Nova geração de pais divide papel, mas ainda é barrada em espaços para mães

Homens precisam romper barreiras sociais e físicas para se envolverem mais na rotina dos filhos

Pais se reúnem para praticar crochê e tricô

Pais se reúnem para praticar crochê e tricô Brunno Covello/Folhapress

Júlia Zaremba
São Paulo

Mais presentes e atuantes do que as gerações anteriores na criação de seus filhos, cada vez mais homens têm buscado ambientes físicos e digitais para compartilhar experiências sobre a paternidade e rever os padrões de masculinidade passados.

Mas ainda há obstáculos, culturais e institucionais, a serem superados para que a paternidade ativa seja regra.

De acordo com o relatório Situação da Paternidade no Mundo, divulgado em junho pela organização Promundo, 85% dos pais afirmaram estar dispostos a se envolver nos cuidados do filho nos primeiros meses de vida. Foram ouvidos 11.334 pessoas em sete países, inclusive no Brasil, sendo 4.836 deles pais.

As mulheres, contudo, chegam a passar até dez vezes mais tempo com tarefas domésticas e não remuneradas —o que inclui o cuidado com crianças, segundo dados da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que reúne países ricos). No Brasil, elas ainda gastam nessas tarefas 4,27 mais tempo por dia. 

O quadro aos poucos se atenua. Miguel Fontes, fundador e diretor da Promundo, afirma estar ocorrendo uma mudança de mentalidade, especialmente em segmentos com nível de escolaridade maior. 

“Os casais optam por ter menos filhos e os têm mais velhos. Com estabilidade, a paternidade torna-se um objetivo, e o homem se prepara mais para isso.” 

O consultor de projetos culturais Gustavo Seraphim, 39, criou um grupo com pais de alunos da escola do filho e agregados para tricotar. Ele começou a fazer trabalhos manuais há cerca de um ano e diz que a tarefa o ajudou a desconstruir estereótipos de masculinidade que carregava.

Mais do que produzir peças de vestuário, o objetivo da roda de conversa é trocar ideias sobre paternidade. “Homens não conversam muito sobre fragilidades. Às vezes, achamos que um problema é só nosso, e descobrimos que acontece com outros pais”, diz. 

Um dos participantes reclamou que pessoas próximas não viam com bons olhos o fato de a mulher trabalhar fora de casa e ele, com rotina flexível, ser o responsável principal pelo cuidado dos filhos. 

“O homem que não trabalha fora de casa e não ganha melhor do que a esposa é visto como menos homem”, diz.

“O ideal de macho alfa faz com que fiquemos distantes do cuidado dos filhos e da parceira.”

Os cinco encontros, todos em Curitiba, onde ele vive, reuniram 11 homens. O próximo ciclo terá início neste mês. 

Um grupo de conversa sobre paternidade sem linhas e agulhas é capitaneado pelo psicólogo Flávio Urra, pelo funcionário público Reginaldo Bombini e pelo defensor público Anderson Almeida da Silva. O próximo encontro será em 21 de agosto, em Santo André (ABC Paulista). 

“A gente não é preparado para exercer a paternidade. Não brinca de boneca, não aprende a cuidar de alguém. A educação do menino é focada na violência e na força”, diz Urra. Para Silva, existe uma ideia na sociedade de que o cuidado com a criança é inerente à mãe. “Como se não fosse aprendizado, técnica e ação”, diz ele, pai de dois filhos. 

O defensor passou por uma situação de desconfiança alheia quanto a suas habilidades como pai. Estava na praia com a filha, que tinha 2 anos na época, e soltou a menina para que fosse andando até a beira da água. No meio do caminho, uma mulher a pegou no colo e começou a chamar pela mãe da criança.


“Ela estava aprendendo a andar. A mulher interrompeu o processo. Não me reconheceu como cuidador”, conta. 

Para ele, a resistência para confiar nas capacidades de cuidar do homem “diminuem a potência” dos pais.

O cientista político Manoel Galdino, 39, viveu episódio semelhante. Certa vez, quando estava no aeroporto com a filha, hoje com 2 anos, uma mulher a pegou no colo. Achou que ele precisava de ajuda porque estava carregando várias malas e itens da menina. 

“Me senti diminuído. Parecia que não sabia cuidar dela. Não pedi ajuda. Se precisasse, seria para pegar a mala.” Galdino faz parte de um grupo de WhatsApp com quase 200 participantes de diferentes estados.

Segundo ele, que conta já ter participado de grupos de mães, o de pais é “mais prático” —o machismo barraria temas sentimentais. 

Livros, modelos de carrinho para o filho e temas de saúde (com quantos graus de febre os filhos devem ser levados a um hospital, por exemplo) são alguns dos assuntos, diz Renato Sato, fundador do grupo.

Quem o criou grupo, na realidade, foi a mulher de Renato, que após reunir um grupo de cerca de 20 homens, saiu e os deixou se virarem. “Pensei que não ia funcionar. Falei que os homens não curtem isso, só falariam besteira”, diz ele. 

 

A falta de informações sobre cuidados com crianças voltadas para homens foi o que motivou o empreendedor social Leandro Ziotto, 34, a criar a plataforma 4Daddy em 2016. Ele é “pai afetivo” de Vinícius, 11, filho da ex-mulher.

Em uma madrugada, buscou na internet “como colocar criança de 4 anos para dormir”. “Até a quinta página, só havia matérias para mães, ensinando, por exemplo, a aproximar o filho do ventre.” 
Além de obstáculos culturais, existem os institucionais.

Licença-paternidade curta (20 dias para quem trabalha em empresas ligadas ao programa Empresa Cidadã e 5 para os demais) e a falta de trocadores de fraldas e de espaços família nos estabelecimentos são dois dos principais. 

Há um ano, a cidade de São Paulo passou a exigir por lei que todos os shoppings e estabelecimentos similares tivessem fraldários acessíveis a homens. A Folha contatou 35 shoppings da capital, e todos afirmaram cumprir a exigência. Mas os homens ainda são minoria nos fraldários. 

O shopping Pátio Higienópolis, na região central, estima que 20% dos frequentadores do espaço família sejam homens. No Center Lapa (zona oeste), eles são 30%.

O desafio é estender a iniciativa a outros espaços. “Não encontramos  espaços compartilhados em lugares públicos, como parques e áreas de lazer”, diz o educador social Renê Pataro, 39, pai de três. “A gente limita os passeios.”

Edgar Demarchi, 33, pai de uma menina de 5 anos, reclama de parques e clubes.“Quando estou sozinho, tenho que levá-la ao banheiro masculino. É constrangedor”, diz o educador social. “Abro a porta, olho e, dependendo do estado, entro rápido com ela.”

Para Fontes, falta mais mudança concreta, em casa e na rua. “Quando se mudamos espaços, as relações mudam.”

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