saúde, que por sua vez notificará a vigilância epidemiológica para que esta vacine quem teve contato com o doente.

Quem deve se vacinar? Bebês de 6 meses a 11 meses e 29 dias devem tomar a dose da campanha e as duas do calendário nacional de imunização, aos 12 meses e 15 meses; crianças e jovens de até 29 anos precisam ter tomado duas doses da vacina —quem tem de 30 a 59 anos, apenas uma dose. A maioria das pessoas com mais de 60 anos não precisa da vacina, pois já teve contato com o vírus. Na dúvida sobre ter ou não tomado a vacina na infância, é melhor tomá-la agora. Não é preciso levar a carteirinha de vacinação.

Em ações de bloqueio, quando identificado caso suspeito da doença, todos devem tomar a vacina, que é uma imunização pontual.

Onde é feita a vacinação? Em postos de saúde e, durante a campanha, em pontos anunciados pelo governo, como estações do metrô.

Quais as reações à vacina? Febre e dor no local da injeção, com possível inchaço. Não há reações neurológicas. A vacina NÃO causa autismo.

Quem não pode se vacinar? Gestantes, transplantados, quem faz quimioterapia e radioterapia, ou usa corticoides ou tem HIV com CD4 menor que 200. Alérgicos a ovo e lactantes podem tomar a vacina.

Por quanto tempo a vacina vale? Para quem completou as duas doses (ou uma dose até 1989), vale pela vida toda.

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