Em categorias de base, rodeios de Barretos buscam ampliar diversidade

Festa, que termina neste domingo, tem competição feminina e presença de locutor autista

Marcelo Toledo
Barretos (SP)

“A partir de agora vai continuar o rodeio júnior, simbora!”. A frase, comum no mundo dos rodeios e dita na última quinta-feira (22), seria apenas mais uma das centenas utilizadas por locutores, não fosse seu autor um jovem com autismo, o primeiro a narrar uma montaria na história da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos.

O jovem Tálick de Castro, 24, de Viradouro (SP), que foi diagnosticado com TEA (Transtorno do Espectro Autista) aos seis anos, desde criança já gostava do universo country e se vestia com chapéu, camisa xadrez, calça jeans, botas e cinto com fivela.

A inspiração surgiu de um primo que foi locutor de rodeios, e a vontade de atuar na profissão povoou os pensamentos de Castro até o ano passado, quando participou de um curso de narração do locutor Barra Mansa, um dos ícones das arenas.

“É um sonho imenso estar aqui, muito bom. É isso que eu quero na vida”, disse o locutor momentos antes de entrar na arena do rodeio júnior, dedicado a peões adolescentes e com o objetivo de revelar novos talentos.

Concentrado, narrou algumas montarias e repetiu o feito no dia seguinte. Questionado se pensava em narrar no estádio de rodeios, ao lado do espaço em que estava e que comporta 35 mil pessoas nas arquibancadas, abriu um sorriso: “Seria incrível, demais, é Barretão, né?”.

Coordenador do rodeio júnior, José Alexandre Paiva disse que o desempenho de Castro surpreendeu.

Diretor de rodeios de Os Independentes —associação que organiza a festa—, Marcos Abud afirmou que o rodeio júnior ajuda a revitalizar a festa e as montarias. “Há tanto competidor no país que às vezes não há rodeio para eles. O mesmo se aplica aos locutores, por isso é importante investirmos na meninada.”

Mas Castro não é o único a apresentar ineditismo em sua atuação na festa em Barretos (a 423 km de São Paulo), a mais tradicional do gênero no Brasil.

A tropeira Marcela Mesquita, 37, pela primeira vez levou animais de seu plantel de 20 touros para a festa. É a única mulher dona de boiada num universo predominantemente masculino.

A aventura começou há um ano, quando ela, de Luiz Antônio (SP), ganhou cinco animais do marido, Luís Eduardo.

“Minha família tem sítio, meu irmão era tropeiro, ele parou e eu resolvi [entrar]. Minha intenção era ficar só a primeira semana em Barretos, mas conseguimos classificar um touro para o internacional. Já foi uma vitória”, disse.

Assim como os peões, touros que apresentam os melhores desempenhos se classificam para a fase seguinte da festa. “A gente não esperava [a classificação], nem trouxemos roupas. Estamos lavando roupas sujas nas mãos.”

Dos 20 animais que tem, 6 foram levados para participar do rodeio interestadual e um, Linha Direta, se classificou para o Barretos International Rodeo, a fase da festa que reúne peões brasileiros e estrangeiros.

Marcela afirmou que a mulher é vista como alguém incapaz de conseguir destaque no mundo dos rodeios, considerado machista por ela, mas que isso não a preocupa.“Eu tiro de boa isso. Não é fácil, claro, ser a única mulher entre 40 tropeiros, mas é a chance de conquistarmos nosso espaço”, afirmou.

A Festa do Peão de Barretos terminará neste domingo (25), com as finais do Barretos International Rodeo e das outras modalidades, com premiação total de cerca de R$ 1 milhão.

Montaria em touro tem competição de mulheres pela 1ª vez

Em ano marcado por participações inéditas, a Festa do Peão de Barretos tem a participação de três garotas no rodeio júnior, que decidirá neste domingo a primeira campeã da modalidade na história da festa.

Bárbara Gabrielle Lúcio Berto, 17, de Uberaba (MG), Ana Clara Barbosa Ribeiro Vieira, 17, de Ouro Branco (MG), e Ana Júlia Rodrigues, 16, de Pirassununga (SP), afirmaram que não têm medo dos animais, que começaram a montar influenciadas por homens da família e que pretendem fazer com que a modalidade passe a fazer parte das festas no país.

No primeiro dia, apenas Bárbara conseguiu ficar o tempo necessário no touro. Primeira a se classificar, ela afirmou que sua intenção era competir com os meninos, mas o surgimento de outras competidoras fez com que a organização criasse um evento paralelo. “Se as mulheres se dedicarem, ocupam esse espaço.”

Já Ana Júlia é irmã de Guilherme Valeiras, quarto colocado em 2018 e hoje peão profissional. “Só me cobraram que vá bem na escola. Não consegui hoje, mas sempre há o dia seguinte”, afirmou ela, sobre seu desempenho.

Ana Clara, que monta há um ano, foi a primeira a estrear em Barretos. “É a realização de um sonho não só para mim como para minha família.” De acordo com ela, não dá tempo para ter medo quando a montaria está para ser iniciada. “A gente só pensa em cumprir o tempo.”

Em Barretos, há distinção nas regras. Enquanto para os meninos os touros podem pesar até 22 arrobas (330 kg), para elas são selecionados animais com até 15 arrobas (225 kg). Além disso, os animais utilizados na categoria feminina são mochos —sem chifres.

Neste ano, há 36 peões disputando o rodeio júnior, inclusive um do Texas (EUA).

Em relação à montaria profissional, em que os touros chegam a pesar mais de uma tonelada, há outra diferença: no júnior, para uma montaria ser considerada válida é preciso que o peão fique seis segundos sobre o touro. No adulto, o tempo é de oito segundos.

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