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Nomes femininos são apenas 16% dos que batizam ruas de São Paulo

Tendência resiste há décadas; entre 45.717 vias, mulheres homenageadas costumam ser santas

Rua Maria Paula, na região central de São Paulo, foi a primeira via com nome de mulher oficializada na cidade, no fim do século 19  

Rua Maria Paula, na região central de São Paulo, foi a primeira via com nome de mulher oficializada na cidade, no fim do século 19   Eduardo Anizelli/Folhapress

Thiago Amâncio Guilherme Garcia
São Paulo

Dona Maria Luzia dos Santos sai cedo de sua casa, na rua Belmira Marin, no Grajaú (zona sul de SP), para chegar à rua Maria Paula, na Bela Vista (região central), onde trabalha como diarista.

Maria Luzia diz que não faz ideia de quem sejam as homenageadas nas placas dos lugares que frequenta. “Devem ser pessoas importantes, né?”

Ela é quase exceção por morar e trabalhar em ruas com nomes de mulheres, que são apenas 16% das vias que carregam nomes de gente na cidade de São Paulo, segundo levantamento feito pela Folha

A cidade tem 45.717 vias (entram aí ruas, avenidas, praças, travessas, entre outros). Dois terços desse total homenageiam pessoas —muito mais homens do que mulheres.

O levantamento foi feito a partir da base de dados do Dicionário de Ruas, serviço da Prefeitura de São Paulo que mostra por que essas vias têm o nome que têm. A classificação de gênero foi feita ao cruzar esses dados com o banco de nomes do IBGE.

A proporção de novas ruas com nomes femininos aumentou ao longo do tempo, mas a diferença permanece grande mesmo nos dias de hoje. Enquanto nos primeiros 20 anos do século passado 17% das novas ruas com nomes de pessoas homenageavam mulheres, no novo milênio a taxa ficou em 24%.

Heloisa Buarque de Almeida, professora da Universidade de São Paulo que estuda gênero e antropologia urbana, diz que a desigualdade dos nomes “só espelha as desigualdades da nossa sociedade”. “Se você cruzar também com classe social e cor da pele, vai ver também que há poucos pobres e poucos negros.” 

Segundo ela, as ruas carregam nomes de pessoas que foram consideradas importantes em alguma medida. “No Brasil há pouquíssima participação feminina no Legislativo ou no Executivo. Os homens durante muito tempo eram vistos como as pessoas que faziam a história, a historiografia estudava personagens masculinos, que estavam em cargos de poder. E essas pessoas viraram nomes das rua.”

Parte das vias da cidade identifica seus homenageados com um título, como a rua Doutor Arnaldo ou a estrada Engenheiro Marsilac. Títulos assim são comuns entre os homens: doutor, professor, coronel. Entre as mulheres, no entanto, a maior parte do reconhecimento é religioso: Santa Ifigênia, Nossa Senhora da Luz, Irmã Carolina.

A rua Maria Paula, na Bela Vista, onde trabalha Maria Luzia, foi a primeira a ser oficializada com nome de mulher, segundo a base do Dicionário de Ruas, há 125 anos —a oficialização mais antiga foi a da rua Cristóvão Colombo, na Sé, dois anos antes.

Maria Paula vem de uma linhagem de ruas importantes: quem deu esse nome foi sua neta baronesa de Limeira, que tinha terras na região. 

Seu marido, o Barão de Limeira (rua nos Campos Elíseos onde fica a Folha) é filho do Brigadeiro Luiz Antônio (avenida na Bela Vista) e da dona Genebra (também na Bela Vista). Fazem parte da família ainda o Marquês de Itu, o Barão de Piracicaba, a Angélica (da avenida), entre outros.

 

Belmira Marin, nome da rua onde Maria Luzia mora, é mãe de José Maria Marin, ex-presidente da CBF —essas informações estão no Dicionário de Ruas, que foi criado pelo escritor Mário de Andrade e é alimentado desde os anos 1930.

“Por trás de uma placa azul [padronização adotada em 1915], existe uma história de uma pessoa, um bairro, uma cidade, uma sociedade”, diz Luís Soares de Camargo, diretor do Arquivo Histórico Municipal, onde fica a Coordenação Denominação de Logradouros e Próprios Municipais.

Prova disso é a presença de militares nos logradouros da cidade. Nas décadas de 1960 a 1980, ditadura militar, 19% das novas ruas com títulos ganharam nomes com patentes militares. Neste século, foram 9%.

A maior concentração desse grupo está na Vila Maria. É lá onde fica o Parque Novo Mundo, bairro que foi escolhido para homenagear os soldados brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial

Ao redor da praça Novo Mundo estão vias com nomes de Segundo Sargento, Cabo, Soldado, Tenente, e outras patentes. Lá fica também a avenida Heróis da F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira) e a rua Pistoia, nome de cidade italiana onde muitos desses soldados foram enterrados.

Na Coordenação de Denominação de Logradouros e Próprios Municipais, trabalham quatro pessoas, que têm como função alimentar o Dicionário de Ruas e analisar os novos nomes propostos (por vereadores e moradores da cidade), a partir das leis que regulamentam essa nomeação.

É um trabalho contínuo. No ano passado, 214 novas ruas foram oficializadas. Neste ano, até o fim de julho, foram 76.

Há regras objetivas. É proibido, por exemplo, nomear uma rua com nome de pessoa viva. Também não se pode alterar o nome de uma rua que já existe, a não ser que haja homônimo ou se o homenageado “cometeu crime de lesa-humanidade ou graves violações de direitos humanos”.

É com base nessa legislação que a prefeitura mudou, em 2016, o nome do elevado Costa e Silva (ditador militar) para elevado João Goulart (presidente deposto pelo golpe de 1964) e o viaduto 31 de Março (data do golpe), na Sé, para viaduto Therezinha Zerbini, ativista presa pelo regime.

Já houve na cidade uma rua “Adolpho” Hitler, que virou rua Gil Eanes ainda em 1931, antes de o líder nazista virar chanceler da Alemanha..

Nos anos 1970, estudantes criaram 25 mil nomes de ruas

São Paulo crescia rapidamente no século passado e, na década de 1970, quase metade das ruas não tinha nome —eram chamadas apenas por uma letra ou por um número.

A prefeitura criou uma comissão em 1975 para resolver o problema. “Deixaram 32 malucos, metade de manhã e metade à tarde, sozinhos, no penúltimo andar do prédio da Secretaria de Finanças, criando nome de rua”, diz o jornalista Dirceu Rodrigues, à época estudante de letras.

As fontes eram as mais variadas. Dicionários, enciclopédias, músicas, livros, artistas.

Daí vieram nomes como Arreio de Prata, Beleza Pura, Chuva e Sol, Dança das Borboletas, Corre-Corre, Canção Agalopada, Chão de Giz, Luz e Sombra e Azul da Cor do Mar, títulos de canções que hoje batizam uma sequência de ruas paralelas e perpendiculares em Itaquera.

Nesse período surgiu também a Borboletas Psicodélicas, rua no Jabaquara, zona sul. O músico José Tadeu da Fonseca, 68, era estudante de turismo então. “Pegava dicionários, livros e começava a criar”, diz. 

“Na literatura, você pegava um período e elencava nomes de grandes autores, obras, personagens, e sugeria um bloco de nomes. Modernismo, por exemplo, 30, 40 ruas, com nomes como Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo, Victor Brecheret, Villa Lobos, Macunaíma, Pauliceia Desvairada.”

“Mas não tínhamos controle. Depois que entrava no banco de nomes, caía na mão de um burocrata qualquer. Fiz um catálogo de ruas do estilo barroco e quando vi tinha uma rua chamada Estilo Barroco”, relembra, rindo.

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