Apoiada por nora de Bolsonaro, chapa de 'cura gay' é derrotada em conselho de psicologia

Rozangela Justino é conhecida por defender uma terapia que promete reverter orientação

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

"Cura gay", Venezuela, LGBTIfobia, Jair Bolsonaro. Tópicos comuns no campo de batalha ideológico das redes sociais chegaram à escolha dos novos dirigentes do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

O voto online de 101 mil dos 350 mil profissionais do ramo elegeu na terça-feira (27) a turma que comandará por três anos, a partir de dezembro, a entidade. Das cinco concorrentes, venceu a chapa 21, continuidade da atual direção. 

A novidade do ano, apesar do posto de lanterninha, fez mais barulho do que qualquer uma. Trouxe na liderança Rozangela Justino, conhecida por defender uma terapia que promete reverter a orientação sexual de pacientes homossexuais, apelidada de "cura gay". Ela encabeçou a chapa 24.

A psicóloga Rozangela Justino em sessão na Câmara dos Deputados
A psicóloga Rozangela Justino, derrotada em eleição ao conselho da categoria - Anna Virginia Balloussier - 5.abr.2017/Folhapress

Com a votação já em curso, Rozangela e seus aliados festejaram o apoio de Heloísa Bolsonaro, psicóloga que se apresenta como "coach de potencialização de qualidade de vida". A esposa do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) foi ao Instagram pedir: "Partiu votar na chapa 24". 

Não foi dessa vez. Conseguiram 5.458 endossos, 12% da votação alcançada pelo núcleo vitorioso, sob comando de Ana Sandra Nóbrega.

Rozangela é assessora parlamentar do deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), ligado ao pastor Silas Malafaia, e é vista nos cultos de quarta-feira da bancada evangélica no Congresso. Esse foi um dos traços de sua biografia levantado num debate que reuniu os cinco candidatos a presidente do CFP no último dia 21.

Quem a questionou foi justamente Ana Sandra, que perguntou por que a 24 acusa o atual conselho de ter uma "ideologia de esquerda" se ela é a primeira a não esconder seu apreço por pautas políticas, sobretudo as bolsonaristas.

Rozangela disse que respalda mesmo Jair Bolsonaro, "porque o povo brasileiro estava cansado da política de corrupção", mas que não era filiada a partido algum. 

Já a direção que tem o CFP sob guarda hoje não pode dizer o mesmo, segundo Rozangela. Ela afirmou em entrevista à TV Gênesis, sem detalhar a acusação, que o PT puxa as cordas no conselho. 

O presidente do conselho, Rogério Giannini, confirma à Folha que se filiou ao partido de Lula nos anos 1980, mas diz que "não há possibilidade de ingerência partidária" no CFP, até porque ele é composto por 22 membros, com gostos partidários distintos.

"A acusação soa bastante estranha", segundo Giannini, pois é a colega que trabalha com um deputado alinhado a Bolsonaro. Todo psicólogo sabe que "quem acusa acaba falando mais de si do que do acusado", afirma.

Rozangela não foi a única, contudo, a ver viés partidário no grupo que perpetuará no poder. 

No debate, um dos concorrentes, Allan Galleazzo, fustigou Ana Sandra: por que o atual presidente esteve em 2017 na Venezuela, junto com psicólogos que agora compõem a chapa sucessória, e chegou a postar uma selfie com o ditador Nicolás Maduro?

Ela respondeu que Rogério foi a convite para um congresso latino-americano da categoria, do qual "o presidente daquele país participou, tirou aquela foto, enfim".

Allan rebateu: "O maior efeito prático foi que virou foi piada na internet, a gente acessa o Facebook e vê a cara de tietagem do nosso presidente com um ditador".

Rogério afirma que considera fake news o compartilhamento descontextualizado de uma selfie que tirou "sem pretensão" e postou em seu Facebook. Diz que ninguém vai achar manifestações dele pró ou contra a Venezuela e que também aparece em retratos com outras personalidades, como a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia.

Fato é que atos afins levaram  psicólogos como Rozangela a acusar a chapa triunfante de "pautar suas ações em políticas partidárias, respaldadas em teorias inventadas, sem qualquer fundamentação científica, construídas simplesmente para a desconstrução de todo o sistema de crenças e valores sociais". 

É o que diz a plataforma divulgada pela 24, que também cita "fortalecimento da família" e a necessidade de "promover o debate interno acerca de temas polêmicos e que ainda não tenham o respaldo científico". 

Viu-se ali a margem para rediscutir a tal "terapia de reversão sexual". Uma resolução do CFP de 1999 proíbe a oferta desse tipo de tratamento, "considerando que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão". Vai ao encontro do entendimento da Organização Mundial da Saúde sobre o tema.

Murillo Rodrigues dos Santos, outro candidato, cobrou "embasamento científico" e questionou se os companheiros da 24 "não têm noção que a forma como vocês abordam a temática gera mais sofrimento à população LGBT". Foi aí que Rozangela citou a tese acadêmica dela. 

Colegas como Marisa Lobo, autointitulada "psicóloga cristã" e também bolsonarista, dizem que a 24 pode ser um tiro no pé. "Esse foi o problema da chapa. Usar esta bandeira [da "cura gay"], que assusta as pessoas. É ser contra uma doutrinação defendendo outra."

Em 2009, Rozangela disse à Folha se sentir perseguida por conselhos de psicologia afoitos para "implantar a ditadura gay" e instaurar a "Santa Inquisição para heterossexuais".

O malogro de Rozangela levou a uma enxurrada de comentários na página do CFP no Facebook, tais como: "Os derrotados deveriam entregar seus diplomas e virarem pastor, padre ou terapeutas. Na psicologia não há espaço para dogmas religiosos e preconceitos". 

Um discurso presente, ainda que de forma mais sutil, no programa da chapa que ganhou. "Não confundimos religião com ciência", diz o texto, que toma uma direção alinhada com valores progressistas: "Nossa sociedade e nossa ciência carregam marcas profundas derivadas de violências estruturais como o racismo, o sexismo, o patriarcado, o capacitismo, a LGBTfobia". 

Antes de anunciar a apuração dos votos, a presidente da comissão eleitoral do CFP, Iolete Ribeiro da Silva, saudou os presentes com a chamada linguagem neutra, adotada por quem não quer enquadrar alguém como puramente masculino ou feminino: "Boa noite a todas, todos e todxs".

Para Ana Sandra, é um erro fazer a "associação automática" entre defensores de direitos humanos e esquerdistas.

"Pessoas dos mais variados matizes políticos, seja de esquerda, centro ou direita, defendem direitos humanos. Não é 'coisa só da esquerda'."

A presidente eleita diz à reportagem que "quem acusa as gestões do CFP de serem de esquerda tenta pegar carona no discurso utilizado nas eleições de 2018, que prega o ódio acentuado a um determinado partido ou posição política. Como se fosse uma chaga ou um mal a questão de alguém ser de direita ou de esquerda."

A Folha tentou falar com Rozangela e chegou a enviar perguntas a ela, a pedido. Elas, contudo, não foram respondidas.

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